Conjuntura

Isolamento social favorece retomada da atividade econômica

Estudo do Banco Central dos Estados Unidos, mostra que depois da Gripe Espanhola de 1918, cidades que aderiram ao distanciamento social se recuperaram mais rápido da recessão

Adriana Guarda
Adriana Guarda
Publicado em 16/04/2020 às 8:00
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FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
Com a disseminação do novo coronavírus, o governo mandou fechar todo o comércio. - FOTO: FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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Interromper o isolamento social antes da hora poderá resultar em efeito pior para a economia do que a inevitável recessão causada pelo distanciamento. Pernambuco está em plena aceleração da covid-19 e, na direção contrária, as pessoas afrouxaram na recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) de ficar em casa. Nesta quinta-feira (16) o Estado registrou mais 199 casos e 17 mortes, totalizando 1.683 notificações e 160 óbitos. As autoridades de saúde alertam que se o aumento de casos andar mais rápido do que a capacidade de criação de leitos, a saúde poderá entrar em colapso e, provavelmente, o sistema funerário também.

Estudo recente de três pesquisadores do Federal Reserve (FED) - o Banco Central dos Estados Unidos - aponta que a opção por medidas restritivas são mais eficientes para a recuperação econômica. Baseado na Gripe Espanhola de 1918, o trabalho mostra que as cidades norte-americanas que apostaram no isolamento social na época se recuperaram mais rapidamente no pós-crise. Um dos aspectos analisados pelo estudo do FED é a velocidade da retomada do emprego após a pandemia. Uma cidade que realizou quarentena de 50 dias, registrou um aumento de 6,5% nos postos de trabalho no ano seguinte à Gripe Espanhola, em 1919.

>> Pernambuco confirma mais 17 mortes e 199 casos de coronavírus; Estado tem 160 óbitos e 1.683 infectados

O economista e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), André Magalhães, diz que não se trata de defender o isolamento social e esperar que a economia se acabe, mas que também não é possível todo mundo abandonar o isolamento social e sobrecarregar o sistema de saúde. “Se todo mundo sair da quarentena, de uma forma ou de outra a economia vai parar porque as pessoas ficarão doentes. Nos últimos dias o movimento nas ruas tem aumentado. É natural que depois de um mês em casa e com a falta de perspectiva de quando isso vai terminar as pessoas queiram sair, mas do ponto de vista da saúde é preciso evitar mortes desnecessárias. Sabemos alguns vão morrer porque a doença é séria, mas não dá pra sobrecarregar o sistema”, observa.

Do lado econômico, o Fundo Monetário Internacional (FMI) já projetou uma recessão mundial para este ano e uma quebra da expectativa do PIB brasileiro de 2,2% no início do ano para uma queda de 5,3%. Em Pernambuco não cessão as pressões de diversos setores pedindo a retomada das atividades, alegando demissões, assim como fez a construção civil esta semana.

Especialistas defendem que a situação do Brasil no enfrentamento ao novo coronavírus se agrava porque o tratamento do governo tem sido diferente em relação a outros países. Enquanto as grandes nações anunciam investimentos de trilhões de dólares para manter os empregos e a saúde financeira das empresas, por aqui o governo fala em um pacote de apoio a estado e municípios de R$ 127,3 bilhões e apoios às empresas que, em muitos casos, não se concretizaram.

“Este dilema de ter que optar entre o risco de pegar a covid-19 e ficar sem renda por causa do colapso econômico é provocado pela inexistência de ações do governo federal. O governo é o único ente da Federação com capacidade para, ao ampliar seu nível de endividamento, criar liquidez e injetar dinheiro direto para as famílias (com prioridade para as mais desassistidas) poderem ao mesmo tempo continuar a consumir o necessário para sobreviver e, neste consumo, manterem funcionando pelo menos as cadeias produtivo-industriais mais básicas, o que minimizaria um pouco a desaceleração econômica”, afirma Sidartha Soria e Silva, sociólogo econômico e professor da UFPE.

GRIPE ESPANHOLA

Autor de dissertação Recife, uma cidade doente: a Gripe Espanhola no Espaço Urbano recifense, o historiador Alexandre Caetano, diz que um dos pontos de preocupação com pandemia seja há 102 anos ou agora é a desigualdade social, que torna algumas populações mais vulneráveis. “Em 1918 Recife passava por um processo de urbanização e as populações foram sendo empurradas para os Coelhos e outras áreas. As pessoas eram desassistidas na questão social e de moradia. Viviam nos chamados pardieiros e foram atingidas pela doença. Agora se tem o mesmo receio de que o coronavírus chegue e avance na periferia”, compara.

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