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Cineasta Braz Chediak lança carta em solidariedade a Milton Nascimento

O diretor mineiro escreveu carta após Milton Nascimento ser retirado da lista de homenageados pela Fundação Palmares

Rostand Tiago
Rostand Tiago
Publicado em 19/11/2020 às 11:47
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Foto: Davison Nunes/JC Imagem
MILTON NASCIMENTO GANHA CARTA DO CINEASTA BRAZ CHEDIAK - FOTO: Foto: Davison Nunes/JC Imagem
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O cineasta mineira Braz Chediak lançou uma carta em solidariedade ao cantor e compositorMilton Nascimento, retirado do rol das personalidades negras reconhecidas pela Fundação Palmares. No último dia 11, o presidente da fundação, Sérgio Camargo, anunciou que apenas a instituição só homenagearia postumamente, retirando nomes como Elza Soares, Gilberto Gil, Conceição Evaristo, Martinho da Vila e o próprio Milton.

Chediak dirigiu a carta ao próprio Milton, discorrendo sobre a importância do artista para a cultura nacional e afirmando que ele foi excluído "de um lugar que é seu". "Milton você foi "excluído" das personalidades da Fundação Zumbi dos Palmares, mas não foi excluído de nós e viverá enquanto vivermos", diz um trecho.

A medida faz parte de uma série de atitudes controversas de Sérgio Camargo, crítico à aspectos da cultura negra brasileira, incluindo o próprio Zumbi dos Palmares, que dá nome à Fundação. No último dia 17, Camargo anunciou que militares e policiais negros que "se destacaram por seus feitos de natureza heróico/patriótica". Segundo ele, novos nomes devem ser incluídos na lista.

LEIA A CARTA NA ÍNTEGRA

Meu querido Bituca,
acabo de ver, pela televisão, que você foi excluído das “personalidades negras importantes” pelo diretor da Fundação Palmares. Isto me fez pensar: afinal, o que é que Milton fez para “ter sido” importante para tal Fundação? Um entendedor de música ou entendedor de Ser Humano, responderia:

"Milton Nascimento foi um dos maiores cantores da língua portuguesa de todos os tempos, um compositor extraordinário, um Ser Humano invejável.

"Milton levou o nome do Brasil para todos os países do mundo, combatendo o bom combate contra as ditaduras, as desigualdades raciais e sociais, a fome, a miséria, a traição, a ignorância, a mentira.

“Foi um Paladino da paz, da amizade, do abraço fraterno, do ““amai a seu próximo como a ti mesmo".

“Milton Nascimento deu sentido e beleza às nossas vidas. Milton foi e é um brasileiro que nos faz orgulhar de sermos brasileiros”.

Mas, como você sabe, meu querido poeta/cantor, o barco às vezes balança, a noite às vezes cobre o azul do céu, do mar, da terra.

E ficamos tristes.

Tristes porque você foi excluído de um lugar que é seu (por alguém que é nada, meu querido Bituca), como também o foram Abdias Nascimento, Elza Soares, Tim Maia, Martinho da Vila, etc., etc., e até mesmo Zumbi dos Palmares.


Mas um anjo do bem chega até mim e, com sua voz Trespontana, me sussurra: “o presidente da Fundação, Sérgio Camargo, só será lembrado por sua ignorância, recalque, despeito, inveja. E Bituca será lembrado por seu amor, pela sua beleza, por sua voz, enquanto alguém cantar na face da terra. Enquanto nos ajoelharmos e louvarmos a “Voz de Deus”, porque, como disse Elis, “Se Deus cantasse, seria com a voz de Milton Nascimento!”.

E Deus canta, meu querido Bituca, Canta em todas as coisas livres: no vento, nas folhas das árvores e na relva, no murmurar dos riachos, no coração dos amigos... e no grande lamento brasileiro pelo momento de dor pelo qual passamos.

Milton você foi “excluído” das personalidades da Fundação Zumbi dos Palmares, mas não foi excluído de nós e viverá enquanto vivermos.

E depois que deixarmos a vida sua voz continuará ecoando, em eco, como os cascos dos cavalos com suas rubras ferraduras, como a voz nas estradas, como um amigo guardado do lado esquerdo do peito de todos os seres humanos. Como a música da infância no Cine Ouro Verde.

Como o Grande Bituca. O Grande Milton. O Grande Brasil.
E somos gratos a você por isto.
Com carinho,
Braz Chediak

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