MÚSICA

Simone grava pernambucanos como Martins, Juliano Holanda e Karina Buhr em novo disco

"Da Gente" teve produção musical de Juliano Holanda, co-criador do Reverbo, movimento de cantautores de Pernambuco: 'É um movimento lindo que vem sendo feito aí. A música nordestina é muito para cima', diz cantora

Emannuel Bento
Emannuel Bento
Publicado em 17/03/2022 às 18:40
NANA MORAES/DIVULGAÇÃO
LANÇAMENTO Cantora Simone em ensaio para o álbum "Da Gente" - FOTO: NANA MORAES/DIVULGAÇÃO
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Após nove anos sem lançar discos de estúdio, Simone retorna interpretando compositores nordestinos em "Da Gente", álbum que mescla frescores e tradições da região e disponível a partir desta sexta-feira (18) nas plataformas digitais, com uma edição física para chegar em abril pela Biscoito Fino. Não faltam pernambucanos da nova cena autoral no repertório — entre eles, o recifense Martins, o serra-talhadense PC Silva e as caruaruenses Isabela Moraes e Rogéria Dera, além da baiana radicada pernambucana Karina Buhr, de quem regravou "Amor Brando".

Eles revezam o espaço com obras das paraibanas Cátia de França ("Estilhaços", de 1980), Socorro Lira ("Naturalmente", 2019), os cearenses Fagner, Fausto Nilo e o maranhense Zeca Baleiro (que assinam o clássico "Dezembros", de 2003). A produção foi do músico e compositor pernambucano Juliano Holanda, idealizador da mostra de música Reverbo, que aglutina cantautores de Pernambuco.

Apesar do hiato de lançamentos de estúdio, Simone, 72, não parou. Fez turnês solos e com o cantor Ivan Lins. Na pandemia, criou um projeto de lives semanais, aos domingos. "As lives foram uma tábua de salvação para mim", admite a cantora, ao JC. "Eu fiz 37 transmissões ao vivo, cantei mais de 500 músicas, acompanhadas por músicos conhecidos meus. Foi um ano direto. Isso consome muito, mas graças a Deus foi feito isso, pois foi o que salvou. Eu tive muito apoio dos fãs."

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LANÇAMENTO Cantora Simone na capa do álbum "Da Gente" - NANA MORAES/DIVULGAÇÃO

Para Simone, a pandemia foi totalmente voltada à música. Foi também nesse período em que produziu "Da Gente", que de início iria se chamar "Por Ser de Lá", verso de "Lamento Sertanejo", de Gilberto Gil e Dominguinhos, justamente por ser um ode aos compositores do Nordeste. No estúdio, foi acompanhada por Juliano Holanda (baixo e violão de aço), Webster Santos (violões) e o também pernambucano Rapha B (bateria, udu, clave e ganzá), com quem teve rápida afinidade.

"Eu queria fazer um álbum de autores nordestinos desde o final de 2014. Por circunstância de projetos e shows, ele foi sendo adiado. Mas eu queria fazer esse álbum e não me interessava mais por outro projeto que não fosse esse", conta Simone, que é baiana. O disco começou a ganhar forma quando Simone foi apresentada a Juliano Holanda pela amiga Zélia Duncan, que assumiu a produção artística do projeto.

"Ela me apresentou a canção 'Haja Terapia', que o Juliano ainda não havia lançado. Eu fiquei encantada pela música. Neste mesmo dia, ouvimos a Cátia de França e tantas outras coisas que, dentre elas, entraram no álbum. Em fevereiro de 2021, falei com Juliano e Zélia numa conversa pelo Zoom", conta.

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LANÇAMENTO Cantora Simone em ensaio para o álbum "Da Gente" - NANA MORAES/DIVULGAÇÃO
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LANÇAMENTO Cantora Simone em ensaio para o álbum "Da Gente" - NANA MORAES/DIVULGAÇÃO

Através dos encontros virtuais, Juliano começou a esboçar arranjos, e Zélia e Simone foram escolhendo as músicas. Surgiram canções como "Boca em Brasa", um xote estilizado de Zélia e Juliano, e ideias para interpretações de "Escancarada", dos pernambucanos Gean Ramos (descendente do povo pankararu) e Rogéria Dera, e "Por Que Você Não Vem?", de Joana Terra e PC Silva. Deste, também gravou "Ímã". Martins, com "A Gente se Aproveita", e Isabela Moraes, com "Você Distante", eram artistas que já estavam no radar de Simone há algum tempo.

"Enxergo com brilho nos olhos", diz, sobre a nova geração de compositores pernambucanos. "São todos muito bem-vindos, tanto que todos eles foram gravados. É um som novo, bonito, com letras maravilhosas, poemas maravilhosos e intérpretes muito bons também. O Martins canta muito bem, toca muito bem. O Juliano é uma loucura, ele é um monstro, fantástico. É um movimento lindo que vem sendo feito aí. A música nordestina é muito para cima."

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LANÇAMENTO Cantora Simone em ensaio para o álbum "Da Gente" - NANA MORAES/DIVULGAÇÃO

Também compositora, Simone assina "Nua", co-escrita com Tiago Torres da Silva. A princípio, a cantora não cogitava incluí-la no repertório, mas foi convencida. Para a artista, o "Da Gente" acabou sendo um disco "para cima", positivo, apesar da situação do País. "Foi tudo feito muito de longe, não podíamos nos encontrar. Ficamos dois anos sem ter essa chance dos encontros presenciais. E, bem, eu não conheço pessoalmente muita gente. Conheço o disco, mas nunca abracei. Espero poder receber todos."

Para encerrar o disco, a artista escolheu "Naturalmente", parceria da paraibana Socorro Lira com Roberto Tranjan, da qual a cantora tirou o título do disco. É uma música que fala sobre tudo o que é essencial para o bem-estar coletivo. "O último ano foi muito duro para todo mundo, com perdas de amigos e familiares. Foi um tempo que ceifou a vida de muita gente. Mas meu tempo foi usado para uma coisa boa. Eu usei com plantas, com mar, com músicas. Aproveitei e foi lucrativo."

"Da Gente" também dá início às comemorações dos 50 anos de carreira de Simone, em março de 2023. "Espero celebrar fazendo shows, pois estou há mais de dois anos sem pisar no palco", confessa. Num mundo de transformações para a música, Simone finaliza a conversa com sua crença na atemporalidade da canção. "A música não tem idade. Você sente, ela te toma e mora na sua cabeça. Está sempre ali com você em algum momento, e você vai lembrar."

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