NEGÓCIOS

De pequeno agricultor a grande executivo. Conheça empresário cearense que colocou o Nordeste como protagonista do 5G

Trajetória do empresário é marcada pela busca do conhecimento, ousadia, vontade de superar dificuldades e profundo apego às origens

Edilson Vieira
Edilson Vieira
Publicado em 01/12/2021 às 8:00
DIVULGAÇÃO
EMPREENDEDOR Trajetória do empresário José Roberto Nogueira é marcada pela busca do conhecimento, ousadia, vontade de superar dificuldades e profundo apego às origens - FOTO: DIVULGAÇÃO
Leitura:

A trajetória da Brisanet, empresa cearense de tecnologia da comunicação que venceu o recente leilão para operar a tecnologia 5G no Nordeste, se confunde com a do seu criador, o ex-agricultor José Roberto Nogueira, de 56 anos.

O menino que trabalhava na roça desde os cinco anos de idade, aprendeu a ler aos 10 anos, entrou na escola aos 11 e conheceu a energia elétrica aos 16, era o mais novo de uma família com 11 filhos. Ele não esquece o dia em que viu um rádio pela primeira vez. "Eu não me contentava em apenas escutar o rádio, eu queria saber como aquilo funcionava, o que cada componente dele fazia".

Veio daí a centelha da curiosidade que, transformada em conhecimento, lhe deu o primeiro e único diploma. Se tornou técnico em rádio e TV formado pelo Instituto Universal Brasileiro, lendária escola técnica de ensino por correspondência, com sede em São Paulo, a percursora do hoje chamado ensino à distância.

Rapaz feito, Nogueira foi para São Paulo, no final dos anos 80, com o intuito de se desenvolver na eletrônica, já que na pequena Pereiro, cidade do semi-árido cearense, a 340 km da capital Fortaleza, as perspectivas eram poucas. No primeiro ano na cidade grande, José Roberto vendeu roupas de porta em porta para sobreviver, no ano seguinte já trabalhava numa oficina de eletrônica, no terceiro ano entrou para a prestigiada Embraer, fabricante de aeronaves em São José dos Campos. Poderia seguir a carreira na empresa, mas a ideia de voltar para o seu Sertão era mais forte. "Quando um nordestino vai para o Sul ainda criança, ele dificilmente retorna. Mas quando ele sai da terra dele já adulto, como foi o meu caso, aos 21 anos, aí ele só pensa em voltar", resume José Roberto.

EMPREENDENDO

Dai até se tornar fundador e CEO da maior provedora independente de internet do País, foi toda uma história de busca pelo conhecimento, perseverança, inquietação, vontade de superar as dificuldades e ousadia. Ou seja, tudo o que ele aprendeu na infância. Nogueira retornou para tomar conta em Pereiros de uma escola de informática que ele havia fundado quando ainda estava em São Paulo. "Num raio de 300 km não havia nenhum computador e nem pessoas que usavam informática", diverte-se ele relembrando essa passagem. Mas a estratégia estava aí. Despertar o interesse da população para abrir o mercado de venda de computadores. 

Ao mesmo tempo, começou a vender antenas parabólicas que ele mesmo construía no quintal de casa, e quando a internet chegou ao Brasil, por volta de 1996, viu que o futuro dele, da empresa e da cidade estava ali. Na época da internet discada, e com poucas linhas telefônicas na região, ele desenvolveu um sistema de internet sem fio bastante rudimentar, onde o sinal era enviado de um computador para outro à 30 metros de distância. Usando as próprias antenas parabólicas que fabricava, começou a mandar o sinal até 90 km de distância. "Foi a primeira internet via rádio para áreas rurais do Brasil", orgulha-se lembrando como a tecnologia nordestina deu muito certo. 

"Sempre tive a visão de que poderia crescer como empresa apostando num mercado que era ignorado pelas grandes. Oferecer internet para as pequenas cidades, e até distritos e vilas se tornou meu modelo de negócio até hoje". Não foi fácil convencer possíveis parceiros de que o negócio era viável, mas não demorou se  tornar referência neste tipo de serviço. Em 2010 iniciou o projeto de fibra ótica, outra ousadia para um pequeno provedor. "A ideia foi substitui toda nossa operação via rádio por fibra ótica, fomos os primeiros a fazer isso, o que garantiu um grande faturamento para a empresa". Os bons resultados permitiram o acesso aos primeiros empréstimos, via BNDES e bancos privados. A partir daí a empresa começou a vivenciar um crescimento de 60% ao ano. 

VALORIZAÇÃO

Os primeiros funcionários que participaram da fundação da Brisanet em 1998 ainda estão na empresa. A sede, com 2.300 funcionários, está a 13 km do centro da cidade de Pereiros, na zona rural, bem próximo da roça onde José Roberto, no início da vida, capinava com uma enxada. Manter-se no seu local de origem sempre foi um propósito e um desafio para o empresário. "Em 1995 eu peguei os melhores alunos do Segundo Grau da  zona rural e mandei para São Paulo para que se formassem em técnico de computador. Foi o começo do nosso programa de formar a mão de obra local. Hoje, toda nossa área técnica é formada de pessoas que moram num raio de 15km da empresa. São daqui mesmo, lapidados aqui", pontua o empresário. 

