Consciência negra

Mulheres negras continuam em desvantagem no mercado de trabalho. Uma das saídas é empreender

Comemoração do Dia da Consciência Negra nesta sexta (20) é motivo para lembrar a necessidade de mudar a posição das profissionais negras no mundo do trabalho

Adriana Guarda
Adriana Guarda
Publicado em 20/11/2020 às 10:36
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FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
NEGÓCIO Vanessa e Iaynã criaram a marca de moda africana Ya - FOTO: FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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Ser mulher negra no Brasil é enfrentar uma vida de combates. Em um País desigual, os abismos aumentam de acordo com a cor da pele, o gênero e a classe social. No mercado de trabalho, as profissionais negras permanecem - historicamente - em condição de desvantagem. Ocupam poucos cargos de liderança, representam o grupo com maior taxa de desemprego e ganham menos. Nos últimos anos, as discussões sobre igualdade racial avançaram no País, mas a redução da desigualdade no mundo do trabalho ainda é lenta. A celebração do mês da Consciência Negra renova o desafio de continuar transformando essa realidade.

A necessidade de mudança se evidencia nas estatísticas e na vida real. O Dieese acabou de analisar o quanto a pandemia da covid-19 tem sido mais severa com as mulheres negras. O Box 1824 & Indique uma Preta também fizeram um levantamento mostrando a posição delas no mercado de trabalho. O trabalho avança na análise, apontando não só a desigualdade mas também as potências dessas mulheres. Do lado das empresas, surgiram movimentos de inclusão racial, enquanto as próprias comunidades negras se fortalecem por meio do empreendedorismo e de outras alternativas. Apesar dos esforços, o caminho ainda é longo.

>> Confira web stories sobre mulheres negras que combatem a desigualdade racial no Brasil

"Não aconteceram grandes mudanças no mercado de trabalho nos últimos anos. O que se vê é uma grande desigualdade, com taxa de desemprego maior e rendimento menor entre os negros. Quando se fala da mulher negra, a coisa fica ainda mais difícil. Para alcançar uma mudança efetiva é preciso ter uma formação igualitária desde a infância, com melhor condição social, educação e mudança cultural", defende a gerente de planejamento e gestão do IBGE em Pernambuco, Fernanda Estelita.

A pesquisa do Box 1824 & Indique uma Preta defende a necessidade de romper com a naturalização da mulher negra nesse lugar de vulnerabilidade para perceber suas potencialidades. O trabalho aponta três níveis de potência para uma virada da condição das mulheres pretas no mercado de trabalho: reputação, performance e inovação. Na prática, a pressão social fez com que a diversidade racial deixasse de ser um diferencial para agregar valor a uma marca (reputação). Em um cenário competitivo, é valioso atrair perfis criativos, empreendedores e de fácil adaptação a mudanças (performance). Para antecipar o futuro e ter sucesso, o diferencial está na pluralidade de perspectivas dos colaboradores (inovação). Dessa força, a contratação de pessoas negras ganha força.

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Presença da mulher negra no mercado de trabalho e no empreendedorismo. - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM

LIDERANÇA

No Brasil, as mulheres negras ocupam apenas 6,6% dos cargos de liderança nas empresas. Filha de pai marceneiro e mãe dona de casa, Lucemila Santos, 40 anos, foi a primeira pessoa da sua família a frequentar uma universidade pública. Formada em química pela UFPE ela chegou a trabalhar em várias multinacionais, mas nunca alcançou uma posição de chefia. "A sensação é de que quanto maior a empresa, mais difícil chegar à gestão. Para as mulheres negras é ainda pior, porque além do racismo também enfrentamos o machismo. Acredito que as empresas precisam discutir mais esse tema, porque a inclusão depende da gestão, de como se aborda esse tipo de assunto", sugere.

Há 2 anos, Lucemila é supervisora de qualidade do Grupo Dislub Equador, nas unidades de Paulista (PE) e Porto Velho (RO). Ela é responsável por toda a produção de fluidos usados na redução de gases poluentes em veículos da fábrica da Arla, do Grupo Dislub. "A Dislub é empresa séria, que tem um comportamento inclusivo e diferente do padrão do mercado de trabalho", compara.

Se o mercado ainda não franqueou as cadeiras de líderes aos negros, muitos vão virando donos dos seus próprios negócios, como fizeram as amigas Iaynã Santiago, 31 anos, e Vanessa da Silva, 30. Elas criaram a marca de moda africana Ya, que em dialeto angolano quer dizer Sim! (nós acreditamos, podemos, conseguimos). O negócio começou em 2018, com vendas pelo Instagram (@yamoda_afro) e WhatsApp.

 

"Hoje minha principal renda é como terapeuta ocupacional, até porque a Ya tem um propósito de transformar vidas, não apenas comercial. Começamos fazendo roupa para ajudar uma amiga angolana e depois a história cresceu. Os ateliês são nas nossa casas e trabalhamos com costureiras da comunidade. Os tecidos são trazidos da Angola, mas com o dólar alto estamos com projeto para 2021 de fazer nossas próprias estampas. Vanessa tem formação de design e queremos fazer cursos de estamparia com as mulheres da comunidade", diz Iaynã, que mora em Jardim Brasil, em Olinda.

A assistente social Silvana Nascimento, 40, descobriu na própria negritude um motivo para empreender. "Eu não gostava do meu cabelo. Desde criança ouvia que era feio, de bombril e comecei usar química capilar aos 6 anos. Eu não me entendia como mulher negra e os marcadores de preconceito da sociedade não tinham nome de racismo pra mim. Quando entrei na universidade tive professores que me trouxeram o tema e não parei mais de ler, estudar e me reconhecer como negra", conta.

Silvana começou a pesquisar um negócio que se parecesse com ela e descobriu o benefício das toucas e das fronhas de cetim para o cabelo, que garante mais tempo de hidratação, reduz frizz, diminui a quebra e outros. Começou a costurar, as amigas gostaram e o insight acabou se transformando, há 3 anos, na Retalhos dos Sonhos, que tem comercialização pelo Instagram (@retalhosdossonhos), WhatsApp e Facebook.

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Eu não me entendia como mulher negra e os marcadores de preconceito da sociedade não tinham nome de racismo pra mim", afirma Silvana Nascimento - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM

"Eu tive que me reorganizar nesse lugar de empreendedora, porque eu nunca tinha vendido nada, e entendi a importância de a gente se fortalecer dentro dos coletivos", afirma, dizendo que participa da Rede de Afroempreendedores de Pernambuco (Reape). Criada em 2018 a Rede já realizou mais de 30 eventos e tem 30 associados, a maioria mulheres.

 

Todos os anos, a Raepe realiza a Feira Umba do Pretos Negócios, que acontece no Alto Sé, em Olinda, no pátio externo do Palácio de Yemanjá, das 10 às 21 horas. A feira começou na sexta-feira (20) e segue até este domingo (22). O evento conta com feira de produtos afro, desfiles, apresentações musicais e oficinas. Flávio Valdez, do Sebrae, conta que este ano além do mês da Consciência Negra, a feira também celebra os 2 anos da Reape, criada a partir do Grupo de Estudos de Pesquisa e Autobiografia, Racismo e Antirracismo do Centro de Educação da UFPE e do apoio do Sebrae.

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Presença da mulher negra no mercado de trabalho e no empreendedorismo. - FOTO:FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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Eu não me entendia como mulher negra e os marcadores de preconceito da sociedade não tinham nome de racismo pra mim", afirma Silvana Nascimento - FOTO:FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM

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