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Martinho da Vila reúne a filharada em disco para levantar o astro do Rio

Rio: só vendo a vista gravado durante a pandemia, tem cinco sambas inéditos e sete regravações

José Teles
José Teles
Publicado em 20/11/2020 às 16:56
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Léo Aversa/Divulgação
martinho, viva o Rio - FOTO: Léo Aversa/Divulgação
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O máximo da carioquice, um disco de sambas com capa ilustrada por Lan (o mais carioca dos italianos, falecido em 4 de novembro de 2020), em que as linhas sinuosas das montanhas que decoram a cidade se confundem com as curvas das mulheres do Rio. Os sambas assinados por Martinho da Vila (alguns com parceiros). O título: Rio: só vendo a vista (Sony Music). O Rio e o samba estavam precisando de um disco assim. A capital fluminense por motivos óbvios, tantos os descompassos que lhe sucederam nas últimas décadas. O samba, porque o ritmo autêntico nunca esteve tão por baixo. A não ser para quem considere que seja samba pra valer, o pagode romântico, ou o samba apagodado, que se aproximam de gêneros populares como o sertanejo, com fixação na temática romântica, eufemismo para brega.
“O Rio às vezes é um grande abacaxi/de São Conrado a São João do Mereti/uma janela sempre bela admirada/o Cristo Redentor, a enseada”, uma das mais belas canções dedicadas à cidade que continua maravilhosa, mesmo sendo tão maltratada. Este é o 55º título de uma discografia, iniciada em 1967, com um compacto com selo da DiscNews, mas que engrenou apenas em 1969 com o LP que tem seu nome por título, que rendeu sucessos como Quem é do mar não enjoa, Casa de bamba, Pra que dinheiro, ou o Pequeno burguês, que tornaram o ex-sargento do Exército (em 1970, trocou a farda pelo samba em tempo integral) Martinho José Ferreira, primeiro num nome nacional, depois num patrimônio brasileiro.
Aos 82 anos, Martinho da Vila mostra um vigor admirável, pega um circular saindo de Vila Isabel, e sai pelo Rio afora: Bento Ribeiro, Salgueiro, Oswaldo Cruz, Mangueira e Arpoador; vai do Maracanã lotado às rodas de samba no Terreirinho, no Morro dos Macacos. Sete dos seus oito filhos participam do coro em Vila Isabel anos 30, Rio Chora o Rio Canta, Umbanda Nossa, e Assim Não Zambi. Em Você, eu e a orgia tem apenas o coro das filhas, com Alegria, a caçula participando pela primeira de uma gravação com o pai. Verônica Sabino participa da deliciosa O Caveira, uma das inéditas do álbum. Ela participa também da regravação de Pensando Bem (parceira com João de Aquino)
O álbum traz cinco inéditas e sete regravações, um álbum sob o efeito da pandemia, que faz desde um disco familiar. Em um diálogo de pergunta e respostas, com Mart’Nália ele enfatiza a atualidade de Menina de rua (feita com Rildo Hora): “O meu pai se mandou de casa/e a mãe desapareceu/vendo bala pipoca, e amendoim pra sobreviver/pra viver/as marquises são o meu teto/e as ruas a minha escola”, que nem é samba, está mais para o reggae.
Eterna Paz insinuaria uma aposentadoria, se a música não tivesse sido feito há anos, em parceria com Candeia: “Como é bom adormecer com a consciência tranquila/as chuteiras penduradas depois do dever cumprido/despertar num mundo livre/e despoluído/onde tudo é só amor”, uma das melhores faixas, a simplicidade caprichada, apenas voz e cavaquinho, Outra regravação aprovada, Assim, não Zambi feita para Clementina de Jesus em 1979, um partido alto que tem também a voz de Martinho, que aqui canta com a filha Mayra Freitas. Umbanda Nossa é mais uma inédita, na qual celebra as religiões de matriz africana, com um batuque de terreiro, contagiante, e uma percussão azeitada. Seu Martinho fez o melhor disco de samba de 2020, coisa boa num ano péssimo.

 

 

 

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