Coronavirus

O novo contrato social do mundo após a grande epidemia da covid-19

Os novos desafios para o mundo serão enfrentados com Estados mais fortes. O problema é é que a presença estatal poderá não ficar apenas na economia, vai acontecer na política também

Leonardo Spinelli
Leonardo Spinelli
Publicado em 13/04/2020 às 16:33
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Mohd RASFAN / AFP
Covid-19: Países vão caminhar na direção de uma descentralização das cadeias globais de suprimento e o primeiro movimento acontecerá nos insumos de saúde - FOTO: Mohd RASFAN / AFP
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A pandemia do coronavírus tem levado especialistas ao redor do mundo a prever o fim do processo de globalização, enquanto os países vêm priorizando a saúde de seus cidadãos, impondo o distanciamento social e ajuda financeira.

Os Estados Unidos, por exemplo, aprovaram no final de março um pacote “histórico” de estímulos de US$ 2 trilhões para auxiliar trabalhadores, empresas e o sistema de saúde, e os deputados democratas já começam a propor um novo pacote de US$ 500 bilhões para ajudar as pequenas e médias empresas.

Até mesmo nações como a Alemanha, que preza pela austeridade nos gastos públicos, aprovou um pacote trilionário para garantir empréstimos às empresas, investimento público e auxílio aos trabalhadores prejudicados pelo isolamento social.

Inclusive o vacilante governo brasileiro já anunciou medidas bilionárias, que, no entanto, custam a sair do papel para ajudar trabalhadores e empresas prejudicadas. O pacote anunciado a conta gotas poderá gerar um impacto fiscal de R$ 200 bilhões, segundo as contas do economista Alexandre Schwartsman, ou mais de R$ 800 bilhões, de acordo com o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Toda essa movimentação, no entanto, não é suficiente para impedir que a economia mundial desacelere e, com ela, o comércio internacional, atingindo principalmente a Ásia, continente símbolo do período da hiperglobalização que precedeu a crise financeira global e a, agora, aparentemente distante, guerra comercial dos EUA com a China.

Foto: Leo Motta/JC Imagem
Depois que essa crise passar, o Estado vai ter que assumir um papel mais relevante na economia e vai acontecer na política também<aspas>, prevê o economista Jorge Jatobá - Foto: Leo Motta/JC Imagem

Todos esses movimentos recentes causados pela disseminação da Sars-Cov-2 fazem entidades como a Social Market Foundation (SMF), grupo de reflexão independente inglês de centro, a falar num “novo contrato social”. Ou seja, vai chegar a hora em que as empresas e bancos que hoje estão sendo salvos pelo dinheiro público, sejam cobradas por mais ações sociais.

No relatório escrito pelo diretor da SMF, James Kirkup, ele defende que “os contribuintes estão apoiando os negócios durante a crise. As boas empresas retribuem o favor pagando seus impostos e fazendo mais para cuidar de seus funcionários e dos locais onde operam. Um novo contrato social definirá o que devemos esperar dos negócios e permitirá ao mundo ver quais empresas atendem a esses padrões e quais não”, diz.

BRASIL

As grandes empresas brasileiras já se preocupam com esse novo contrato social e pelo menos 1.600 delas já assinaram o manifesto #nãodemita, com os empresários se comprometendo a não demitir funcionários durante dois meses, no intuito de não aumentar o desemprego no País e agravar a conjuntura econômica por causa da pandemia.

Para o economista e sócio da consultoria pernambucana Ceplan, Jorge Jatobá, a crise causada pela pandemia, além de mudar a postura das empresas diante de um “novo contrato social”, vai também repercutir no papel do Estado.

“Depois que essa crise passar, o Estado vai ter que assumir um papel mais relevante. Na crise, em particular, só o Estado central vai ter condições de enfrentar o desafio que a pandemia coloca para a população mundial, pois é quem tem instrumentos fiscais para enfrentar a situação, com sua capacidade de emitir dívidas, moedas e reservas cambiais para poder financiar empresas e pessoas.”

Jatobá lembra que, ao longo dos anos, desde o início do século 20, os Estados nacionais sempre aumentaram seu papel durante e após as crises mundiais, causadas por guerras e outros eventos.

“Houve maior participação depois da primeira e segunda guerras, depois da crise do petróleo e após 2008. Dessa vez não será diferente”, diz. Ele argumenta que os novos desafios só poderão ser enfrentados com Estados mais fortes. O problema, salienta, é que essa maior presença poderá não ficar apenas na economia.

“Vai acontecer na política também. Alguns governantes vão se empoderar mais e já começaram, como é o caso da Hungria. Ninguém sabe se, passada a crise, esse empoderamento será transitório ou vai se tornar permanente. Esse desafio se coloca, sobretudo, em países emergentes”, adverte.

Já o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, é mais cético em relação às possíveis mudanças de como a economia mundial será tocada. “Eu não acho que vai chegar ao ponto de mudar a face do capitalismo. Obviamente vamos passar por um aumento forte de gastos, seja de transferências e no gastos de saúde. Mas nos países onde isso está sendo feito, boa parte será coisa temporária. Então, não vai continuar o mesmo volume de gastos para sustentar uma crise que eventualmente será superada”, comenta.

