COLETIVO

Movimento Minas da Graxa organiza campanha e vaquinha online em prol das trabalhadoras dos bastidores da música

Articulação também quer entender quem são e do que precisam as profissionais impedidas de trabalhar por conta da pandemia causada pelo novo coronavírus

Nathália Pereira
Nathália Pereira
Publicado em 11/09/2020 às 20:48
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MINAS DA GRAXA/DIVULGAÇÃO
A cantora, compositora e artista plástica Catarina Dee Jah desenvolveu a arte que estampa os projetos do coletivo Minas da Graxa - FOTO: MINAS DA GRAXA/DIVULGAÇÃO
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Com a suspensão das atividades culturais presenciais, como parte das medidas para barrar a proliferação do novo coronavírus, muitos setores profissionais, além dos que estão visíveis ao público, se viram diante de uma situação angustiante e sem precedente. Na música, aqueles que trabalham na produção, iluminação, transporte, alimentação e demais áreas de suporte aos artistas são chamados de “a graxa”, e tem sido essas pessoas o foco de várias iniciativas articuladas pelo país com intuito de minimizar o impacto financeiro causado pelo tempo em que estão sem poder trabalhar. No Rio de Janeiro e Espírito Santo, por exemplo, o projeto SOS Graxa recolhe e distribui alimentos aos que estão sem renda.

No Recife, um movimento de técnicas de palco, roadies, operadoras de som, produtoras e também artistas batizado de Minas da Graxa nasceu como articulação voltada especificamente às mulheres atuantes nos bastidores de shows e demais eventos musicais por considerar que as particularidades ligadas aos papéis impostos ao gênero - como o fato de os serviços domésticos e os cuidados com crianças e idosos ainda recaírem majoritariamente sobre pessoas do sexo feminino; ou ainda o aumento da taxa de violência doméstica durante o isolamento social -, tornam o momento ainda mais delicado.

No perfil do coletivo no Instagram (@minasdagraxa), há um post cuja legenda é um manifesto de apresentação: “Neste cenário atual, várias profissionais do ramo de shows estão com suas principais fontes de renda inviabilizadas e sem previsão de retorno às atividades. Sentindo essa dificuldade, decidimos unir forças numa campanha para fortalecer essas mulheres que, neste momento, não têm como trabalhar em suas funções técnicas na cena musical pernambucana. Queremos aumentar essa rede de solidariedade e pedimos por amor, o interesse ativo dos nossos companheiros e companheiras de trabalho e público em geral, que possam colaborar com a nossa campanha. Queremos produzir conteúdos e ações para fortalecer as manas e tudo feito sempre por mulheres”, diz parte do texto.

“Muitas mulheres estão hoje preocupadas com o emprego, condições de trabalho precarizado, desigualdade salarial e o aumento da violência, principalmente contra as mulheres pretas. Devemos nos mobilizar e impulsionar a profissionalização de nós mulheres”, continua.

Entre as artistas apoiadoras e parceiras do Minas da Graxa estão Sam Silva, Gabi da Pele Preta e Catarina Dee Jah, que elaborou uma arte com a logomarca da campanha. A ideia é galgar mais parcerias para que seja possível a elaboração de kits contendo camisetas estampadas com a criação de Catarina e outros produtos, que serão postos à venda.

Também há uma vaquinha online (vakinha.com.br/vaquinha/campanha-minas-da-graxa) através da qual é possível contribuir com qualquer valor. Todo o dinheiro arrecadado com estas e outras ações será revertido em auxílio para as profissionais cadastradas por meio de um formulário organizado pelo movimento e disponível no endereço linktr.ee/Minasdagraxa.

