Halloween/música

Trilha para o Halloween: de Roberto Carlos a Reginaldo Rossi

O Papa-Figo, assombração pernambucana, também está na lista de canções de horror

José Teles
José Teles
Publicado em 31/10/2020 às 10:47
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halloween no século 19 - FOTO: Reprodução
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Começou-se a falar em Halloween por aqui em meados dos anos 40, mas as festas passaram a ser mais frequentes nos anos 50, em casas de americanos, consulados, escolas americanas. Não é uma festa com repertório próprio, embora já se componham canções para a data. O horror é comum na canção popular, e na erudita, desde sempre. O álbum The Ultimate Halloween Party, por exemplo, é uma das muitas compilações direcionadas à festa, compilando músicas lançadas entre os anos 30 e 1950, porém não destinadas especificamente à data. Como é uma festa que dura apenas um dia, não se investe em álbuns gravados especialmente para ela, mas faz-se o vínculo entre determinadas músicas e o Halloween, sobretudo temas de filmes, feito Pet Sematary, dos Ramones, Ghost Busters, de Ray Parker Jr (do filme homônimo), ou o tema de O Exorcista (fragmento de Tubular Bell, de Mike Oldfield).
Vindo para o Brasil, onde a festa chegou lá pelos anos 40, mas só se estabeleceu nas duas ultimas décadas, ainda sem a dimensão de países europeus, com influencia da cultura celta. História de assombrações povoam o imaginário popular. Conhecida por sua sátiras políticas, que o Presidente Getúlio Vargas, apreciava um dos grandes sucessos da dupla caipira Alvarenga e Ranchinho, lançado em 1940, chama-se O Romance de Uma Caveira (da dupla com Chiquinho Sales): “Eram duas caveiras que se amavam/e à meia-noite se encontravam/pelo cemitério os dois passeavam/e juras de amor então trocavam”. A história acaba com a caveira, trocando o "caveiro" por um defunto novo, ou “defunto fresco”, como cantam os dois. Mas eram mais peças de humor do que uma tendência na música popular.
Nos anos 50, em plena guerra fria, monstros, nos Estados Unidos, serviam de metáforas para o comunismo, ameaça vermelha, manipulada da Cortina de Ferro, União Soviética, para destruir o ocidente cristão. A bomba atômica fez surgir nos gibis, romances baratos e na música pop os monstros resultantes de alterações genéticas a partir de experiências nucleares. Por fim, o início da corrida espacial, os primeiros satélites, trouxeram para acultura pop estranhas criaturas de outros planetas.
Então, vi a coisa chegando do céu/tinha um chifre comprido/um olho enorme/comecei a tremer e gritei, aiiiii/pra mim se parece como um devorador de cor púrpura” , versos iniciais de The Purple People Eater (O Povo Devorador de Cor Púrpura), de Sheb Woolley, em 1958. Um sucesso nacional, que levou muita gente a compor músicas de horror infanto-juvenil, um deles virou um clássico Dinner With Drac, de John Zacherle, história de alguém que foi jantar com o Conde Drácula, e no cardápio tinha espaguete de uma música chamada Bete, e asinhas de morcego na sobremesa. Um hit literalmente monstro, teve Bobby Pickett, que gravou várias canções tendo assombrações por tema, sendo Monster Mash, de1962, seu maior sucesso, um standard do repertório do Halloween nos EUA.
BRASILEIRAS
Com um pouco de atraso, as canções de horror, mesmo sem o Halloween ser muito conhecido no país, chegaram ao Brasil nos primeiros anos da década de 60. O cantor Demétrius, da primeira leva do rock nacional, fez sucesso com duas do gênero, Rock do Saci (1961) e A Bruxa (1964). Um trecho da letra da segunda (de Demétrius e Baby Santiago): “Velha medonha, de faca na mão/voando sentada, no vassourão/olha a Bruxa, olha a bruxa/a velha quer pegar criança/pra fazer sabão”. Quem também fez uma fugaz incursão pelo rock horror foi Jô Soares, em 1963, lançou Vampiro : ”Peguei uma garota, mordi-lhe a jugular/ela, assustada, começou a gritar: vampiro/Uh, uh, uh, vampiro, uh, uh, uh/me chamam de vampiro porque gosto de morder a jugular”.
Roberto Carlos, em 1965, também gravou a sua canção de horror, Noite de Terror (Getúlio Côrtes),: “Fazia noite fria, eu logo fui dormir/Soprava um vento forte/E eu não pude mais sair/Pensei com meus botões/” um bom livro eu vou ler/E um trago de uísque/Que é bom pra me aquecer/Mas uma coisa, vejam!... me aconteceu/Uma mão gelada em meu ombro bateu”. A mão gelada era a de Frankestein. Lançada no álbum Roberto Carlos Canta Para a Juventude, Noite de Terror teve só outra gravação com Itamar Assumpção, em 1983, no álbum Às Próprias Custas. Reginaldo Rossi, em seu primeiro álbum surfou na onda do horror, com O Papa-Figo (parceria com Nízio: “Prestem atenção ao que agora eu digo/na minha rua mora um papa-Figo/prestem atenção agora ao que vou contara/Este papa-Figo é mesmo de amargar/Uma perna é cangaia outra é zambeta/sai pra pegar menino/montado numa lambreta”. O monstro regional também foi cantado por Genival Lacerda no Xote do Papa-Figo, de maneira mais assustadora: “Cuidado com o Papa-Figo/ ele age como um assassino/ele pega, ele mata, ele arranca, ele come o fígado do menino”.
O sobrenatural permeia a música brasileira, mesmo sem intenção no Halloween. Zé Ramalho tem a sua Mistérios da Meia Noite, de 1985, da trilha de Roque Santeiro. Outra música de trilha de novela envolvida com o além foi Canção da Meia-Noite (Zé Flávio), do grupo gaúcho Almôndegas, incluída em Saramandaia, de 1976. Também gaúcho era a Terreno Baldio, banda de rock dos anos 70, que cantou várias assombrações do folclore, Saci, Curupira, chegou a ter um sucesso menor com Caipora. No carnaval, tanto as marchinhas quantos os frevos visitam esta seara. Faz parte do repertório carnavalesco pernambucano o frevo-canção Vampira, de J.Michiles, sucesso com Alceu Valença. O lobisomem já foi cantado por muita gente boa na MPB, até Aldir Blanc e Guinga têm a sua Canção do Lobisomem (gravada por Maria João, e por Guinga).
Mas para um Halloween à brasileira ser completa não pode faltar a dupla caipira moderna Conde & Drácula, que dedicaram um álbum inteiro aos que vivem nas sombra, no álbum homônimo (1976), há faixas como Bruxa Feiticeira, A Noite dos Vampiros, e O Corvo, esta uma parceria póstuma com o poeta americano Edgar Allan Poe. Bem mais divertido para um festa de Halloween do que o lugar comum de tocar temas de filmes de terror como Sexta-Feira 13, Exorcista, Ghost Buster e o inevitável Thriller de Michael Jackson.

MPB DE HORROR

Alvarenga e Ranchinho O Romance da Caveira

Roberto Carlos Noite de Terror

Demetrius A Bruxa

Reginaldo Rossi O Papa-Figo

Conde & Drácula A Noite dos Vampiros

Almôndegas Canção da Meia-Noite

 

 


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