LITERATURA

Livro vencedor do Prêmio Kindle de Literatura em 2020, "O Pássaro Secreto", de Marília Arnaud, será lançado no RioMar

Lançamento do livro ocorre nesta quinta-feira (17), às 19h, na Livraria Leitura do RioMar Recife

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Publicado em 16/03/2022 às 17:33 | Atualizado em 16/03/2022 às 21:03
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Romance "O Pássaro Secreto" nasceu de um conto - FOTO: DIVULGAÇÃO
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Por Fábio Lucas
Do Livronews, especial para o JC

Aglaia, a protagonista de “O Pássaro Secreto”, obra vencedora da quinta edição do Prêmio Kindle de Literatura, em 2020, nasceu de um conto publicado pela autora para o Concurso Osman Lins, da Fundação de Cultura Cidade do Recife. Nesta quinta-feira (17), às 19h, a paraibana Marília Arnaud vem à capital pernambucana para uma noite de autógrafos da obra premiada nacionalmente, em evento de lançamento da publicação pela José Olympio Editora, na Livraria Leitura do RioMar Recife, no Pina, Zona Sul da cidade. “É a mais complexa das minhas personagens”, diz a escritora nesta entrevista para o JC, onde também afirma: “Nunca escrevo com objetivos. Simplesmente deixo a trama fluir. Minha escrita é muito intuitiva”.

JC - Além do romance “O Pássaro Secreto”, você tem livros de contos e infantis publicados. O que representou o Prêmio Kindle de 2020 e a publicação do livro premiado que será lançado nesta quinta no Recife?

Marília Arnaud – Escrevo há muitos anos. Comecei publicando crônicas em jornais locais, mas os contos vieram antes, na minha adolescência ainda. Antes do Prêmio Kindle de Literatura, havia publicado quatro livros de contos, dois romances e um infantil. Embora os romances tenham sido publicados por casas editoriais respeitáveis (Rocco e Tordesilhas), não conseguiram atingir um grande público. Foi preciso o Prêmio Kindle, com a publicação de “O pássaro secreto” pela TAG Experiências Literárias (para trinta mil assinantes) e pela José Olympio ano passado, além do e-book pela Amazon, para que a minha literatura alcançasse leitores nos quatro cantos do nosso país. Sem dúvida, o prêmio literário dá aos autores uma visibilidade que não ocorreria normalmente. Porém, é preciso que se diga, essa repercussão é passageira. Não dá para se sentar sobre o prêmio e ficar assoviando. Para se manter um público leitor, é preciso seguir trabalhando, com afinco e paixão, de forma que algo tão bom ou melhor do que a obra premiada venha a ser publicada e lida.

JC - Conta um pouco dos bastidores da escrita do livro. Como surgiu a ideia para a história de Aglaia?

Marília Arnaud – Aglaia, a protagonista de “O pássaro secreto”, surgiu a partir de um conto publicado no início dos anos 2000, pela Fundação de Cultura Cidade do Recife (Concurso Osman Lins de contos). A personagem do conto não me largou a partir de então; eu estava sempre pensando na possibilidade de torná-la protagonista de uma novela ou romance, onde eu pudesse desenvolvê-la com mais profundidade. Em uma residência literária na França, no primeiro semestre de 2017, cheguei a escrever um romance juvenil, em que a protagonista era Aglaia. Porém, não fiquei satisfeita com o resultado, até porque ela continuava me soprando mais, exigindo ser narrada com uma complexidade incabível em um romance para jovens. Então, deixei o livro descansar por meses, e quando o retomei, eu o fiz com a determinação de escrever o que tinha de ser escrito, e aí está “O pássaro secreto”, pousando hoje aqui em Recife para uma noite de autógrafos.

JC - E sobre a escolha de lançar apenas em formato e-book, para concorrer ao Kindle?

Marília Arnaud – Com todas as dificuldades para uma publicação impressa que nós já temos normalmente, agravada pelo cenário de pandemia e de mercado editorial em baixa, enxerguei a autopublicação na ferramenta KDP da Amazon como algo novo e desafiador. Cheguei a enviar o “Pássaro” à editora que havia publicado “Liturgia do fim”, mas ela se recusou a ler, alegando o momento difícil. Então, pesei os prós e os contras. O livro iria perder o ineditismo, mas, ao mesmo tempo, ganhar leitores. “O pássaro secreto” concorreu com mais de 2.400 obras. Com um fio de esperança – imagino que todos os concorrentes têm o mesmo sentimento –, pensei que talvez o meu “Pássaro” pudesse chegar aos finalistas. Pois não é que o bichinho voou até lá? E voou tão alto que chegou até aqui.

JC - Como o romance psicológico premiado se relaciona com suas outras obras de ficção, expressas em contos? Há traços de “O Pássaro Secreto” em algum de seus contos?

Marília Arnaud – Como falei anteriormente, o romance originou-se de um conto, o “Senhorita Bruna”. Não é algo que eu costume fazer. Ocorre que Aglaia, ou Bruna, como ela se chamava no conto, esteve comigo durante muitos anos, tempo em que fui elaborando a personagem mentalmente, pondo fermento nela até que crescesse o bastante para ser narrada na forma como ela me exigia, essa Aglaia de “O pássaro secreto”, desconcertante, perturbada e perturbadora, labiríntica. Sem dúvida, a mais complexa das minhas personagens.