“Somos ainda bem poucas mulheres nesse ambiente (da técnica), e principalmente no interior, exercendo essas funções que o patriarcado colocou para a gente, de que existem profissões que são de homem e outras que são de mulher. Essa parte da técnica na música ainda é muito masculina. Acredito que sempre existiram mulheres que gostaram dessa área, mas que não tinham oportunidade de exercer ou não recebiam credibilidade pelo seu trabalho. Também há o assédio, que acontece muito nos palcos. Então ter esse recorte é uma pauta muito necessária”, aponta em entrevista por telefone Cika Favel, assistente de palco e produtora cultural residente em Caruaru, no Agreste.

Foi através de conversas dela com a roadie e produtora Raynnara, braço do Minas da Graxa no Recife, que surgiu a ideia de se organizar coletivamente. Ela detalha que o cadastro criado quer entender quem são, onde moram e do que estão precisando as mulheres trabalhadoras desse nicho e convoca mais pessoas – da área ou não - a aderirem ao movimento. O grupo já tentou articular apoio com gráficas para a confecção das camisetas, por exemplo, mas não obteve sucesso, o que ela credita também ao momento de crise que enfrenta grande parte da população.

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“A ideia é pegar parte do que já conseguimos com a vaquinha e elaborar essas camisetas, mas é algo que ainda vai ser levado para nossas reuniões”, conta Cika. “O mais importante a ressaltar é que somos um movimento que quer a união dessas mulheres, que a gente se reconheça, se conheça e se fortaleça, porque a longo prazo isso pode se desdobrar em formação para que novas mulheres entrem nesse mercado de trabalho, não é somente uma ação para arrecadar dinheiro para quem precisa agora, esse é só o primeiro passo”, encerra ela.

Quem quiser colaborar com a campanha pode, além de fazer doação através da vaquinha, entrar em contato pelo perfil @minasdagraxa no Instagram ou através do e-mail minasgraxas@gmail.com.

LEIA O MANIFESTO MINAS DA GRAXA:


"Não só de cestas básicas vivem as minas da graxa! Somos um movimento de mulheres, técnicas de palco que surge em tempos de isolamento social, causado pelo novo coronavírus e, com isso, imediatamente, o mercado de shows e eventos tiveram que parar suas atividades.

Neste cenário atual, várias profissionais do ramo de shows estão com suas principais fontes de renda inviabilizadas e sem previsão de retorno às atividades. Sentindo essa dificuldade, decidimos unir forças numa campanha para fortalecer essas mulheres que, neste momento, não tem como trabalhar em suas funções técnicas na cena musical pernambucana.

Quem somos?

Somos técnicas (roadies, iluminadoras, operadoras de som), artistas e produtoras de PE, numa campanha para arrecadar fundos e direcionar a doação arrecadada para profissionais que estão passando por momentos de vulnerabilidade. A ideia é fornecer um auxílio financeiro para a mulher beneficiada utilizar de acordo com sua urgência.

O que queremos?

Estamos na busca de parcerias para elaboração dos kits da campanha. A ideia é fazer vendas de kits com camiseta e outros produtos, além do financiamento coletivo das vaquinhas on-line. O dinheiro arrecadado será revertido em auxílio das minas da graxa cadastradas pelo nosso movimento.

Queremos aumentar essa rede de solidariedade e pedimos por amor, o interesse ativo dos nossos companheiros e companheiras de trabalho e público em geral, que possam colaborar com a nossa campanha. Queremos produzir conteúdos e ações para fortalecer as manas e tudo feito sempre por mulheres.

Qual o nosso maior desafio?

Muitas mulheres estão hoje preocupadas com o emprego, condições de trabalho precarizado, desigualdade salarial e o aumento da violência, principalmente, contra as mulheres pretas.

Devemos nos mobilizar e impulsionar a profissionalização de nós mulheres.

Como você pode contribuir?

Somando na campanha com parcerias; compartilhando a causa;
colaborando financeiramente, e, ou doação de artes, produtos para venda, camisetas, etc.

Se torna mais potente estando juntas!

• faça sua doação!

Primeira ação:

• Camisetas Minas da GraXa feitas pela artista Catarina de Jah."

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