IMPACTOS DA COVID-19

Em meio à crise do coronavírus, renda de microempreendedor fica abaixo do salário mínimo

Sete em cada dez microempreendedores estão ganhando até R$ 1 mil, valor menor que o salário mínimo, de R$ 1.045

Marcelo Aprígio
Marcelo Aprígio
Publicado em 29/06/2020 às 17:35
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88% dos profissionais viram sua renda diminuir, em maior ou menor intensidade - FOTO: PIXABAY
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Meses antes do novo coronavírus chegar ao Recife, a microempreendedora Taciana Paranhos, de 46 anos, havia inaugurado um pequeno espaço para vender artesanatos no bairro da Várzea, na Zona Oeste da cidade. No entanto, com os primeiros casos da doença sendo registrados na capital pernambucana, a lojinha, assim como a maior parte dos outros estabelecimentos, precisou ser fechada. “Foi de uma hora para outra que a pandemia chegou aqui”, conta ela, lembrando que precisou se adaptar à nova realidade às pressas, o que trouxe problemas financeiros. “Minha renda caiu muito. Mês passado ficou abaixo de R$ 1 mil”, diz a microempreendedora.

Taciana não é a única nesta situação. Um levantamento realizado pelo banco Neon e pelo fundo de venture capital Flourish, com apoio da empresa de pesquisa de impacto 60 Decibels, revelou que sete em cada dez microempreendedores estão ganhando até R$ 1 mil, valor menor que o salário mínimo, de R$ 1.045. Antes da pandemia do novo coronavírus, a situação era inversa: nove em cada dez profissionais ganhavam acima desse valor e apenas um tinha renda inferior ao salário mínimo.

Ao todo, foram entrevistados 1,6 mil microempreendedores individuais (MEIs) sobre os reflexos da covid-19 no trabalho e nas finanças, durante o mês passado. O resultado mostrou que 88% dos profissionais viram sua renda diminuir, em maior ou menor intensidade. Se antes da quarentena 52% do grupo ganhava mais de R$ 2.177 por mês, agora somente menos de 10% está nessa faixa.

Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), desde sua criação, em 2008, o programa Microempreendedor Individual tem sido responsável por tirar milhões de trabalhadores da informalidade. Ainda de acordo com a entidade, em todo o Brasil, são mais de 10 milhões de MEIs. Dada a importância da categoria para o Produtor Interno Bruto (PIB) nacional, os impactos sentidos por esses trabalhadores pode influenciar negativamente a economia do país de maneira intensa. "Esses profissionais, ao lado das micro e pequenas empresas, representam cerca de 27% do PIB brasileiro", afirma o gerente do Sebrae na Região Metropolitana do Recife, Alexandre Alves.

Mais vulneráveis

Os profissionais que mais viram sua renda derreter em meio à crise foram os motoristas de aplicativos, esteticistas e de comércio de rua, como lanchonetes. Segundo o diretor da área de pessoa jurídica da Neon, Marcelo Moraes, um dos responsáveis pela pesquisa, metade dos entrevistados teve de usar a poupança ou reduzir despesas para se adequar à nova realidade. “Muita gente reduziu gastos com alimento para poder continuar com as contas em dia”, afirma Moraes, lembrando que muitos disseram ter deixado de jantar para fazer apenas um lanche.

Além disso, 39% pegaram dinheiro emprestado para honrar compromissos e 18% penhoraram ou venderam algum ativo durante a pandemia. Para o economista e sócio-diretor da PPK Consultoria, João Rogério Alves Filho, essa parte da população vai sofrer em maior grau que outras com os reflexos da crise do coronavírus. “Os MEIs que pediram empréstimo agora, em busca de sobrevivência, se permanecerem de pé em meio a esta situação, dificilmente conseguirão sair desta crise adimplentes”, declara Alves Filho, segundo quem, as taxas de juros elevadas contribuem para isso.

Este foi o caso de Rodolfo Lima, 36, e dono de uma pequena lanchonete no bairro de Areias, também na Zona Oeste do Recife. Parte dos 70% de MEIs que sustentam sozinhos uma família, ele precisou vender a motocicleta que usava para entregar os pedidos para permanecer com o negócio aberto. “Tive que repassar a moto, senão fechava as portas e ficava sem comida em casa”, lamenta ele, afirmando que agora limitou as entregas ao bairro que mora e as faz de bicicleta, com ajuda do filho.

Marcelo Moraes afirma que a pesquisa mostra que o reflexo disso é a realidade de 65% dos entrevistados que não podem continuar pagando suas despesas por mais de um mês, caso perca sua principal fonte de renda. “Os MEIs são a categoria mais vulnerável, que não têm reserva para enfrentar a falta de renda por muito tempo”, diz ele.

Na avaliação do diretor da Neon, as grandes e até médias empresas têm mais condições de caixa e acesso a crédito para atravessar esse período conturbado. Mas os MEIs não têm essa saída. “Geralmente, esse grupo está pegando o faturamento de agora para pagar as dívidas de ontem, e assim eles seguem, o que acaba dificultando acesso a crédito, por exemplo”, pontua Moraes.

Neste momento, é para esse pessoal que o governo precisa estender ainda mais a mão, dado o tamanho da representatividade que têm força de trabalho do País, defende o economista João Rogério. “O auxílio emergencial é um programa fantástico, mas, ao lado de outros programas, precisa se mostrar mais eficiente”, declara o especialista.

A opinião dele também é defendida pela maior parte dos entrevistados na pesquisa da Neon e da Flourish. A maioria (84%) ainda não teve acesso ao auxílio emergencial, nem se sente amparada pelo governo. Marcelo Moraes afirma que um dos dados mais impressionantes do levantamento é o índice de desesperança dos profissionais. "O sentimento de desamparo é grande, 42% deles não têm esperança de sair da crise", diz o executivo.

O auxílio emergencial é um programa fantástico, mas, ao lado de outros programas, precisa se mostrar mais eficiente
João Rogério Alves Filho, economista e sócio-diretor da PPK Consultoria

Para ajudar essa categoria, o Sebrae tem dialogado com os governos e o Congresso para a criação de novas linhas de crédito voltadas aos pequenos negócios. Além disso, a entidade aumentou o fundo de garantias para esse grupo, na tentativa de facilitar o acesso desses profissionais ao crédito. “Com o Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (Fampe) o Sebrae pode ser avalista complementar de financiamentos para pequenos negócios”, explica Alexandre Alves, afirmando que, além disso, a entidade tem prestado consultorias a micro e pequenos empreendedores.

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"Minha renda caiu muito. Mês passado ficou abaixo de R$ 1 mil", diz a microempreendedora Taciana Paranhos - FOTO:ACERVO PESSOAL
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Para o economista e sócio-diretor da PPK Consultoria, João Rogério Alves Filho, os MEIs vão sofrer intensamente com os reflexos da crise do coronavírus - FOTO:CARIUS PONTES/DIVULGAÇÃO

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