Covid-19

Coronavírus adoece a economia no Brasil e no mundo

Choque na economia aponta para uma nova recessão em 2020, com frustração de receita e aumento do desemprego

Adriana Guarda
Adriana Guarda
Publicado em 22/03/2020 às 15:19
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GUGA MATOS/ACERVO JC IMAGEM
Todo o processo seletivo será online e estágio terá início em julho deste ano - FOTO: GUGA MATOS/ACERVO JC IMAGEM
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Na próxima sexta-feira (27), o Polo Automotivo Jeep em Goiana vai parar. Treze mil funcionários vão deixar seus uniformes nos armários e entrar em férias coletivas. A medida é para evitar a disseminação do contágio pelo novo coronavírus, em um complexo integrado por várias fábricas e com grande circulação de pessoas. Mil veículos deixarão de ser produzidos - por dia - até a retomada das atividades prevista para 21 de abril. Outros setores como comércio, serviços e construção civil receberam determinação do governo de Pernambuco para fechar as portas. Esse choque na economia em todo o País fez o governo federal admitir um cenário de recessão para 2020. Depois do 'pibinho' de 2019 (1,1%), o governo esperava um crescimento do PIB na casa de 2%, mas a covid-19 fez a previsão ser revista diversas vezes. A última foi anunciada na sexta-feira passada, uma ultra-modesta taxa de 0,02%.

No ano passado, o PIB de Pernambuco cresceu acima do Brasil com taxa de 1,9%, mas ficou levemente abaixo do esperado (2,1%). O resultado foi puxado principalmente pela agropecuária e pela indústria, com forte influência de empreendimentos com produção de alto valor agregado, como a montadora Jeep (21,1%) e a Refinaria Abreu e Lima (12,7%). Para este ano, o governo do Estado preferiu ser cauteloso e não divulgar previsão para o PIB, diante das incertezas trazidas pela pandemia do coronavírus.

Mesmo com a crise argentina, que fez encolher as exportações de veículos para o vizinho, a montadora da Jeep no Estado vinha registrando desempenho positivo, aumentando os turnos de produção, a capacidade instaladas da fábrica e anunciando novos investimentos no Estado. Em 2019, a empresa produziu 222 mil veículos e a meta para este ano é alcançar 250 mil. A capacidade instalada passou de 250 mil para 280 mil veículos e a expectativa é começar a fabricar um quarto modelo de veículo em 2021 (um SUV). Em que medida esse freio na produção vai prejudicar o resultado da empresa e a economia do Estado ainda não dá para saber.

INDÚSTRIA

O setor industrial não recebeu medida restritiva para suspender suas operações, mas o Polo Jeep por ter uma montadora e vários fornecedores num grande complexo fabril com 13 mil pessoas, os sindicatos solicitaram a paralisação. A Jeep começou a desacelerar as linhas, gradativamente, a partir da semana passada, mas vai encerrar totalmente no próximo dia 27.

Para as indústrias que continuam com suas linhas de produção ligadas, o cenário é de completa incerteza. Fabricante de porcelanatos, cerâmicas e revestimentos com unidade em Suape, a Pamesa continua produzindo para atender os clientes de exportação e poucos negócios que já estavam fechados e pagos. Com o fechamento da rede de comércio de produtos de material de construção a partir deste domingo, a indústria perde o elo com as revendas, que são seu primeiro canal de vendas.

"A situação é dramática. Estamos tomando decisões à medida que o cenário vai se descortinando à nossa frente. As decisões tomadas para a semana não chegam a valer por mais de 24 horas. O governador (Paulo Câmara) decidiu fechar toda a cadeia de distribuição de material de construção do Estado. E a decisão está correta, porque o momento não é de preservar só a atividade econômica, mas a saúde das pessoas. Aqui na Pamesa seguimos com a produção, com nosso compromisso de exportação e clientes que precisamos atender. Mas não sei se vamos continuar produzindo, se vamos reduzir. Vamos esperar mais uma semana para observar o cenário e decidir o que vamos fazer", diz o presidente da Pamesa, Marcus Ramos Júnior.

A Pamesa conta com 350 colaboradores, tem uma produção mensal média de 1,2 milhão de m2 e comercializa entre 20% e 30% do que produz no mercado internacional.

Também instalada em Suape, a Frompet vive um momento inverso ao do mercado e está aumentando a produção. Fabricante de pré-forma (espécie de tubo de ensaio que antecede a embalagem PET), a companhia está fabricando mais para atender ao aumento da demanda da indústria de álcool e de água mineral.

"A nossa produção já estava full, mas nossos estoques reguladores garantem este aumento na demanda para envase de álcool. O gargalo está na falta de sopradoras para transformar as nossas pré-formas em garrafas", diz o presidente da Frompet, Marcelo Guerra.

DESEMPREGO

O novo coronavírus já adoeceu a economia. Depois de apresentar uma taxa de crescimento abaixo da esperada em 2019, o Brasil poderá ter crescimento perto de zero este ano e amargar uma inversão de indicadores que já comemoravam alguma recuperação, a exemplo do emprego. Com o fechamento temporário de empresas e estabelecimentos comerciais fica difícil saber até quando, sobretudo micro e pequenos empresários, terão fôlego para manter os funcionários sem entrada de receita.

A situação de Pernambuco preocupa porque foi um dos últimos a sinalizar reação do mercado e o primeiro a perder vagas, antes mesmo da crise, por conta da desmobilização da Refinaria Abreu e Lima. Foram quatro anos seguidos de fechamento de vagas (entre 2014 e 2017) até conseguir uma discreta reação em 2018 e obter um resultado mais consistente em 2019. 

O economista Sérgio Buarque defende que sejam adotadas medidas que não penalize as empresas para que elas possam manter seus empregados. "Tem que ter uma ação do Estado, ampliar o auxílio-desemprego, talvez. Desemprego não tem como evitar, vai existir. Na hora que a economia voltar, dependendo do ritmo, os empregos se recuperam. O melhor dos mundo seria licença com vencimento, mas quem puder manter seus empregados, pagando o salário, mesmo que reduzido, é uma questão de solidariedade. Isso deve alcançar o pico em três meses", calcula.

Embora os efeitos no Estado tenham sido sentidos mais fortemente a partir de março, o primeiro trimestre não deverá ser otimista e o segundo vai absorver ainda mais o choque do novo coronavírus. "Nossa esperança de sair dessa crise é somente se que as coisas melhorarem no terceiro e no quarto trimestre. Quanto mais tempo a pandemia durar, quanto mais ela se arrastar, maior a crise", observa Buarque.

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