LITERATURA

Morre o poeta amazonense Thiago de Mello, aos 95 anos

Reconhecido com um dos grandes autores da literatura regional, autor alcançou fama internacional graças a poemas como o clássico "Os Estatutos do Homem", de 1964

Estadão Conteúdo Emannuel Bento
Estadão Conteúdo
Emannuel Bento
Publicado em 14/01/2022 às 18:12
ANDRÉ ARGOLO/DIVULGAÇÃO
LITERATURA Poeta amazonense Thiago de Mello - FOTO: ANDRÉ ARGOLO/DIVULGAÇÃO
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O poeta e tradutor Thiago de Mello morreu na madrugada desta sexta-feira (14), aos 95 anos, em sua casa, em Manaus, de causas naturais. Reconhecido com um dos grandes autores da literatura regional, ele alcançou fama internacional graças a poemas como o clássico "Os Estatutos do Homem", escrito em abril de 1964, quando Thiago de Mello era adido cultural da embaixada do Brasil no Chile e amigo de Pablo Neruda.

Nascido em 1926 em Barreirinha, no Amazonas, ele sempre foi um defensor da natureza. "Para fazer algo em defesa da humanidade é preciso, em primeiro lugar, que cada um de nós tente persuadir pelo menos um companheiro, que cada um de nós faça qualquer coisa por este planeta Terra tão degradado", afirmou, durante a Feira Internacional do Livro de Havana, em 2005. "A Terra flutua hoje no espaço como um pássaro em extinção."

O interesse sempre norteou a carreira do poeta, que largou a faculdade de Medicina para seguir a literatura e lançar, aos 25 anos, seu primeiro livro de poemas, "Silêncio e Palavras". Lançou diversas obras até ser exilado em 1964, quando esteve na Argentina, Portugal, França, Alemanha e Chile. Nessa época de repressão militar, tornou-se famoso um verso seu, que dizia: "Faz escuro mas eu canto". Retornou ao Brasil em 1978, quando seu nome já era conhecido internacionalmente por lutar pelos direitos humanos, ecologia e paz mundial.

A potência de seus versos, especialmente os que pregavam contra a violência e opressão, conquistou muitos adeptos, a partir da década de 1970, no meio estudantil e entre grupos de opositores ao regime militar. E, entre os mais admirados, está Os Estatutos do Homem, que se iniciava com os seguintes versos em seu primeiro artigo: "Fica decretado que agora vale a verdade / Que agora vale a vida / e que de mãos dadas / trabalharemos todos/ pela vida verdadeira".

Em 1981, Thiago de Mello publicou "Mormaço na Floresta", no qual denunciava a destruição da mata da seguinte forma: "Enfim te descobrimos / Foi preciso que as águas mais azuis apodrecessem / que os pássaros parassem de cantar / que peixes fabulários se extinguissem / tua pele verde fosse aberta/ pelas garras de todas as ganâncias".

"Thiago de Mello é um poeta na contramão da modernidade e isso bastaria para distanciá-lo de seus pares", escreveu o crítico José Castello, no Estadão, em 1999. Segundo ele, havia muito preconceito e incompreensão cercando a vasta obra do poeta amazonense. "Antes de tudo, é reduzido, um tanto apressadamente, à figura do poeta engajado e sua poesia tomada, mais, como ideologia. Depois, numa época de sofisticação e rapidez, ele se mantém apegado aos temas primitivos e lentos do Baixo Amazonas, aos versos soltos e derramados e, apesar de ateu, a uma visão da poesia como.

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