DIA DO ORGULHO

O significado da sigla LGBTQIAP+

Cada letra grega um grupo de pessoas que se reconhece por uma orientação sexual ou uma identidade de gênero diversa daquelas que a sociedade convencionou como únicas

Romero Rafael
Cadastrado por
Romero Rafael
Publicado em 28/06/2022 às 17:24 | Atualizado em 28/06/2022 às 19:32
lillen/Pixabay
Movimento internacional pede respeito às diferenças - FOTO: lillen/Pixabay
Leitura:

Junho é o Mês do Orgulho LGBTQIAP+ e esta data, 28 de junho, é o Dia Internacional do Orgulho. Desde 1970, todo mês de junho é de celebração da pluralidade das pessoas quanto às identidades de gênero e às orientações sexuais — mas é, sobretudo, de reivindicação por direitos, respeito e garantia de vida.

A própria compreensão sobre a LGBTfobia como um problema da sociedade ainda é uma bandeira que carece ser empunhada. Em 2021, pelo menos 316 pessoas LGBTQIAP+ foram assassinadas por causas violentas no Brasil, devido à identidade de gênero e/ou orientação sexual, de acordo com o levantamento "Observatório de Mortes e Violências contra LGBTI ", que reúne organizações da sociedade civil.

O "pelo menos" que acompanha a estatística é preciso porque há bastante subnotificação de casos, uma vez que faltam mecanismos e formação que interpretem as ocorrências como LGBTfobia e as registre como tal. Também não há base nacional que mapeie crimes do tipo.

Em Pernambuco, no último ano, registrou-se quase uma epidemia de violência brutal contra mulheres trans. O caso mais emblemático foi o de Roberta da Silva, morta após ter 40% de seu corpo queimado no Centro do Recife. Na mesma semana, Fabiana da Silva Lucas foi assassinada com golpes de faca em Santa Cruz do Capibaribe e a vida de Crismilly Pérola foi abreviada a tiros, na Várzea. Alguns dias antes, Kalyndra Selva Guedes Nogueira da Hora havia sido encontrada morta na casa onde morava, no Ipsep.

À medida em que são necessários mecanismos de segurança pública e proteção social, ações afirmativas de inclusão social e também medidas legislativas que ajudem a minar uma cultura da violência contra pessoas que se identificam e se relacionam de formas dissidentes do padrão heteronormativo, faz bem quebrar certa animosidade para entender o que significa a sigla LGBTQIAP+ (ou LGBT, LGBTI+).

É certo que o mundo mudou e muda, que a gente está sempre aprendendo e que informação salva da ignorância.

Qual a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual?

Para compreender a sigla e o mundo hoje é fundamental saber da diferença entre orientação sexual e identidade de gênero. Numa entrevista, o cineasta e diretor de TV João Jardim, que em 2016 lançou uma série sobre o assunto, "Liberdade de Gênero" (GNT), explicou com clareza:

"A orientação sexual das pessoas, com quem elas transam — homem, mulher ou os dois —, não tem nada a ver com o gênero. Gênero é como as pessoas querem se expressar no mundo: se como homem, mulher ou nenhum dos dois."

Ou seja, a identidade de gênero não está associada ao sexo biológico da pessoa.

De GLS a LGBTQIAP+

Cada letra da sigla LGBTQIAP+ agrega um grupo de pessoas que se reconhece por uma orientação sexual ou uma identidade de gênero diversa daquelas que a sociedade convencionou como únicas (orientação heterossexual; gêneros masculino e feminino). Ela é a evolução de GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), de GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transexuais) e LGBT.

A retirada do "S" (que havia em GLS), de simpatizante, referindo-se a pessoas heterossexuais que apoiavam gays e lésbicas, deu-se pelo entendimento de que eles não eram protagonistas do movimento. Já a troca de posições entre o "G" e o "L" foi motivada para dar visibilidade às mulheres lésbicas e promover equidade de gênero.

Essas próprias mudanças na sigla — com inserção de letra, retirada e reposicionamento — demonstram a evolução do movimento pela inclusão das pessoas em suas diferentes orientações sexuais e identidades de gênero.

Antes de chegar às letras e aos seus significados, é importante frisar que compreender os grupos não tem a ver com rotulá-los, mas sim com reconhecê-los na pluralidade que são. Logo, é preciso "destreinar" a cabeça e abandonar esquemas e caixinhas. Cada pessoa é quem define a própria orientação sexual e identidade de gênero.

Letra por letra

Como se sabe, o L diz respeito às lésbicas e o G, aos gays, respectivamente mulheres e homens que sentem atração afetivo-sexual por pessoas do mesmo gênero que o seu; enquanto o B se refere às pessoas bissexuais, que sentem atração afetivo-sexual por homens e mulheres. Até aqui, a sigla agrega grupos por orientações sexuais.

A partir do T, a sigla acolhe identidades de gênero dentro de um amplo espectro. Na primeira letra estão incluídas as pessoas transgêneros, transexuais e travestis: aquelas que se identificam com um gênero diferente do que foi designado no nascimento segundo o sexo biológico. É o oposto da pessoa cisgênero (termo comumente usado na abreviação "cis", que diz das mulheres e dos homens que se reconhecem conforme seu gênero de nascimento).

Pessoas que se identificam como não-binárias também possuem identidade de gênero trans, uma vez que elas não estão em conformidade com o sexo biológico — e, nesse caso, nem com o sexo oposto ao do nascimento, colocando-se fora do binarismo masculino-feminino e rompendo com os códigos sociais e culturais construídos e atribuídos a cada gênero.

Continuando a desvendar a sigla, o Q é de queer, ou genderqueer — quem transita entre os gêneros feminino e masculino, e mesmo fora da binaridade masculino-feminino. A teoria queer afirma que a orientação sexual e a identidade de gênero são resultado de uma construção social, e não de uma funcionalidade biológica.

O I diz respeito ao intersexo — identidade de gênero de pessoas com características sexuais biológicas não associadas tradicionalmente a corpos femininos ou masculinos.

Já o A volta a se referir a orientação sexual. Agrega os assexuais, aqueles que não sentem atração afetivo-sexual por outra pessoa, independente de orientação sexual e de identidade de gênero.

O P, que é mais recente na sigla, abrevia as pessoas pansexuais, aquelas que sentem atração por gente de todas as identidades de gênero ou independentemente da identidade de gênero.

Por fim, o sinal de mais (+), que há uns anos foi incorporado à sigla, abriga outras possibilidades de orientação sexual e identidade de gênero que existam.

Por que 28 de junho é Dia Internacional do Orgulho LGBT?

A sigla é resultado de um movimento de liberdade que evolui na história e teve início em 28 de junho de 1969, quando a polícia da cidade de Nova York fez uma batida no bar Stonewall Inn para violentar pessoas LGBT, como de costume. A homossexualidade era considerada crime com pena que podia chegar à prisão perpétua em quase todos os estados norte-americanos.

Naquele dia, no entanto, pela primeira vez, a violência policial encontrou grande resistência. Uma multidão encurralou os policiais dentro do bar e um grande confronto teve início, duradouro por dias. Esse tornou-se um marco de resistência na luta por direitos da comunidade hoje compreendida na sigla LGBTQIAP+.

No ano seguinte, dez mil pessoal se reuniram na porta do bar e marcharam naquela que ficou conhecida como a primeira Parada da Diversidade e do Orgulho.

Comentários

Últimas notícias