Música erudita

Beethoven, clássico e atual com o maestro espanhol Pablo Heras-Casado

Heras-Casado vem aplicando com o compositora chamada abordagem historicista: interpretar suas obras com instrumentos da época, e com uma leitura anexada à partitura original

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Publicado em 15/10/2020 às 14:38
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Pablo Heras-Casado, o maestro espanhol com maior projeção do momento e um apaixonado explorador da obra do compositor alemão Ludwig van Beethoven, cujo 250º aniversário de nascimento é comemorado este ano. - FOTO: Gabriel Bouys/AFP
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Álvaro Villalobos


A música clássica está fadada a se repetir? Nem um pouco, e menos ainda no caso de Beethoven, diz Pablo Heras-Casado, o maestro espanhol com maior projeção do momento e um apaixonado explorador da obra do alemão, cujo 250º aniversário de nascimento é comemorado este ano.
Com quase 43 anos, Heras-Casado dirige há mais de duas décadas os palcos de maior prestígio da Europa e dos Estados Unidos. No dia 25 de outubro fará sua estreia no Scala de Milão com obras de Wagner, Prokofiev e Schönberg.
À espera deste novo desafio, que aguarda com "grande entusiasmo", reflete sobre a sua procura da originalidade numa entrevista à AFP no Teatro Real de Madri, onde é o principal maestro convidado.
"Perpetuar uma tradição sobre a qual não se pensou nem se refletiu é a morte da arte e um sinal de preguiça intelectual", afirma.
Seu repertório vai do barroco à música de vanguarda, mas sua maior fraqueza se chama Ludwig van Beethoven, nascido há 250 anos: "ele me acompanhou ao longo da minha vida", sorri.
Apoiado em elaborado arcabouço teórico, Heras-Casado vem aplicando com o compositor de Bonn a chamada abordagem historicista: interpretar suas obras com instrumentos da época, e com uma leitura anexada à partitura original, que dispensa a "pátina" dos cânones herdados de alguns maestros importantes do século XX.
A diferença para o ouvinte, em comparação com uma orquestra sinfônica moderna, é perceptível.
Nos séculos XVIII e XIX, as cordas de violinos, violas e violoncelos não eram metálicas como são agora, mas baseadas em tripas de porco, que produzem um som menos potente e forçam uma execução um pouco mais rápida da partitura.
O som dos metais também muda: menos incisivo e mais amplo.
"Em teoria, têm possibilidades mais limitadas" esses instrumentos, usados nas orquestras barrocas atuais, ressalta.
Mas se deixarmos "a música falar (...) surge algo muito mais inovador" do que o "molde" com que muitas vezes se ouve e se repete o repertório clássico em auditórios e conservatórios de música.
"Quando se sabe algo mais sobre a verdade, sobre a essência da arte de um compositor, ninguém pensaria em cobri-la com uma dose de lugares comuns", defende Heras-Casado, convencido de que em cada interpretação se deve "tentar oferecer a possibilidade de voltar a ouvir uma obra".

Uma década de dedicação

O maestro espanhol passou uma década trabalhando nesta forma de interpretar com a Orquestra Barroca de Friburgo, especializada neste prisma historicista que até há poucos anos padeceu de um certo esnobismo por parte do público e de alguns críticos.
Com esta formação, acaba de gravar para a gravadora Harmonia Mundi uma série de obras emblemáticas de Beethoven: os cinco concertos para piano e orquestra, a 9ª sinfonia e o triplo concerto para violino, violoncelo e piano.
Um autor, o alemão, de grande atualidade, pois afirma Heras-Casado que foi "o primeiro compositor moderno por sua atitude pessoal", e por "não querer pertencer a uma ordem estabelecida", como demonstrou ao riscar a dedicatória a Napoleão da 3ª Sinfonia, após proclamar-se imperador da França.
Originalmente, nada predispôs este andaluz de Granada a tal carreira. Ele cresceu em uma família estrangeira à música clássica e começou cantando no coro de sua escola.
Mais tarde, viriam os estudos de piano e depois regência, com professores como o pianista e maestro de origem argentina Daniel Barenboim - "uma grande mente" -, e o compositor e maestro francês Pierre Boulez (1925-2016), um "iconoclasta" que incutiu nele "fidelidade à partitura".
Até o momento, regeu orquestras de prestígio, como a Filarmônica de Munique, a Filarmônica de Viena, a Staatskapelle de Berlim e as sinfônicas de Boston, Chicago e São Francisco.
No Teatro Real de Madri em 2021 continuará com "Siegfried" a tetralogia wagneriana do "Anel Nibelung", uma comissão operística de 16 horas de música no total que define como "um dos projetos mais emocionantes de [sua] carreira".
Seu compromisso mais imediato, também no Real e com 50% da capacidade, será no dia 19 de outubro.
Será um concerto de caridade contra a pobreza infantil na Espanha, patrocinado pela ONG "Ayuda en Acción", da qual é embaixador, e no qual espera ver um grande público, porque nestes tempos de ansiedade pandêmica "todos precisamos como sociedade".
Ele comandará, de Beethoven, a Sétima Sinfonia e a Abertura de Coriolano.

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