JC - Qual a importância das premiações literárias em geral, para a valorização dos autores e a difusão da literatura? Na sua opinião, o mercado editorial brasileiro aproveita bem as oportunidades dos prêmios literários?

Marília Arnaud – Há gente fazendo literatura de qualidade em todas as regiões brasileiras. É necessário que o mercado editorial enxergue o autor além do eixo Rio-São Paulo. E os prêmios fazem isso, dando espaço a autores e autoras que jamais seriam lidos nacionalmente. Há três anos, Mailson Furtado, autor independente de uma cidadezinha do Ceará, teve seu livro de poesia premiado como o Livro do Ano do Prêmio Jabuti. Cida Pedrosa tem sido lida de Norte a Sul. O Prêmio português Leya, e os prêmios Jabuti e Oceanos trouxeram para o primeiro romance de Itamar Vieira Junior, “Torto Arado”, 300 mil leitores só aqui no Brasil, sem contar com as inúmeras traduções pelo mundo afora. Um acontecimento digno de nota. “Torto arado” vem tendo aprovação da crítica e dos leitores. Então, não tenho dúvida de que os prêmios literários, com toda publicidade em torno da obra premiada e do seu (sua) autor(a), não somente engrandecem a literatura e a cultura do nosso país, como atraem a atenção do público, sendo um estímulo à leitura e à formação de leitores. O prêmio literário não só prestigia e difunde o livro, como revela novos talentos e os põe em evidência, com entrevistas e discussão da obra premiada, fazendo a carreira desses(as) autores(as) decolar. Acho que que os governos (municipal, estadual e federal) deveriam dar a mão a essas entidades que promovem os prêmios, e comprar os livros premiados, levá-los às escolas, torná-los conhecidos dos nossos jovens, apresentar a esses jovens o que se está produzindo no Brasil.

JC - Para Itamar Vieira Junior, “O Pássaro Secreto” é um romance desestabilizador, onde a protagonista se equilibra entre a delicadeza e a tormenta. Como autora, você quis fazer essa dosagem entre esses dois polos?

Marília Arnaud – Não quis nada. Estaria mentindo se dissesse que quis alguma coisa. Nunca escrevo com objetivos. Simplesmente deixo a trama fluir. Minha escrita é muito intuitiva. Cerebral, só o trabalho com a linguagem. De verdade, quis tão somente que Aglaia se revelasse em sua inteireza, clara e escura, íntegra e fragmentada, amistosa e odienta. Alguns leitores me falam que fui corajosa em criar uma protagonista que se mostra, no mais das vezes, egoísta e cruel, nem um pouco empática às dores alheias. E eu lhes digo que não se trata de coragem, e sim, de honestidade. É assim que escrevo. Escrevo como vivo, com amor, compaixão, esperança e, especialmente, com honestidade.

JC - A literatura nordestina tem recebido prêmios relevantes, com você e recentemente a cearense Vanessa Passos com o Kindle, com Cida Pedrosa recebendo o Jabuti, e o próprio Itamar Vieira Jr. com o Oceanos. Como você vê o momento para o Nordeste na literatura? O que isso pode representar para a literatura nordestina? E para os leitores de todo o Brasil?

Marília Arnaud – Uma grande alegria foi ter trazido o Prêmio Kindle para o Nordeste. Os vencedores das edições passadas são todos do Sul e Sudeste. É importante que os prêmios circulem por esse vasto país. Há literatura de qualidade sendo feita nos lugares mais esquecidos desse Brasil. São muitos os autores desconhecidos, com livros maravilhosos guardados em computadores por falta de oportunidade de publicação. Eu espero que essa redescoberta e revalorização da literatura nordestina não pare por aqui. Não há dúvida de que nós, autores e autoras que vivemos fora do eixo Rio-São Paulo, estamos de certa forma à margem dos grandes eventos literários, do mercado editorial, de toda a infraestrutura que faz o livro circular, o que já foi muito pior antes da Internet. Os prêmios literários estão chegando por aqui. Recentemente vimos Cida Pedrosa, daqui de Pernambuco, Itamar Vieira Junior, da Bahia, Mailson Furtado, do Ceará, um autor independente, e agora a cearense Vanessa Passos com o Prêmio Kindle (6ª edição). Sem dúvida, o Nordeste passa por um momento de redescoberta e revalorização da literatura. Já demos muito, e ainda temos mais a dar ao Brasil. Somos um grande celeiro artístico, temos riquezas imensuráveis na música, no cinema, nas artes plásticas, na literatura. São muitos os autores nordestinos que nos honram com a sua grandeza: Castro Alves, Augusto dos Anjos, José Lins do Rego, Ariano Suassuna, José Américo de Almeida, Osman Lins, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Alberto da Cunha Melo, Jorge Amado, Aluísio de Azevedo, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, Ledo Ivo, Ferreira Gullar, sem falar nos inúmeros vivos, que deixo de citar por receio de esquecer algum nome.

 

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