INSTRUMENTAL

Pupillo percorre clássicas trilhas de telenovelas nacionais no projeto Sonorado

Baterista e produtor pernambucano deu pegada atual às músicas compostas por encomenda para tramas exibidas entre as décadas de 1960 e 1970

Nathália Pereira
Nathália Pereira
Publicado em 23/11/2020 às 20:55
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Pupillo pretende lançar o álbum em vinil e circular com turnê de shows assim que a situação da pandemia permitir - FOTO: CÉU/DIVULGAÇÃO
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Que o brasileiro tem uma relação especial com as telenovelas é inegável. Mesmo com a democratização do acesso aos conteúdos produzidos exclusivamente para streaming, as emissoras de televisão aberta e por assinatura ainda devem boa parte de sua receita à exibição de tramas repletas de romances, mocinhos e vilões. Vide o sucesso das edições especiais durante este tempo de pandemia e das reprises como a de Laços de Família, obra de Manoel Carlos exibida originalmente entre 2000 e 2001 e reapresentada desde setembro pela Rede Globo na faixa Vale a Pena Ver de Novo. Entre altos e baixos, a sessão vespertina de reapresentação de folhetins é parte fixa da grade da emissora há 40 anos e sempre gera falatório sobre qual será sua próxima escolhida.

Não foi a ligação afetiva, nem o costume de sentar frente à TV meses a fio para acompanhar uma mesma história, no entanto, que instigou no baterista e produtor Pupillo a ideia primária que deu origem ao álbum Sonorado Apresenta: Novelas, projeto em que revisita clássicas trilhas sonoras de conhecidas tramas, mas a paixão pelo que havia ali de rítmico e musical. Primeiro veio o show, que o pernambucano apresentou no Sesc Belenzinho, em São Paulo, no ano passado.

Com o bom resultado da apresentação, nove músicas foram selecionadas, entre composições elaboradas para títulos como Selva de Pedra (Janete Clair, 1972) ou O Bem-Amado (Dias Gomes, 1973), para compor o disco, como o músico explica melhor em entrevista por e-mail ao Jornal do Commercio.

"O processo de seleção se deu através da minha coleção de vinis das trilhas de novelas do período entre 1969 e 1977. Eu escuto esses vinis com frequência e percebia desde sempre uma forte relação com o universo do hip hop, por conta da riqueza rítmica e dos grandes arranjadores da época como Érlon Chaves, Walter Branco, Antônio Adolfo e tantos outros", detalha Pupillo.

"Esses discos são cultuados entre os DJs mundo afora, e o critério (para montar a tracklist de Sonorado) era encontrar temas onde eu pudesse privilegiar toda parte rítmica e fazer uma reverência ao início do hip hop, que tem uma forte influência no meu trabalho".

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Pupillo relembra que no período recortado para o projeto, lançado pela Deck e disponível por enquanto apenas por streaming, as trilhas eram feitas exclusivamente para as novelas, com grande investimento, incluindo a contratação de renomados maestros, compositores, arranjadores e músicos. A primeira trilha nesses moldes a ser lançada como disco foi a de Véu de Noiva (1969 - 1970), de Janete Clair, produzida por Nelson Motta.

"(Esses profissionais) proporcionaram um momento da música brasileira onde uma nova abordagem musical virou grande referência e fonte de pesquisa de alta qualidade, mesmo quando as novelas não atingiam o sucesso esperado. Muitas dessas trilhas atingiram vendas enormes e, por conta disso, a Globo fundou a (gravadora) Som Livre", comenta.

O Bem-Amado, citada no início, por exemplo, foi musicada por Vinícius de Moraes e Toquinho. Outro par de duplas importantes para essa fase foram os irmãos os irmãos Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, além de Roberto e Erasmo Carlos, de quem Pupillo regravou Tema de Kiko, composta para Pigmalião 70, de Vicente Sesso, cuja liberação surpreendeu o baterista, que não teve, no entanto, grandes dificuldades com autorizações para regravação: "o único veto foi o sample da abertura de O Bem Amado, que tive que regravar às pressas".

Com o encerramento das trilhas compostas por encomenda, na metade da década de 1970, a lógica foi invertida. As gravadoras passaram a usar - e disputar - os folhetins como vitrines de seus lançamentos, o que, de certa forma, se vê até hoje. O todo perdeu unidade, virando apenas um aglutinado de faixas desconexas.

"O que antes era um trabalho elaborado e com controle de qualidade se tornou um grande negócio em que as gravadoras passaram a ditar as regras no intuito de divulgar seus artistas, virando uma grande compilação, que renderia grandes vendagens, mas nunca mais teríamos momentos históricos como a trilha de O Bem Amado", diz Pupillo.

CIRCULAÇÃO

Dentro dos planos para o projeto, Pupillo antecipa o lançamento em vinil, fundamental pelo conceito original, além da extensão do que foi iniciado há um ano. "Levar esse repertório para os palcos também é uma meta tão logo a vida se 'normalize'", encerra.

Além de Pupillo na bateria e voz, Sonorado tem Thomas Harres (percussão e voz), Marcio Arantes (baixo e voz), Zé Ruivo (teclados, sintetizadores e voz), Guri (guitarra e voz) e Ângelo Medrado, no caxixi e voz.

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