bossa nova

Astrud Gilberto, que levou a Garota de Ipanema para o mundo, faz 80 anos

Em 1965 ela disputou as paradas americanas com os Beatles

José Teles
José Teles
Publicado em 29/03/2020 às 11:07
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Astrud Gilberto, a baiana bossa nova - FOTO: divulgação
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Qual a cantora brasileira que mais vendeu discos no exterior? Carmem Miranda? Errado. A resposta correta é Astrud Weinert, uma baiana, de Salvador, filha de pai alemão e mãe brasileira, que neste domingo completa 80 anos. Astrud tinha oito anos, quando sua família mudou-se para o Rio. Moravam em um prédio na avenida Atlântica, em Copacabana. Ela se tornou amiga de uma adolescente em cujo apartamento, na mesma avenida, aconteciam freqüentes reuniões de jovens músicos cariocas. O nome da amiga? Nara Leão. Às reuniões na casa de Nara compareciam o pessoal que estava fermentando um samba novo, que ia tomar conta do mundo com o nome de bossa nova. Astrud em 1960, aos 20 anos, casou-se com um dos mais importantes artistas deste grupo, baiano feito ela, João Gilberto.

Em 1963, Astrud foi morar com o marido aos Estados Unidos. Em plena febre mundial da bossa nova, João Gilberto iria gravar um LP com o saxofonista de jazz Stan Getz. O disco, intitulado Getz/Gilberto, faz parte da história da música brasileira e internacional. Tornou a bossa nova de uma novidade passageira em uma nova gênero musical abraçado pelo mundo. O álbum passou do milhão de cópias vendidas (somente nos Estados Unidos), e fez de uma dia para o outro a desconhecida Astrud Weinert, ou melhor, Astrud Gilberto, até então cantora amadora, em uma estrela pop. Sua versão em inglês de Garota de Ipanema (Tom/Vinicius) estourou coast to coast. Disputou o topo das paradas pop americans com os Beatles.

Não estava previsto que Astrud cantaria no disco. Na véspera da gravação, conforme conta em seu site (há anos não concede entrevistas): “Um dia, poucas horas antes de Stan Getz chegar ao nosso hotel em Nova Iorque para ensaiar com João, ele (João) me disse com um ar de mistério na voz: ‘Hoje você terá uma surpresa’. Implorei para que me dissesse do que se tratava, mas ele se recusou terminantemente: ‘Espere e vai ver”.

A SURPRESA

Mais tarde, enquanto ensaiava com Stan, no meio de Garota de Ipanema, João me convidou, assim como quem não quer nada, pra me juntar a eles e cantar um verso em inglês, depois que ele cantasse o primeiro em português. Cantei. Quando terminamos, João se virou para Stan e disse (naquele inglês de Tarzan dele) algo como: “Amanhã Astrud cantar na gravação...’ Stan achou boa a sugestão, na verdade, ele ficou entusiasmado, disse que era uma grande idéia. O resto, naturalmente, é como se diz, história. Lembro que enquanto escutava a gravação que fizemos Stan me disse, com uma expressão meio dramática: ‘Esta música vai fazer você famosa”.

E como fez! The girl from Ipanema chegou a um quinto lugar no paradão pop da Billboard, e em primeiro na parada de Pop adulto contemporâneo. Mas não foi assim tão simples a história. Primeiramente Creed Taylor, o produtor do disco, achou que a gravação de garota de Ipanema ficou muito longa para os padrões do rádio da época. Ele e o técnico de som Phil Ramone decidiram cortar a voz de João Gilberto da faixa, deixando somente seu violão e a voz macia de Astrud Gilberto cantando em inglês (vale lembrar que ela era de família classe média alta, falava francês, alemão, e inglês fluentes).

Aconteceram mais outros acasos que contribuíram para o estrelato de Astrud. A Verve não acreditava muito no sucesso de The girl from Ipanema, pelo menos na voz de Astrud Gilberto. Permitiram que ela gravasse a música de Tom e Vinicius como uma demo. Creed Taylor pensava que a canção se encaixava melhor na voz mais potente e experiente de Sarah Vaughan.

Phil Ramone conta (em sua biografia Gravando! Os bastidores da música) que cortou um acetato e enviou a demo para Quincy Jones, para que este o repassasse a Sarah. A diva do jazz não se interessou negou a gravar The girl from Ipanema, porque achava que era música para ser cantada por homem. Mudaria de opinião anos mais tarde, e incluiria a música no disco Viva Vaughan, porém com o título de The boy from Ipanema. A gravação de Astrud acabou incluída no Getz/Gilberto, e foi lançada como lado B de um compacto de Stan Getz com Blowin in the wind (Bob Dylan) no lado A.

Outra vez o acaso fazendo das suas. Um DJ de uma emissora de rádio em Columbus, Ohio passou a tocar o lado B do compacto. O sucesso no caipira estado de Ohio espalhou-se pelo país inteiro. Quando The girl from Ipanema escalou os primeiros lugares da parada, a Verve resolveu investir no LP Getz/Gilberto, meio arquivado pela chegada nos EUA, eEm 1964, de um arrasa-quarteirão chamado Beatles. O álbum brigou pau a pau com o quarteto de Liverpool, ficou em segundo lugar na disputada americana e ainda arrebatou vários prêmios Grammy em 1964. Vendeu um milhão de cópias, só nos Estados Unidos.

RECLUSA

Astrud Gilberto completa hoje 80 anos, arredia à imprensa, raramente faz shows, seu diretor musical é Marcelo Gilberto, seu filho com João Gilberto (de quem se separou em 1964). A última vez que entrou em estúdio foi com George Michael, com quem gravou, em Londres, Desafinado, com renda destinada para pesquisas sobre a AIDS. Em 2002, Astrudo Gilberto anunciou que deixava os palcos. Além de artista plástica, é engajada na luta lutar contra crueldade aos animais. Ironicamente, em sua foto mais divulgada pelo mundo ela está semi-coberta com um sobretudo de peles.

Sua discografia de 17 álbuns, dezenas de participações (em discos que vão de Chet Baker,a StanleyTurrentine, levaram a que ela fosse introduzida no International Latin Music Hall of Fame, em abril de 2002, honraria para poucos. Curioso é que a cantora cult, idolatrada por nomes como Sade, Sinead O'Connor, Michael Franks, Pat Metheney, ou Suzanne Vega, além de diversos grupos indies, tornou-se uma ilustre desconhecida para seu compatriotas. Porém, por mais que Garota de Ipanema ganhe regravações, será sempre lembrada a voz suave de Astrud, acompanhada pelo violão de João Gilberto, o sax de Stan Getz, e o piano de Tom Jobim: “Tall and tanned and young and lovely/The girl from Ipanema goes walking/And when she passes, each one she passes goes, ‘Ah’.”

Site de Astrud Gilberto: http://www.astrudgilberto.com/index.html

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