LITERATURA

Imortal da ABL, José Paulo Cavalcanti assume vaga na Academia Portuguesa de Letras

Profundo conhecedor da obra do português Fernando Pessoa, jurista e escritor pernambucano será sócio-correspondente da instituição, ocupando a vaga que era de Nélida Piñon

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Emannuel Bento

Publicado em 07/11/2023 às 15:23 | Atualizado em 08/11/2023 às 9:34
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O jurista e escritor recifense José Paulo Cavalcanti Filho, eleito imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) em novembro de 2021, agora também detém o título de sócio-correspondente da Academia Portuguesa de Letras (ou Academia das Ciências de Lisboa). Ele ocupa a vaga que foi de Nélida Piñon (1937-2022), uma grande amiga do jurista pernambucano.

A cerimônia de posse será realizada nesta quinta-feira (9), às 15h, no salão nobre da sede da Academia, em Lisboa, sob comando do Dr. José Luiz Cardoso, presidente da instituição. José Paulo será saudado pelo acadêmico português António Valdemar e, em seguida, fará um discurso. Realizada ainda no primeiro semestre, a votação para essa vaga deu unanimidade ao recifense.

"Mais uma vez, encaro como uma espécie de homenagem a Pernambuco. Na Academia Brasileira, fui o segundo pernambucano eleito morando em Pernambuco. O primeiro foi Mauro Motta. Na Academia Portuguesa, serei o segundo pernambucano sócio-correspondente. O primeiro fio Marcos Vilaça", diz Cavalcanti, ao JC.

Portugal

ALEXANDRE GONDIM/JC
O jurista e escritor José Paulo Cavalcanti Filho, imortal da Academia Brasileira de Letras - ALEXANDRE GONDIM/JC

José Paulo Cavalcanti Filho tem uma grande relação com Portugal e com a obra de escritores e poetas portugueses, sendo autor de obras acerca de nomes como Camões, Padre António Vieira, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa.

Zé Paulo, como é chamado, escreveu uma célebre biografia de Pessoa, intitulada "Fernando Pessoa – uma quase autobiografia", que venceu muitos prêmios, como o primeiro lugar na Bienal do Livro, o Prémio Jabuti e, ainda, os prémios II Molinello, de Itália - também acumula prêmios na Roménia, Israel, Espanha, França, Holanda, Alemanha, Rússia, Inglaterra e Estados Unidos.

"Eu passei 10 anos escrevendo a biografia do Pessoa. Na minha trajetória, conheci muitos escritores portugueses, alguns amigos, como Eduardo Lorenzo, Teresa Sobral Cunha, entre outros. Tenho muitos amigos por Portugal. Esse fato, junto ao fato de eu ser amigo da Nélida Piñon, deve ter influenciado nessa votação", comenta Cavalcanti.

Na cerimônia, José Paulo irá ler um resumo de seu discurso, com 22 minutos - discurso total, com 87 páginas e cinco horas de leitura, será entregue impresso para a instituição. Muitos brasileiros, incluindo pernambucanos, vão marcar presença no evento.

Primeiro poeta no Brasil

JC
O jurista e escritor José Paulo Cavalcanti Filho, imortal da Academia Brasileira de Letras - JC

O convite para José Paulo Cavalcanti assumir a vaga de sócio-correspondente ocorreu pouco após o falecimento de Nélida Piñon. O presidente da Academia deu ao jurstica três datas possíveis para a posse. O dia 9 de novembro foi escolhido por um motivo especial: o escritor passou boa parte do ano realizando pesquisas no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.

O objetivo dessa pesquisa era confirmar a existência da produção de poesias em solo brasileiro antes da já conhecida obra de Bento Teixeira (1561-1618), tido pela historiografia como primeiro poeta a produzir no Brasil.

José Paulo aponta a existência de Bartolomeu Fragoso, nascido em Lisboa e morador de Salvador (BA) desde os 12 anos de idade. "Aqui, ele foi mestre de artes e se tornou padre. Fui na Torre de Tombo e consegui o processo da inquisitação pelo qual ele foi condenado. Lá, no próprio processo, estavam sete sonetos e uma grande ode com 157 quadras e uma quintilha", explica.

"Os versos do poema de Bento Teixeira são de 1601, enquanto os de Bartolomeu foram escritos entre 1579 e 1592. Portando, são muito anteriores. Para os portugueses, esse fato pode não dizer nada. Mas, para o Brasil, é importante, pois mostra que o primeiro poeta no país não é aquele que as crônicas de história registram".

O acadêmico irá discorrer sobre esse achado durante o discurso de posse. Para isso, teve de traduzir os sete sonetos para um português mais contemporâneo.

Imortal da ABL

Na Academia Brasileira de Letras, Zé Paulo ocupa a cadeira de número 39, já ocupada por nomes como Roberto Marinho, Otto Lara Resende, Elmano Cardim, Rodolfo Garcia, além dos pernambucanos Oliveira Lima e Marco Maciel.

José Paulo Cavalcanti Filho nasceu na capital pernambucana em 1948. Iniciou os estudos em Direito na Universidade Católica de Pernambuco, chegando a ser presidente do diretório acadêmico em 1968. Participou de programas de estudos em universidades internacionais como Harvard, Cambridge e Massachusetts.

O academico ocupou diversos cargos de destaque em instituições da justiça, a exemplo de Secretário Geral do Ministério da Justiça (1985/1986), Ministro de Estado da Justiça (1985) e também foi membro da comissão instituída pelo Conselho Federal da OAB para acompanhar a Revisão Constitucional (1993/1994) e Reforma Constitucional (1995).

No âmbito literário, é bastante conhecido por ser um profundo conhecedor de Fernando Pessoa, grande escritor do começo do século 20. Já publicou mais de 40 obras sobre Direito, Justiça, Literatura e Comunicação Social.

O novo sócio-correspondente da Academia das Ciências de Lisboa ainda acumula várias comendas e condecorações, com destaque à Ordem de Rio Branco, Grão Oficial, concedida pelo Governo do Brasil. Fez consultoria para a UNESCO, Banco Mundial, Ministério da Cultura, dentre outras instituições.

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