MÚSICA

Acervo de Naná Vasconcelos é retirado de casa no Recife e fica sem rumo

Viúva do percussionista voltou dos Estados Unidos para desocupar antiga casa do casal e lamentou: 'O Brasil não conhece e não está interessado em conhecer a obra de Naná'

Emannuel Bento
Emannuel Bento
Publicado em 06/01/2022 às 8:25
BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
ACERVO Patrícia Vasconcelos retirou da casa onde morou com Naná Vasconcelos objetos pessoais e lembranças - FOTO: BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
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Em shows internacionais, Naná Vasconcelos (1944-2016) costumava dizer: "Eu sou um Brasil que o Brasil não conhece." A frase poderia resumir o pensamento da viúva, Patrícia Vasconcelos, e dos vários amigos que foram se despedir da antiga casa do casal, no Rosarinho, Zona Norte do Recife, na tarde desta quarta-feira (5).

Morando em Nova York, nos Estados Unidos, a esposa retornou para retirar da casa todo o acervo do músico, que ficará guardado em um depósito e sem futuro definido. São instrumentos, roupas de shows, quadros, fotografias, arquivos de jornais, prêmios e lembranças de viagens feitas por um dos maiores percussionistas do mundo.

Naná Vasconcelos ganhou notabilidade nos anos 1960 pela especialidade como berimbau. Foi ganhador de oito Grammys, sendo o brasileiro mais premiado, e eleito oito vezes o melhor percussionista do mundo pela "Down Beat", revista de jazz americana.

Desde a morte do grande artista, em 2016, Patrícia foi morar no exterior com a filha do casal, Luz Morena, e deixou tudo em seu devido lugar. O sonho era que um dia o espaço, com todo esse acervo, pudesse ser aproveitado de alguma forma.

"Eu nunca recebi nenhuma proposta ou conversa na intenção de fazer uma parceria", diz a viúva, que é curadora da obra do marido, durante visita do JC no espaço. A casa deve ser alugada em breve - Patrícia já recusou propostas de construtoras que desejavam verticalizar o terreno, como é comum na área.

Na despedida, compareceram nomes como o rapper Zé Brown, o cantor Gonzaga Leal, a cantora e instrumentista Bia Villa-Chan, as integrantes do grupo Voz Nagô Ana Paula Guedes, Ana Fabiola do Nascimento e Nalva Silva, entre outros amigos e artistas. Naná, que era conhecido por ser um grande anfitrião, recebeu lá visitas de Maria Bethânia, Milton Nascimento, Fagner e Zeca Baleiro e muito mais, sobretudo na abertura do Carnaval do Recife.

BRUNO CAMPOS / JC IMAGEM
Acervo de Nana Vasconcelos deixa a casa no Recife. - BRUNO CAMPOS / JC IMAGEM
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Acervo de Nana Vasconcelos deixa a casa no Recife. - BRUNO CAMPOS / JC IMAGEM
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Acervo de Nana Vasconcelos deixa a casa no Recife. - BRUNO CAMPOS / JC IMAGEM
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Acervo de Nana Vasconcelos deixa a casa no Recife. - BRUNO CAMPOS / JC IMAGEM

"Eu não vinha para cá há três anos, mas Delvan Barreto, que era o roading de Naná, fez a manutenção do espaço, que é muito custosa. As coisas dele são cuidadas por pessoas que já trabalhavam com a gente e possuem essa delicadeza, essa energia", explica Patrícia. Ela diz que não queria que o acervo fosse necessariamente para um museu, mas que a casa fosse aberta para visitação.

Delvan Barreto explica que entre os instrumentos, que já estavam encaixotados, existem "caixas de percussão, berimbaus, congas e vários instrumentos diferenciados". "Ele via o poder instrumental em objetos muito singelos, muito simples. Segundo ele, tocava mais quando não tocava", diz o roading.

Obra é pouco conhecida no Brasil

"Assim que houve a morte, que foi algo mais intenso, eu sempre falei sobre o acervo nas entrevistas da época", relembra Patrícia. "Porém, não quis ficar numa insistência, pois acredito que o interesse deveria partir do outro lado. E não falo apenas do âmbito governamental, falo de parcerias privadas também. No geral, acho que não existe interesse na obra de Naná aqui no Brasil. Eu não posso parar a minha vida para continuar batendo de porta em porta."

Patrícia Vasconcelos ressalta que vem conversando com espaços de Nova York para uma exposição sobre o percussionista com fotografias de Itamar Crispim. Além disso, em novembro, foi lançado nos Estados Unidos o livro "Saudades", de Daniel B. Sharp. Integrando a série "331 3 Brazil", da Bloomsbury Publishing, a obra resgata a carreira de Naná em um período entre 1971 e 1979.

BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
ESQUECIMENTO Viúva do percussionista diz que nunca recebeu proposta na intenção de preservar o legado e os itens dele - BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
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Acervo de Nana Vasconcelos deixa a casa no Recife. - BRUNO CAMPOS / JC IMAGEM
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Acervo de Nana Vasconcelos deixa a casa no Recife. - BRUNO CAMPOS / JC IMAGEM
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Acervo de Nana Vasconcelos deixa a casa no Recife. - BRUNO CAMPOS / JC IMAGEM

Por outro lado, a viúva afirma que projetos inscritos em editais no Brasil não foram aprovados, a exemplo de um disco que Naná deixou quase pronto. "Eu me sinto impotente aqui no Brasil. Sabemos que o conceito da obra póstuma é mais difícil ainda de trabalhar. Se em vida não houve interesse, após a morte o desinteresse é maior", reclama.

"O que me dá tristeza é que as coisas acontecem mais fora. É como se estivéssemos voltando para o tempo em que ele só fazia coisas fora. Me entristece lembrar que ele parava o show para dizer: 'Sou um Brasil que o Brasil não conhece'. Eu continuo achando isso. O Brasil não conhece e não está interessado em conhecer. Eu não consigo concretizar parcerias aqui", lamenta.

Lembranças

No final da tarde, artistas presentes começaram a tocar instrumentos juntos, como forma de relembrar as visitas ao artista. "Esse é um templo de inspiração. Aqui eu tive várias experiências, quando Naná me ensinou sobre comunicação e como o mundo lida emocionalmente com a música", disse Zé Brown, rapper com mais de 30 anos de carreira em Pernambuco. "Ele foi um mestre e me ensinou muitas coisas na minha vida, me capacitou para ser quem eu sou hoje. Aqui, sentimos uma energia muito forte."

BRUNO CAMPOS / JC IMAGEM
Acervo de Nana Vasconcelos deixa a casa no Recife. - BRUNO CAMPOS / JC IMAGEM
CORTESIA
Ana Paula Guedes, Patrícia Vasconcelos, Ana Fabiola do Nascimento e Nalva Silva - CORTESIA

O cantor Gonzaga Leal lamenta que as autoridades não tenham tido interesse em "fazer um espaço cultural e de preservação da obra desse grande músico". "Ele levou Pernambuco para o mundo. Eu considero esse um crime cultural dos maiores. Eu frequentei essa casa e tenho ideia das tantas coisas deslumbrantes que existem aqui, registrando todo o itinerário que ele fez."

Ana Paula Bernardes, que integra o grupo Voz Nagô, que por oito anos cantou com o músico durante a abertura do carnaval do Recife, relembrou os ensaios na sala. "Naná nos dava liberdade de criar com ele, até o víamos dançar, o que era algo extraordinário. É muito emocionante ver esse acervo, pois é como o fechamento de um ciclo para outros horizontes. É muito importante exaltar esse legado", finaliza.

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