Em julho deste ano a Brisanet fez seu IPO (lançamento inicial de ações na Bolsa de valores), levantando R$ 1,43 bilhão. Proeza só comparável ao valor pago pela própria Brisanet pelo lote C-4, da faixa de 3,5 GHz, que abrange a Região Nordeste, no leilão das frequências de operação da tecnologia 5G promovido pelo Ministério das Comunicações. O ágio de 13.741% pago pelos cearenses em relação ao valor inicial mostra bem a vontade de disputar lugar no mercado com as grandes operadoras (Vivo, Claro e TIM).

"Sem auxílio externo, sem a participação de fundos de investimentos, com 10 mil dólares, uma empresa do semi-árido nordestino ser listada na Bolsa, foi um feito muito grande", diz Nogueira, sem modéstia. Resistir ao assédio dos fundos de investimentos que, desde 2015 tentam comprar uma parte da Brisanet também faz parte das vitórias do empresário. "Temos um foco de desenvolver uma região e meu medo é que esse propósito se perdesse com a entrada de um investidor externo". O segredo, diz ele, é não cometer erros e ter uma governança em um nível muito elevado. "Uma forma de forçar a governança a um nível de eficiência e transparência num padrão internacional foi justamente entrar na Bolsa. Nós entendemos que essa é uma forma de perpetuar a empresa", assegura José Roberto.

Divulgação
Foco da empresa fundada por José Roberto Nogueira é principalmente levar conectividade às zonas rurais e pequenas cidades - Divulgação

PLANOS

O olhar para o futuro continua agora com o 5G. "Participamos das primeiras reuniões da Anatel em 2018. Vimos que o que estava sendo discutido ali era o futuro das empresas de telecom para os próximos 20, 40 anos". A Brisanet enxergou que não poderia ficar fora do 5G. "O mais relevante era a faixa de frequência oferecida, e frequência é físico, não dá para criar. A frequência de 2GHz a 4GHz é a mais nobre porque possibilita entregar uma alta capacidade de dados com boa penetração nos dispositivos móveis. No futuro a demanda por mobilidade será gigante, ninguém vai querer mais estar conectado por um fio", preconiza Nogueira. 

José Roberto Nogueira não se cansa de repetir que a empresa fundada por ele é a "única no mundo que tem foco em atender capitais, cidades grandes, médias, pequenas, distrito e áreas rurais". Ele conta que quando o leilão foi anunciado com o compromisso de, quem ficasse com o bloco Nordeste, cobrir com 5G 1.423 cidades abaixo de 30 mil habitantes, e mais 1.148 localidades rurais no ano de 2030, o que poderia ser um problema era, na verdade, uma facilidade.

"Todas essas localidades já estavam mapeadas no nosso modelo de negócios para serem atendidas até 2025/2026. Vamos cumprir a meta como negócio, não como obrigação", diz José Roberto. Como leilão do 5G foi do tipo não arrecadatório, a maior parte dos valores pagos pelas empresas de telecom serão reinvestidos pelo governo em estrutura de telecomunicações "Aquele R$ 1,25 bilhão pago  pelo bloco, na verdade , nós colocamos R$ 13 milhões para o Tesouro [Nacional], R$ 1,23 bilhão é para comprar equipamento para colocar nessas localidades, só que já estava no nosso planos de negócios, então não colocamos dinheiro na mesa a mais", explicou o CEO da Brisanet. 

DATAS

Pelo cronograma da Anatel, a internet 5G vai chegar às capitais brasileiras no segundo semestre do ano que vem. Já nas cidades menores, o prazo é entre 2023 e 2026. "Em 2022 o 5G será praticamente um projeto piloto, não é investimento pesado. Os investimentos maiores começam de 2023 em diante, atingem o pico em 2024 e diminuem em 2025. "Na transição de 2022 e 2023 é que iremos buscar mais recursos. Até lá iremos crescer a receita para buscarmos dívida[financiamento] mais à frente de maneira mais confortável", diz José Roberto se referindo a estratégia financeira.

No final de 2022 a Brisanet terá concluída a colocação da estrutura de fibra ótica (necessária para implantação do 5G)  em todas as capitais do Nordeste e mais as cidades da região acima de 50 mil habitantes. Para as cidade menores, a empresa vai utilizar sua rede de franqueados, formada por pequenos provedores que irão dar capilaridade às operações da empresa. Esses franqueados irão usar a estrutura da Brisanet mas funcionarão como operadores locais de 5G a partir do segundo semestre de 2023. No final das contas, TIM, Claro, Vivo e Brisanet irão operar o 5G no Nordeste e Centro-Oeste, mas com a empresa cearense sendo o principal provedor nas pequenas e médias cidades do interior.  

MISSÃO

Sempre perguntam ao empresário José Roberto Nogueira se a Brisanet irá mudar sua sede para uma cidade maior, Fortaleza no caso. Ele responde com uma analogia. "A Brisanet nasceu aqui. Foi com as pessoas daqui que colocamos uma empresa de tecnologia em pleno semi-árido nordestino listada na Bolsa de Valores, isso é algo impactante. Aqui é o nosso mundo, não temos que sair daqui para continuar crescendo", diz o empresário.

Reforçando que levar o 5G para as zona rurais é promover o desenvolvimento de toda a região, com melhores serviços, educação e oportunidades de empreendedorismo para a população, o empresário volta a relembrar a primeira vez que ouviu um aparelho de rádio na sala de casa.

"Quando o rádio surgiu, em 1920, 1930, o Brasil perdeu uma grande oportunidade de integração. Já naquela época era para ter um rádio em cada casa. Talvez, se eu vivesse naquele tempo, eu teria feito isto. Teria levado o rádio para cada lar brasileiro", conclui.

 

 

 

Comentários

Últimas notícias