CINEMA

Wagner Moura dispara contra Bolsonaro: "veio do esgoto da história"; veja entrevista do ator

Ator e diretor deu entrevista Folha de São Paulo sobre o seu novo filme "Marighela" , feito em 2017 e que teve o pedido par estrear no Brasil adiado várias vezes

JC
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Publicado em 23/10/2021 às 8:57
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RONIN NOVOA WONG/NETFLIX/REPRODUÇÃO E MARCOS CORREA/PR
Ator cedeu entrevista à Folha de São Paulo - FOTO: RONIN NOVOA WONG/NETFLIX/REPRODUÇÃO E MARCOS CORREA/PR
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O ator Wagner Moura está no Brasil para divulgar seu primeiro filme como diretor, "Marighella", e não poupou críticas a atual política cultural do País. Falou de censura, do posicionamento da Ancine e afirmou que Bolsonaro "é um personagem profundamente conectado ao esgoto da história brasileira".

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Wagner Moura afirmou que o filme não chegou antes às salas de cinema por conta da pandemia e de desentendimentos com a Ancine (Agência Nacional do Cinema). Segundo Moura, "Marighella" foi censurado pelo órgão por ser uma biografia de Carlos Marighella. 

"As negativas da Ancine para o lançamento e, depois, o arquivamento dos nossos pedidos não têm explicação. E isso veio numa época em que o Bolsonaro falava publicamente sobre filtragem na agência", disse Moura à Folha de São Paulo.

O filme tem o ator e cantor Seu Jorge como "Marighella", além da participação de Bruno Gagliasso, Adriana Esteves e Humberto Carrão no elenco. Foi exibido no Festival de Berlim de 2019, onde foi aplaudido. Moura acredita que haverá resistência por parte do público ao filme, mas que é algo "sintomático" nos tempos atuais por conta dos ânimos políticos exaltados e de um governo federal que com frequência ataca a cultura.

"A polêmica de 'Marighella' é muito menos sobre o Carlos Marighella e a luta armada do que sobre o governo Bolsonaro. É um filme sobre um personagem histórico, de seu tempo; Bolsonaro que é um personagem anacrônico.", disse Moura na entrevista.

CENSURA

A Ancine adiou a estreia do filme de Wagner Moura no Brasil em duas datas anteriores. Para o diretor, houve censura por parte do governo. "Eu tenho uma visão muito clara sobre isso e não tenho a menor dúvida de que o filme foi censurado. As negativas da Ancine para o lançamento e, depois, o arquivamento dos nossos pedidos não têm explicação. E isso veio numa época em que o Bolsonaro falava publicamente sobre filtragem na agência, que filmes como "Bruna Surfistinha" eram inadmissíveis, que não ia dar dinheiro para financiar filmes LGBT. Foi bem nessa época que os nossos pedidos de lançamento foram negados e, logo na sequência, os próprios filhos do Bolsonaro foram às redes sociais comemorar a negativa da Ancine", relatou Moura.

Wagner Moura continua: "já está muito mais claro para os brasileiros a tragédia que é o governo Bolsonaro do que talvez em 2019, quando tentamos lançar "Marighella" pela primeira vez. Talvez, hoje, haja uma maior compreensão de que isso é um produto cultural brasileiro, que o fato de ser proibido, censurado, atacado pelo governo é um absurdo", pontuou. "Não é censura como foi na época da ditadura, de que não vai passar e pronto, mas é uma censura que inviabiliza o lançamento de filmes por uma via burocrática. É triste, é só triste. Eu não tenho raiva, só tristeza", afirmou Wagner.

GOVERNO

Sobre a forma que a cultura está sendo tratada pelo governo Bolsonaro, Wagner Moura é enfático. Para ele, arte e cultura são, por excelência —independentemente de como se posicionam os artistas—, inimigas do fascismo. "Se você vai buscar na história, todos os regimes fascistas começam por atacar artistas".

Wagner Moura diz que a "vitória do Bolsonaro nas eleições foi trágica, mas pedagógica". "Esse cortejo de mediocridade que vem atrás dele mostra que o Bolsonaro não é um alien, não veio de Marte. Ele é um personagem profundamente conectado ao esgoto da história brasileira, que nos mostra que o Brasil não é só um país de originalidade, de beleza, de potência, de diversidade, de biodiversidade. O favor que o Bolsonaro nos fez foi revelar esse outro Brasil, que estava camuflado; foi nos mostrar que nós também somos um país autoritário, violento, racista, de uma elite escrota. O Brasil é um país que nem é mais uma piada internacional. Quando os estrangeiros vêm falar com a gente, eles falam com pena. Agora nós temos que enfrentar isso".

Ator, produtor e diretor, o baiano Wagner Moura fez uma carreira de sucesso nacional e internacional. Participou de novelas de TV e séries para canais de streaming, atuou em grandes sucessos do cinemacomo "Tropa de Elite" e agora faz sua estreia como diretor com "Marighella" filme que está pronto há dois anos mas que só agora vai estrear em circuito nacional a partir de 4 de novembro. O filme conta a história deCarlos Marighella, guerrilheiro comunista que lutou contra a ditadura militar no Brasil.


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