LITERATURA

Em novo livro, Ana Maria César conta a história do assassinato que culminou na Revolução de 30

No mês dos 90 anos da Revolução de 30, a Cepe lança o livro Três Homens Chamados João – Uma Tragédia em 1930

Valentine Herold
Valentine Herold
Publicado em 21/10/2020 às 18:12
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ONLINE Ana Maria César faz lançamento pelo canal do YouTube da Cepe - FOTO: DIVULGAÇÃO
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No final de julho de 1930 uma tragédia anunciada iria selar o destino de três paraibanos e mudar os rumos da política nacional. Por coincidência do destino, as vítimas atendiam todas pelo nome de João - Pessoa, Dantas e Suassuna - e o assassinato desses homens abriria uma brecha para que Getúlio Vargas chegasse ao poder em outubro do mesmo ano a partir do movimento que ficou conhecido como Revolução de 30.

A história de João Pessoa, político paraibano morto no Recife, na Confeitaria Glória, na Rua Nova, pelo seu opositor, o advogado João Dantas, é conhecida de muitos e faz parte dos anais da história brasileira. Mas grandes fatos sempre deixam margem para novas interpretações e o tempo costuma trazer novos detalhes até então desconhecidos e é nesse contexto que é lançado o livro Três Homens Chamados João – Uma Tragédia em 1930, da escritora pernambucana Ana Maria César.

A obra - no momento apenas disponível em formato e-book - está sendo publicada pela Cepe e, para marcar o lançamento, a autora participa de uma live nesta quinta-feira (22), às 17h30, com o editor Diogo Guedes, no canal do YouTube da editora. Ao longo das 388 páginas, Ana Maria mergulha no Nordeste da primeira década do século 20 traça um panorama social e político de Pernambuco e da Paraíba.

O enredo é historiográfico mas a linguagem literária e, em muitos momentos, ela se coloca como narradora onipresente descrevendo fatos como se estivesse participado deles. "Não sei escrever de outra maneira, é como se eu vivesse outras vidas, fico completamente imersa naquele universo", conta. Livros históricos já fazem parte da vida de Ana Maria, que também é autora de A Bala e a Mitra, sobre o assassinato nato do bispo de Garanhuns Dom Expedito Lopes, em 1957; A Faculdade Sitiada, em que relata o movimento estudantil recifense de 1959; e E Ainda Último Porto de Henrique Galvão, sobre a chegada do navio Santa Maria ao Porto do Recife, sequestrado por asilados portugueses e espanhóis, ao tempo das ditaduras na Península Ibérica.

O fascínio pela Revolução de 30 data da pré-adolescência quando, aos 12 anos, ouviu seu pai contar sobre a morte de João Pessoa. Tanto o pai quanto a mãe de Ana Maria eram paraibanos e da Aliança Liberal, então nutriam uma grande admiração pelo político. Aliás, é notória a história que o corpo de João Pessoa foi levado para várias capitais brasileiras antes de ser enterrado no Rio de Janeiro, se tornando um mártir, o símbolo do que a velha política oligárquica era capaz de matar para manter seus interesses.

Ele era candidato a vice na chapa de Getúlio Vargas, em oposição a Júlio Prestes, que venceu as eleições. Dentre outros motivos, foi também a morte de seu aliado que fez Vargas destituir o então o presidente Washington Luís, impedindo a posse de Prestes e tomando o poder.

João Dantas e Augusto Caldas, seu cunhados, foram presos na capital pernambucana e, posteriormente, encontrados mortos em suas celas. João Suassuna, pai de Ariano Suassuna e então deputado do mesmo grupo político de Dantas, morre dias depois no Rio de Janeiro, por vingança injusta, como pontua Ana Maria César.

"Ele foi uma das grandes vítimas dessa história pois não teve envolvimento nenhum, assim como Augusto Caldas e Anayde Beiriz, noiva de João Dantas, que também acaba morta. Suassuna imaginava que pudessem ir atrás dele, tanto que ele escreveu uma carta para sua esposa em que desabafa sobre essa desconfiança e pede para, caso ele morra, ninguém procure vingá-lo. Ele era um grande pacifista."

A carta, assim como muitas citações e trechos de jornais da época, é relatada no livro. Foram quatro anos de pesquisa e escrita, entre idas ao Arquivo Público e consultas online do periódicos dos anos 20 digitalizados. Três Homens Chamados João – Uma Tragédia em 1930 ainda joga luz sobre a história e a trágica morte de Anayde Beiriz, até então muito pouco conhecida.

 

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Três Homens Chamados João – Uma Tragédia em 1930, lançamento da Cepe - DIVULGAÇÃO

Leia um trecho do livro:

"João Dantas subiu as escadas e dirigiu-se aos aposentos de João Suassuna. Entregou-lhe o artigo pedindo que o lesse, depois o mandasse à redação do Jornal do Commercio para publicação no dia seguinte. Da varanda do Hotel Lusitano observava os carros passarem. Procurava um especial, com placa oficial da Paraíba.Quase desiludido de encontrar seu desafeto, seguiu pela Rua Nova até a Praça Joaquim Nabuco. Passava das 17 horas. O Cine Teatro Moderno há pouco encerrara a matinê, onde exibira o filme “Moderno Fausto” com Ricardo Cortez e Claire Windsor.

A Praça Joaquim Nabuco se encheu de gente, o som dos saltos dos sapatos tamborilando nas pedras portugue-sas, abafando a conversa alegre e descontraída em direção à tarde amena da Rua Nova. João Dantas já pensava voltar a Olinda, quando avistou o carro oficial da presidência passar em direção a uma bomba de gasolina, vindo da Rua Nova. Imaginou o presidente da Paraíba se encontrar nas imediações. Para lá se dirigiu. No número 318, esquina com a Rua Santo Amaro, a Confeitaria Glória, local de encontro habitual da mais fina sociedade recifense, sobretudo nas tardes de sábado. Pensando aí encontrar João Pessoa, entrou pela porta lateral, que dava para o elevador, de onde observou todo o salão.

Numa das mesas, o presidente paraibano, acompanhado de Caio de Lima Cavalcanti e outras duas pessoas. Retrocedeu nos passos, saiu pela porta da Rua Santo Amaro, entrando novamente pela porta central do salão. Aproximou-se da mesa e, à queima-roupa, detonou a arma, não antes de declarar, em tom firme e insidioso: “Eu sou João Dantas...” Munição velha, o primeiro tiro falhou. Receando falhassem outros cartuchos, acionou o gatilho duas vezes consecutivas em direção a João Pessoa, alguém o puxou pelas costas e o último tiro foi dado sem mira. (...)"

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