INOVAÇÃO

Compesa vai usar a energia armazenada em um sistema de baterias no horário em que a energia é mais cara

Para as empresas, a energia é mais cara entre às 17h30m e 20h30m. Neste período, a Compesa vai usar a energia armazenada num sistema de armenamento da Baterias Moura fabricado em Belo Jardim, no Agreste de Pernambuco

Angela Fernanda Belfort
Angela Fernanda Belfort
Publicado em 28/10/2021 às 12:44
MARCELLO CASAL JR/AGÊNCIA BRASIL
CRISE Instabilidade política é uma das causas que levam à vulnerabilidade no País e a diminuição das relações de confiança, o que agrava a situação do câmbio - FOTO: MARCELLO CASAL JR/AGÊNCIA BRASIL
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Nestes tempos em que a energia só faz subir de preço, a empresa Baterias Moura vai fornecer a Compesa um Sistema de armazenamento de energia em baterias, que se chama BESS na sigla em inglês, e vai permitir que a estatal não precise mais usar a energia que é transportada pela rede da Neoenergia Pernambuco (antiga Celpe) no horário em que a mesma é mais cara, o que ocorre entre às 17h30m e 20h30m. Com este sistema, a empresa vai "estocar" energia e usá-la na hora que for mais conveniente. Este tipo de solução pode significar uma nova era para as empresas que produzem energia solar e ou eólica porque, como o nome diz, a primeira só pode produzir a partir da radiação do sol - durante o dia - e a segunda também produz muito durante a madrugada, quando o consumo é menor.

 >> O armazenamento é o grande desafio do setor elétrico

A energia é mais cara para as empresas entre as 17h30m e às 20h30m, porque este é o horário de maior consumo no Brasil. Isso não ocorre para o consumidor residencial. A alta do preço é uma forma de desestimular as empresas a consumirem menos neste intervalo de tempo. "Este sistema já é uma realidade. A capacidade de armazenar pode ser a que for, porque as baterias são módulos que são montados em paralelo até chegar a potência que precisa", explica o diretor-geral comercial de Baterias Industriais, RSM e Bess da Baterias Moura, Luiz Mello. Neste caso, a potência significa, de modo grosseiro, a quantidade de energia que pode ser armazenada.

 

"Os grandes sistemas de abastecimento de água não foram feitos para pararem com a água no meio, como ocorre em caso de falta de energia. Quando isso ocorre, a água volta arrebentando tudo, mesmo os tubos mais fortes, porque as bombas da Compesa bombeiam grandes volumes de água", resume Luiz Mello. A Moura alugou o sistema de baterias por um período de cinco anos, que pode ser renovado por mais cinco anos. A contratação foi feita por licitação.

Segundo o diretor de Negócios e Eficiência da Compesa, Flávio Coutinho, a ideia da empresa não foi só economizar dinheiro, mas trazer confiabilidade para continuar produzindo água neste horário para a população de Caruaru. "Às vezes, quando falta energia por uma hora isso acarreta em um dia inteiro sem a Compesa conseguir fornecer água para aqueles municípios. Em algumas cidades do interior, não conseguimos abastecer de forma contínua por causa da falta de energia", comenta Flávio, sem revelar o quanto a Compesa vai economizar por passar a comprar uma energia mais barata que será armazenada nas baterias.

A conta de energia da Compesa será superior a R$ 311 milhões em 2021. A Compesa está planejando investir R$ 570 milhões, nos próximos anos, em soluções que reduzam os custos da compra de energia, o que inclui até um a implantação de um sistema de geração de energia solar via Parceria Público- Privada e o edital para escolher a empresa parceira desta iniciativa deve ser lançado pela estatal no próximo novembro. 

O sistema de armazenamento de baterias será alugado pela Compesa a Baterias Moura, que, além de fabricar, vai fazer a manutenção do sistema e até a reciclagem das baterias. A estatal vai pagar R$ 6 milhões pelo aluguel nos primeiros cinco cinco anos contratados. Este período pode ser renovado por mais cinco anos. "A expectativa é que esse sistema seja pago com a economia que vamos fazer com a conta de energia", conta Flávio, sem revelar qual o valor que a Compesa espera economizar com a substituição da energia. O contrato entre a Moura e a Compesa foi assinado há um mês e a intenção da fabricante é de que o sistema esteja instalado e em funcionamento num prazo de seis meses

O BESS será instalado na estação de tratamento de água de Caruaru e vai ficar recebendo a energia distribuída pela Celpe durante todo o dia para 'alimentar' as baterias. "A partir das 17h30m, passaremos a usar na ETA de Caruaru apenas a energia da bateria, indo até às 20h30m. Caso falte energia, será ligado automaticamente o sistema das baterias, que pode fazer a ETA Caruaru funcionar por três horas", comenta Flávio. A ETA Caruaru é responsável pelo abastecimento de água de mais de 300 mil pessoas.

DESPACHÁVEL

A Baterias Moura vem pesquisando baterias que possam armazenar grandes quantidades de energia há cerca de dez anos. Este é um grande desafio, pois várias empresas estão fazendo o mesmo em vários locais do mundo, que pretende trocar os combustíveis fósseis pelas energias limpas. "As energias solar e eólica têm um problema gravíssimo. Elas não são consideradas despacháveis, que é aquela energia que pode ser gerada, quando se precisa. Por exemplo, tem muita eólica gerando mais energia de madrugada e geradoras de energia solar com uma produção maior às 10 horas da manhã. O armazenamento em baterias vai chegar para resolver esse problema, transformando esta energia em energia valiosa, que é a despachável", resume Luiz Mello.

No sistema elétrico brasileiro, as empresas começam a produzir energia, quando o Operador Nacional do Sistema (ONS) dá a ordem, que é o despacho dizendo quanto a geradora vai produzir e quando. É considerada despachável as que podem começar a produzir de imediato e sem interrupção, como por exemplo, as térmicas.  Isso não ocorre com a eólica e solar porque a matéria-prima delas é, respectivamente, o vento e a radiação solar, que dependem da natureza.

Há uns três anos, os custos dessas baterias para armazenar energia -em grandes quantidades - era muito alto. "Fizemos ajustes nos processos produtivos e os preços destes sistemas de baterias passaram por uma redução entre 43% e 45%, fruto dos investimentos que fizemos em pesquisas e novas tecnologias", revela Luiz Mello. A Moura tem o Instituto Tecnológico Edson Mororó Moura (ITEMM), um centro de pesquisa, desenvolvimento e inovação em Belo Jardim, no Agreste de Pernambuco.

"O BESS tem que passar por uma equação tributária como tudo no Brasil. O ideal seria o BESS ter uma isonomia (tributária) similar aos painéis fotovoltaicos e às torres de geração fotovoltaica. Isso é uma solução para o Brasil. A nova arquitetura do sistema elétrico brasileiro passará pelo BESS", comenta Luiz. Ele afirma também que as baterias que serão cedidas em forma de comodato para a Compesa podem durar de 15 a 20 anos, dependendo do uso.

Líder na produção de baterias automotivas na América Latina, a empresa tem sete fábricas, sendo em Belo Jardim - no Agreste pernambucano - , uma em Itapetininga, em São Paulo, e uma na Argentina, empregando 6 mil funcionários. A empresa surgiu da ideia do seu fundador, o empresário Edson Mororó Moura, de começar a fabricar baterias no Agreste de Pernambuco. A companhia tem a capacidade de produzir 10 milhões de unidades por ano.

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