Disco

Alanis Morissette foi do confronto às constatações em 25 anos

A canadense, que vendeu 33 milhões de discos em 1995, lança o primeiro álbum em oito anos

José Teles
José Teles
Publicado em 31/07/2020 às 19:44
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Shelby Duncan/Divulgação
Alanis Morissette, 25 anos depois - FOTO: Shelby Duncan/Divulgação
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Os insondáveis caminhos do pop levaram a canadense Alanis Morissette ao ponto certo no terceiro disco, Jagged Little Pill, lançado há 25 anos, pela Maverick, gravadora de Madonna. Um álbum que expressava urgência e ansiedade de início da idade adulta (Alanis estava com 21 anos). Jovens do mundo inteiro identificaram-se com as canções. Apesar do imenso sucesso, Jagged Little Pill acabou sendo o fim de uma era. A dos álbuns multiplatinados, numa época em que para se ganhar um Disco de Platina, nos EUA, precisava-se vender 1 milhão de cópias. Jagged Little Pill vendeu 33 milhões planeta afora. Foi o último grande feito da indústria fonográfica.
25 anos mais tarde, oito discos depois (contando só com os de estúdio), e também oito anos sem lançar álbum de inéditas, Alanis Morissette retorna com Such Pretty Forks in the Road (lançado por dois selos, Epiphany e Thirty Tigers), que chega nesta sexta-feira às plataformas digitais, amplamente elogiado, considerado tão bom ou melhor do que o “monstro” Jagged Little Pill. Resta saber se os fãs que compraram o disco de 1995 continuam fiéis à cantora.
Hoje com 46 anos, Alanis Morissette passou por todos os percalços normais que os seres humanos se deparam durante a vida adulta. Relacionamentos mal sucedidos, um amigo que lhe sacaneia financeiramente (seu empresário que lhe surrupiou cinco milhões de dólares) mortes de pessoas próximas, nascimento de filhos, no caso dela, com uma depressão pós-parto. Such Pretty Forks in the Road, feito todos os álbuns de Alanis, é confessional. Provavelmente seus fãs viveram momentos semelhantes aos que ela canta no disco que, claro não venderá um décimo do que vendeu Jagged Little Pill, até porque pouca gente compra discos físicos. É conferir a quantidade de streamings. Se bem que nesta área Alanis Morissette já está realizada. É a mulher recordista em vendagem de um único disco (sua discografia teve 75 milhões de cópias vendidas).
Such Pretty Forks in the Road começou a ser feito há três anos. Em 2018, ela revelou ter 23 canções prontas (a maioria em parceria com Michel Farrell (produtor e tecladista de sua banda), em turnês antecipou canções que estariam no próximo disco, feito Smiling, composta para o musical produzido sobre o álbum Jagged Little Pill. Aliás, Jagged Little Pill voltou a ser prioridade para Alanis Morissette, em 2020, ela regravou o álbum e preparava-se para sair em turnê comemorativa, quando eclodiu a pandemia, que também a fez adiar o lançamento de Such Pretty Forks in the Road, que acontecia em maio. A intenção era segurá-lo até o vírus ser controlado. Diante das incertezas quanto ao fim da pandemia, a cantora resolveu liberar o álbum.
DISCO
O último disco de Alanis Morissette é de 2012, Havoc and Bright Lights (cuja turnê chegou ao Recife, no Classic Hall, em setembro de 2012), um álbum de canções que comentavam relacionamento pessoal da cantora e maternidade. Ela segue a linha do singer/songwriter que começou lá pelo final dos anos 60, com James Taylor, Carly Simon, Judy Collins, artistas que cantaram seu universo de uma forma que atingisse todos os universos particulares.
Embora surjam aqui e ali influências de nomes mais recentes, feito o Radiohead, em Smiling, a faixa de abertura, o som de Alanis Morissette é criado basicamente por piano, guitarra, e bateria. Aqui e ali cordas, lembra o rock da Califórnia de meados dos anos 70. Diferentemente dos dois primeiros álbuns da cantora, ainda no Canadá (hoje tem também cidadania americana), leves pop e dançáveis, desde Jagged Little Pill Alanis quer se expressar, extravasar na música seus sentimentos, sem pejo de se mostrar fraca: “esta foi minha primeira levantada de bandeira branca/este é o som de mim caindo no fundo do poço/é minha rendição/se é assim que vocês acham assim/na anatomia do meu baque/eu continuo sorrindo/indo em frente/não posso ficar imóvel”, canta em Smiling.
25 anos atrás eram canções de confronto, é como se cada canção de Jagged Little Pill fosse um “vai encarar”. Provoca o ex que está de nova namorada em You Oughta Know: “Ela é pervertida feito eu?/ela cai de boca em você no cinema?/teria um filho seu?/estou certa de que seria uma excelente mãe”. As canções daquele álbum têm letras extensas. Agora ela é mais concisa nos versos. Não faz mais música de confronto, porém de constatações a que se chega à meia idade. O trauma da depressão pós-parto não passava pela sua cabeça 25 anos atrás. Agora continua com ela, que já cantou sobre o tema no álbum de 2012, e volta a cantar na catártica Diagnosis: “Não dou a mínima/pra coisas que me era me eram importantes/estou cobrindo os olhos/congelada no meu lugar/e me chame do que quiser/porque estou não me incomodo mais”.
Ao jornal inglês Metro, ele revelou que demorou a se convencer e lançar o álbum durante a pandemia: “Achava que não tinha o direito de incomodar de lançar um disco sobre crises de uma mulher paras pessoas em quarentena”. Such Pretty Fork in the Road é exatamente isto. Canções sobre crises, até financeiras. Numa balada, iniciada com voz e piano, ela canta sobre o golpe que lhe foi dado pelo seu contador, Jonathan Schwatz, que está pagando uma pena de seis anos pelo crime. “Desfrute estes desenhos na sua cela/eu fui uma vez a perdedora/agora estou á frente do portão”.
De certa forma é até confortável se saber que ninguém está livre das crises, existenciais, econômicas, nem mesmo uma superstar da música pop. Ainda mais porque Alanis Morissette está cantando muito bem, a voz mais grave, e suas melodias também são mais diversificadas. Um disco de uma artista maturada.

 

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