LITERATURA E MÚSICA

Obra poética e musical de Cacaso é lançada em um único volume, com textos inéditos

Um dos principais nomes da Geração Mimeógrafo e grande letrista da Música Popular Brasileira, Cacaso morreu em 1987 aos 43 anos. A editora Companhia das Letras resgata seu legado com o lançamento Poesia Completa

Valentine Herold
Valentine Herold
Publicado em 01/11/2020 às 11:00
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Cacaso, em 1981 - FOTO: DIVULGAÇÃO
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No poema que dá título ao livro Na Corda Bamba (1978), Cacaso proclama: "Poesia/ Eu não te escrevo/ Eu te vivo? E viva nós!". E de fato ele viveu seus curtos 43 anos com uma intensidade marcada a todo instante pelo criar poético, tanto através dos versos publicados em seus livros (e outros muitos que ficaram guardados em seus cadernos particulares) quanto nas mais de 200 letras de músicas que compôs em parceria com grandes artistas da MPB e amigos queridos.

Um dos nomes mais emblemáticos da Geração Mimeógrafo, Cacaso ganha agora uma justa e linda homenagem com o lançamento de sua Poesia Completa pela Companhia das Letras (456 pgs., R$89,90 o livro físico e R$ 29,90 o e-book).

E com respeito àquele problema/ do futuro acho que vou ficando por aqui..."
Máquina do Tempo

Nascido em 1944, na cidade mineira de Uberaba, Antônio Carlos de Brito começou a escrever ainda adolescente, quando já morava no Rio de Janeiro. A cidade e seu apartamento de frente para o mar foram palco de muitas histórias e uma espécie de QG de fomento à poesia e à música nos anos 70 até 1987, quando Cacaso morre de infarto, deixando dois filhos - Pedro, do primeiro casamento, e Paula, ainda bebê, furto do relacionamento com a cantora e compositora Rosa Emília Dias.

Além de ter sido parceira de vida e de trabalho, Rosa Emília é uma das guardiãs do legado do poeta e co-organizadora do Poesia Completa, junto à editora Heloisa Jahn. A obra é dividida em quarto seções: Poesia Completa, que reúne os seis livros do autor; Poemas Inéditos, com dezenas de poemas e desenhos encontrados por Heloisa nos 23 cadernos deixados por Cacaso; Algumas Letras, 60 letras de músicas escritas pelo poeta e selecionadas por Rosa Emília; e Fortuna Crítica, com textos de Roberto Schwarz, Heloisa Buarque de Hollanda, Francisco Alvim, Vilma Arêas e Mariano Marovatto.

O primeiro livro, A Palavra Cerzida, foi lançado em 1967 e sucedido por Grupo Escolar (1974), Beijo na Boca (1975), Segunda Classe (1975), Na Corda Bamba (1978) e Mar de Mineiro (1982). Ao longo desses 25 anos de publicações, a poesia de Cacaso mudou, claro. Em seu primeiro livro, que reúne poemas escritos em 1964 e 1965, impressiona a maturidade de um Antônio Carlos de apenas 19 e 20 anos.

"Fiquei mais velho. 20 anos/ e nenhuma preparação para a vida./ A calma sedimentou-se mas/ a ironia vagueia no campo e ruge./ Pelos olhos recebo o tempo, interpreto/ e nego. É muito forte o tempo./ Me invento na laje, no corte e na/ palavra. Inútil: estou sempre começando./ O amor resvala e acena e já/ descrente desta ou de outra miragem,/ recolho nada entre o céu e a idade./ Tudo esfriou e nem era o frio, e nem/ o germe pondo a noite no casulo:/ Corpo desfeito e tempo nulo", revela em Anulação.

O jovem autor é ainda muito ligado à estrutura do poema, à métrica. Já em Grupo Escolar ele demonstra um rompimento com certas normas, característica que explora de vez nos livros a seguir e pela qual ficou mais conhecido.

Para Heloisa Jahn, Cacaso sempre foi um poeta que prezou pelo humor, pelo exercício livre da palavra e, portanto, esta evolução nunca se afastou do cerne de seu projeto artístico, que é a liberdade em suas mais variadas formas. Ser livre para escrever, compor, cantar, amar, pensar. Num Brasil regido pela Ditadura Militar, essa liberdade tão exaltada nos escritos e no modo de viver de Cacaso era muitas vezes artigo de luxo.