Sobre o futuro do Brasil no pós-epidemia, ele revela pessimismo, principalmente levando em conta que os gastos do País já eram altos antes mesmo dos pacotes de ajuda anunciados para conter os prejuízos causados pelo vírus.

“A dívida brasileira vai subir muito. É bem razoável que ela salte de 75% para 90% do PIB, do final do ano passado para o final deste ano. Isso aumenta, e muito, o desafio de estabilização da dívida, ainda mais considerando que a gente dificilmente sairá dessa crise com um crescimento muito forte. Então, acho que tudo isso nos coloca numa zona mais perigosa do ponto de vista de estabilização.”

CHINA

Há ainda outras visões menos pessimistas em relação ao futuro da globalização no pós-covid-19, com exemplos que já podemos enxergar hoje.

A colaboração científica e o compartilhamento de informações em busca de uma vacina eficaz contra a doença é sem precedentes no mundo. Para a britânica Chatham House, um dos centros de pesquisa mais prestigiados da Europa, o vírus poderia, de alguma maneira, ter o resultado paradoxal de reunir países e não separá-los.

“Em vez de causar o seu desaparecimento, poderia a crise ajudar a começar um novo período em que a globalização não é tão profunda, mas pelo menos é melhor gerenciada e mais justa?” questiona a entidade na apresentação de uma webinar que acontecerá nesta quarta-feira (15) com a presença de dois de seus especialistas.

“A crise desencadeada pela covid-19 vai fazer com que os países repensem suas estratégias de comércio e desenvolvimento de seus parques industriais ao redor do mundo”, diz o professor da Fundação Dom Cabral e consultor de risco político, Creomar de Souza.

Para o economista Jorge Jatobá, essas mudanças poderão ser, no entanto, prejudiciais para a China e Ásia como um todo. Ele argumenta que existe hoje uma grande concentração na produção de insumos críticos para indústria eletroeletrônica, biotecnológica e farmacêutica em países como a China.

“Isso cria um quase monopólio mundial e, em situações de crise como essa, a situação de dependência fica muito agravada”, comenta. Por isso, diz Jatobá, é provável que o próximo passo dos países ocidentais é caminhar na direção de um movimento de descentralização “em nome da segurança nacional”. Primeiro na produção de insumos importantes para produção de medicamentos.

“É provável que o G-20 coloque o assunto em pauta nas próximas reuniões.” O G-20 é o grupo de ministros de finanças e chefes dos bancos centrais das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia.

Alexandre Schwartsman argumenta que esse movimento já começou.”A gente pode ver uma mudança importante, estamos passando por um momento de recuo da globalização. A gente está vendo uma série de países, a começar pelos EUA, a entrar numa cruzada protecionista e há reações de todos os lados. Acho que esse movimento recente afetou muito as cadeias globais de suprimento e vai acabar levando muita gente a internalizar essas cadeias de suprimento, pelo menos em alguns setores”, diz o economista argumentando que a mudança vai trazer como resultado uma queda de produtividade na economia mundial.

“Teremos um mundo menos integrado do ponto de vista comercial do que nós tínhamos há alguns anos eu acho que o impacto principal disso é uma queda de produtividade. Vamos começar a produzir em locais naturalmente menos produtivos, porque as considerações passam a ser outras.”

E essa mudança na balança comercial do mundo poderia, de alguma forma, ser benéfica para o Brasil? “O Brasil está fora desse jogo”, diz Schwartsman. “Sempre esteve fora das cadeias globais de suprimento. Éramos e continuamos sendo uma economia muito fechada”, completa.

Ele vê o País como uma uma economia de baixa produtividade e pouco integrado ao comércio mundial. “O que mudaria é que alguns que defendem esse status quo, que eu acho lamentável, teriam uma desculpinha a mais para dizer que a gente tem que produzir as nossas máscaras de papel aqui dentro porque não dá para confiar no que vem lá de fora.”

Jatobá, no entanto, encara a mudança como um desafio para o Brasil.

“O País vai ter que se colocar nessa esfera de mudanças e surgirão novos desafios de produzir certo insumos para os quais você ainda não tem vantagem comparativa, mas que poderia ganhar com novas tecnologias. Então, a dependência na produção de insumos e equipamentos na área sanitária é marcante e terá de ser revista.”

A opinião é compartilhada pelo professor Creomar. “A pandemia desperta essa necessidade de mudança para a sociedade e para os tomadores de decisão.”

GABRIELA BILÓ / ESTADÃO CONTEÚDO
O Brasil está fora desse jogo, sempre esteve fora das cadeias globais de suprimento. Continuamos sendo uma economia fechada", lamenta Alexandre Schwartsman - FOTO:GABRIELA BILÓ / ESTADÃO CONTEÚDO
Divulgação
A crise desencadeada pela covid-19 vai fazer com que os países repensem suas estratégias de comércio", afirma o professor Creomar de Souza - FOTO:Divulgação

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