memória

Geraldão foi palco, desde a inauguração, de shows memoráveis

Wilson Simonal estreou os shows musicais no ginásio, que teve também astros estrangeiros, feito Johnny Mathis e Rick Wakeman

José Teles
José Teles
Publicado em 26/09/2020 às 13:25
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Acervo JC Imagem
Manito e Nenê, de Os Incríveis, na inauguração do Geraldão - FOTO: Acervo JC Imagem
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Finalmente entregue à população depois de sete anos fechado, o Ginásio de Esportes Geraldo Magalhães deve voltar a ocupar a posição de destaque que teve na cidade até os anos 90, tanto nas atividades esportivas quanto na de espetáculos. Inaugurado em 12 de novembro de 1970, teve o show de estreia, com Wilson Simonal, no auge da carreira. No dia seguinte cantaria Elis Regina. No terceiro dia, a atração musical foi Os Incríveis, estes embalados com a marchinha cívico pop Eu Te Amo Meu Brasil, de Dom e Ravel.
A primeira lotação esgotada foi para Roberto Carlos, em março de 1971, em sua fase soul, com a presença na plateia do time do Santos F.C, com Pelé & Cia. Roberto, já cantando para adultos, vinha com uma superbanda, que tinha entre os integrantes o trombonista Raul de Souza, e o pianista Dom Salvador. Chegou ao Recife em meio de uma polêmica provocada pelo folclórico deputado estadual Newton Carneiro, que o acusava de heresia por causa da composição Jesus Cristo (parceria com Erasmo Carlos), Os Incríveis cantaram canção Eu Te Amo Meu Brasil.
O próximo show badalado seria de Chico Buarque, que se tornara espécie de inimigo nº 1 do regime, e o MPB-4. Curiosamente, a apresentação seria patrocinada pela Cruzada de Ação Social, uma iniciativa da primeira-dama do estado, Olga Gueiros. Chico estava também com uma música polêmica, o samba Apesar de Você, que foi cantada no Geraldão, mas que seria dias depois proibida pela censura, com discos recolhidos em todo território nacional. Estes shows, no entanto transcorreram sem incidentes. O que não aconteceu com a apresentação de Caetano Veloso, em 22 de janeiro de 1972, quando o Geraldão foi palco de um colossal esporro do cantor baiano na plateia, que o interrompeu com piadas, exatamente quando ele cantava Asa Branca (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira).
O cantor, recém-chegado do exílio em Londres, com Gilberto Gil, escandalizava com sua atitude contracultural, cabelos longos e desgrenhados calças folgadas, mini- -blusa, muito rock and roll para uma cidade armorial. Caetano Veloso apresentou o show do disco Transa, com Jards Macalé (violão), Moacir Albuquerque (baixo), Tutti Moreno (bateria) e Áureo Santos (percussão). O carão de Caetano Veloso numa plateia de 15 mil pessoas, até então a maior de sua carreira, repercutiria por vários dias na imprensa do Recife.
EXCESSO
Em 1973, irrompeu o fenômeno Secos & Molhados e o Geraldão recebeu o grupo de NeyMatogrosso, Gerson Conrad e João Ricardo no show mais tumultuado de sua história, com um púbico muito acima do que comportava o estádio, num calor infernal (nem se pensava nesta época em climatizar um ambiente com aquela dimensão). A catástrofe que se prenunciou durante o show felizmente não aconteceu. A apresentação do grupo no Recife foi contada no livro Primavera nos Dentes, do jornalista Miguel de Almeida:
“Tudo era de improviso: o palco eram dois praticáveis postos lado a lado. Sobre eles, o grupo deveria cantar. Os músicos só notaram o amadorismo da estrutura lá pela quinta canção — ninguém havia feito uma inspeção, porque não houvera tempo, do aeroporto correram para o ginásio, com rápida passagem pelo hotel. Conforme se movimentavam, o palco balançava inseguro. Parecia um problema contornável, até que, sob o piano de Emilio Carrera, os praticáveis se separaram, criando um vão entre eles, dando ao músico a sensação de que em breve seria engolido pela cratera. Aquilo assustou a todos e, claro, limitou os movimentos da coreografia.
O público avançou, rompeu o cordão de isolamento montado pelos policiais, e o palco ficou balançando. A todo custo queriam se aproximar dos músicos, tocá-los. A tensão se agravou ainda mais após o término do espetáculo. O delegado responsável rapidamente informou aos integrantes do grupo que todos ali corriam risco, a turba estava fora de controle. Ele aconselhou, de maneira sôfrega, que não fossem aos camarins — certamente seriam invadidos pelos fãs. Se isso ocorresse, algo grave poderia acontecer. Deveriam sair dali de imediato. ‘Ouvi que não garantiriam nossa integridade física’, Ney conta.
Ensandecida, a multidão avançou mais e derrubou algumas paredes. Precisavam abandonar o local, era urgente — gritaram os policiais. Como se não bastasse, um delegado deteve o empresário do Secos & Molhados, atendendo à denúncia de duas senhoras da sociedade pernambucana. O crime: Moracy Do Val, o empresário, não forneceu a ela ingressos para o show, nem permitiu que entrassem no estádio, já totalmente tomado pelo público. Elas se queixaram à polícia. Os três integrantes do Secos & Molhados deixaram o ginásio num camburão da polícia, para evitar o assédio do público. Mas este episódio foi uma exceção. A imensa maioria dos concertos realizados no ginásio faz parte das memórias afetivas de muita gente. Johnny Mathis, Os Doces Bárbaros, Astor Piazzola e Quinteto Violado (batendo o recorde de menor público), Gal Costa, Rick Wakeman, Gilberto Gil e Jimmy Cliff , Gilberto Gil e Rita Lee, no show Refestança, o americano Faith No More, a lista é longa.

 

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