A partir dos anos 70, Cacaso desenvolve o gosto pelos "poemicos", como ressalta a editora. Jogos de palavras e observações que revelam a sagacidade e o bom humor de um artista atento ao seu tempo. "E com respeito àquele problema/ do futuro acho que vou ficando por aqui...", brinca em Máquina do Tempo (Mar de Mineiro). Ou ainda a crítica às instituições muito formais com Poética: "Academia Brasileira de Letras/ de Fôrma/ Academia Brasileira de Letras/ de Câmbio."

Dentre os poemas inéditos encontrados por Heloisa, nada que fuja do estilo cacasiano de fazer poesia. Até nos seus rascunhos e pensamentos soltos colocados no papel, ao lado de muitos desenhos e caricaturas, ele se manteve fiel ao seus ideais. "Em tudo que ele escrevia podemos perceber a presença de um poeta na síntese, capaz de apanhar no ar poucas palavras e transformá-las em arte. Ele era uma pessoa muito doce, brincalhona e ao mesmo tempo tinha um senso crítico afiado e tudo isso se reflete na sua obra", ressalta a editora.

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Rosa Emília e Cacaso, em 1987, durante as gravações do primeiro disco de Rosa, Ultraleve, dedicado à obra do poeta - DIVULGAÇÃO
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Desenho do poeta e letrista mineiro Cacaso (1944-1987), resgatado no livro Poesia Completa (Companhia das Letras, 2020) - DIVULGAÇÃO
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Desenho do poeta e letrista mineiro Cacaso (1944-1987), resgatado no livro Poesia Completa (Companhia das Letras, 2020) - DIVULGAÇÃO
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Lançado este mês pela Companhia das Letras, livro reúne a poesia completa de Cacaso, além de poemas inéditos, letras de canções e textos de amigos e intelectuais que conviveram com o poeta mineiro - DIVULGAÇÃO
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Caricaturas do poeta e letrista mineiro Cacaso (1944-1987), resgatadas no livro Poesia Completa (Companhia das Letras, 2020) - DIVULGAÇÃO
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Cacaso em 1986, aos 42 anos, um ano antes de falecer - DIVULGAÇÃO

Cacaso, grande letrista

Quem conviveu com Cacaso o descreve como poeta, letrista e intelectual. Professor universitário por muitos anos, ele tinha plena noção do projeto artístico com o qual estava contribuindo junto à Geração de 70. "Ele estudava o que escrevia, sabia o que estava fazendo, que estava fomentando um estudo sobre essa geração dele. Cacaso era um cara consciente do que estava armando e da obra que estava construindo", lembra Rosa Emília. "Ele falava 'estou fazendo um baú e ele está cheio de coisas', porque era assim a cabeça dele, fervilhando de ideias."

Assim como tantos artistas e pensadores que partiram cedo demais, é de se perguntar o que Cacaso teria produzido até agora, se vivo ainda estivesse.

No campo da música, ele atuou com paixão e leveza, escrevendo grandes sucessos da música brasileira, como Lero-Lero, Lambada de Serpente, Carro de Boi, Angú de Caroço e Feito Mistério, para citar apenas alguns. E dentre os parceiros: Edu Lobo, Djavan, Sueli Costa, Tom Jobim, João Bosco, Francis Hime, Claudio Nucci, Toquinho...a lista é imensa.

A ideia inicial de Rosa Emília era, inclusive, organizar um songbook com todas as letras de Cacaso - projeto que ela deseja concluir. Nas canções selecionadas para o Poesia Completa, podemos observar temas que eram muito caros ao autor, como ela mesmo ressalta. "Era o rapaz da fazenda, retratado com humor. Cacaso se revelava através de suas próprias letras."

Para as gerações nascidas nos anos 90 e 2000, o livro é uma oportunidade de conhecer um dos grandes poetas brasileiros em sua essência e perceber o quanto seus escritos continuam atuais. E para quem foi contemporâneo de Cacaso, uma bela maneira de redescobri-lo. Em tempos de pandemia, em que o distanciamento social ainda se faz necessário, ler Cacaso é se sentir menos só e aspirar uma liberdade amiga.

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