Consciência Negra/MPB

Dia da Consciência Negra: Da exaltação à mulata ao ativismo racial, as mudanças na MPB

Vanusa foi uma das pioneiras em canções com temática racial na música brasileira

José Teles
José Teles
Publicado em 20/11/2020 às 5:58
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Toni Tornado, banido - FOTO: Divulgação
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Com exceções de vozes isoladas, a questão racial só chegou à música popular brasileira em 1968. Até os anos 50, e ainda entrando nos 60, a mulata era a tal, um estereótipo de símbolo sexual. Incontáveis os sambas que exaltam a mulata. O racismo também era comum, em letras que acentuavam o tom no humor, feito Nega Maluca (Evaldo Ruy/Fernando Lobo): “Estava jogando sinuca/uma nega maluca me apareceu/vinha com um filho no colo/e dizia pro povo que o filho era meu”. O melhor exemplo do tema é exatamente A mulata é a tal (João de Barro/Antonio Almeida): “Branca é branca/preta é preta/mas a mulata é a tal/quando ela passa todo mundo grita/estou aí nesta marmita”.

Na bossa nova e na geração que a sucedeu, a dos festivais a questão racial não ocupava as preocupações do compositores. Em ambos, aliás, predominam brancos. Curiosamente, uma das primeiras canções que vai direto ao tema foi gravada pela lourinha Vanusa em 1968, no seu álbum de estreia, Negro, dela e David Miranda. Foi precedida, em 1967, pela dupla Wilson Simonal e Ronaldo Bôscoli com Tributo a Martin Luther King. Os dois não eram exatamente ativistas pela causa, mas a letra é incisiva: “Sim sou negro de cor/ meu irmão de minha cor/o que te peco e luta sim/ luta mais/que a luta esta no fim”, cantada com “champignon” como Simonal chamava seu suingue, fez sucesso.

Mas foi com o paulista Toni Tornado que o ativismo racial entrou na música brasileira. Negro, alto (com o corte afro passava dos dois metros), Toni Tornado testemunhou as manifestações de rua nos EUA, absorveu as ideias do Black Panther Party, e trouxe estas influências para o Rio. Nos inicio dos anos 70,Já se fazia música na MPB influenciada pelo movimento Black Power, porém muito mais como importação de um modismo. Elis Regina gravou em 1971, Black Is Beautiful, dos irmãos bossa-novistas Marcos e Paulo Sérgio Valle, que idealizam o homem negro, como os autores de décadas passadas procediam com a mulata: “Hoje cedo, na rua Do Ouvidor/Quantos brancos horríveis eu vi/eu quero um homem de cor/Um deus negro do Congo ou daqui”. Black is beautiful era um slogan dos ativistas negros americanos, e foi usado também por Jorge Bem (ainda sem o Jor), em Negro É Lindo.

Mas Toni Tornado não apenas cantava como repetia slogans e postulados do Black Power, inclusive repetia no palco ou em entrevistas na TV o gestual do braço estendido pro alto com o punho fechado. Era um movimento do eu sozinho. Sua atuação desagradava os militares que comandavam o país em sua fase mais dura. Aquilo incitava a luta racial, e tinha que ser interrompido. Em pleno backstage, de um festival da canção, a polícia pegou Toni Tornado e o mandou pra fora do país contra sua vontade. Segundo ele conta, o colocaram num avião, sem eu soubesse para onde ia. Foi parar em Praga, na então Tcheco-Eslováquia.

BLACK RIO

Quando Toni Tornado voltou ao Brasil, em meados dos anos 70, começava o que se rotulou de Black Rio também fortemente influenciado pelo funk e soul americanos. Muitos cantores tinham um “Dom” antes do nome, feito Dom Filó. Mas desta vez eram muitos, e atraíam milhares para os bailes que realizavam na periferia do Rio (mas também no Canecão, em Botafogo). Eram igualmente mal vistos pelas autoridades, porém a repressão vinha da polícia comum, e muito mais pelas atitudes, do que pela ideologia. O compositor e cantor Macau levou uma prensa da PM por causa dos olhos verdes. Os policiais não se conformaram em ver um negro de pele muito escura com olhos muito claros. Macau compôs Olhos Coloridos inspirado nesse incidente. A música se tornou sucesso nacional com Sandra de Sá. Outro.

O Black Rio acabou no final de década, mas deixou sementes. Formou os primeiros DJs do Brasil, e abriu caminho para o que hoje se chama de funk carioca. O rap aportou no país no final dos anos 80, mas demorou a engrenar. O modelo era o americano, claro, e a temática racial social caminhavam juntas nas letras. Porém além de alguns sucessos isolados de rappers da periferia, o rap habitava o underground. Só subiria à superfície na segunda década deste século. O ativismo racial hoje ocupa o trabalho de artistas negros, que habitam um caldeirão de ritmos, e tem como nome mais forte e venerado, a cantora que já foi a maior sambista do Brasil, Elza Soares, intérprete da mais visceral e contundente canção de denúncia racial da MPB, a Carne (Seu Jorge/Marcelo Yuka/Ulisses Cappelletti a que Elza imprimiu uma interpretação arrepiante: “A carne mais barata do mercado/é a carne negra”.

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