ISOLAMENTO

A vida simples em um povoado isolado no deserto do Iraque

Cerca de 200 famílias vivem em Al Sahl, um povoado em grande parte isolado do restante do mundo

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Publicado em 26/10/2021 às 0:15
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Vista da vila iraquiana de Al-Sahl em Wadi Houran, na província central de Anbar - FOTO: Ahmad AL-RUBAYE / AFP
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No vasto deserto do oeste iraquiano, cerca de 200 famílias vivem em Al Sahl, um povoado em grande parte isolado do restante do mundo, cujo único vizinho é uma das maiores bases militares do país.

"Levamos uma vida simples, primitiva", comentou Abu Majid, um dos anciãos de Al Sahl, vilarejo onde se vive da pecuária e da agricultura.

"Nosso povoado tem mais de 100 anos e ainda não tem eletricidade, nem centro médico", disse este senhor de mais de 70 anos, de túnica e kuffiya vermelha e branca.

Perdida entre as colinas rochosas e cercada de cultivos de palmeiras, Al Sahl fica a 250 km ao noroeste de Bagdá.

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Um fazendeiro iraquiano lava sua pá em um tanque de água em um campo agrícola na vila de Al-Sahl em Wadi Houran, na província central de Anbar - Ahmad AL-RUBAYE / AFP
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Um menino iraquiano escolhe tâmaras na fazenda de sua família na aldeia Al-Sahl em Wadi Houran, no governo central de Anbar. - Ahmad AL-RUBAYE / AFP
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Vista da vila iraquiana de Al-Sahl em Wadi Houran, na província central de Anbar - Ahmad AL-RUBAYE / AFP

O hospital mais próximo está a mais de meia hora de carro por um caminho irregular. A única instituição educacional é uma escola de ensino básico.

Para se comunicar com o mundo exterior, as pessoas usam celulares velhos em vez de smartphones. A rede 3G não alcança o local.

O Iraque é o segundo maior produtor de petróleo da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), mas foi devastado por décadas de guerra e corrupção, enquanto sua infraestrutura é deficiente e os serviços públicos estão arruinados.

Um terço dos 40 milhões de iraquianos vive na pobreza, segundo a ONU, uma situação agravada pela pandemia de coronavírus e a queda nos preços do petróleo.

Pecuária ou agricultura

Em Al Sahl, casas pequenas com portas de aço e quase sem janelas são enquadradas por becos desertos, onde às vezes passa um carro velho ou aparece algum animal em uma cerca de arame.

Com ajuda de uma bomba, os habitantes retiram água salgada sai dos poços. Sem filtrar, usam para beber, lavar e para dar aos seus animais, enquanto as plantações são irrigadas com a chuva.

O povoado mantém uma cultura insular e tradições conservadoras.

Abu Majid disse que foi a Bagdá apenas uma vez, há 20 anos. Sua esposa, Umm Majid, fala com os visitantes masculinos atrás de uma porta. Insiste em protestar pela falta de serviços médicos e de eletricidade.

Apesar dos apagões frequentes que perturbam os iraquianos em outras partes do país, a degradada rede de energia elétrica nacional é um luxo inalcançável para Al Sahl.

Seus habitantes usam geradores antigos para terem algumas horas diárias de eletricidade.

"Nossas crianças têm direito a uma ou duas horas de televisão de vez em quando", comentou Umm Majid.

O povoado está a 10 km da base aérea de Ain al Asad, uma das maiores do país. A base é usada por tropas americanas e geralmente é alvo de ataques.

O povoado não tem nenhuma ligação com a base, mas sua proximidade traz desafios.

"Uma vez mataram duas de minhas ovelhas que pastavam perto de onde eles realizavam exercícios com disparos", contou Mehdi, um pastor.

"Mas aqui é pecuária ou agricultura, não tem outra coisa para ganhar a vida", comentou o homem de cerca de 20 anos.

Sem vacinas

"Só temos uma escola básica", contou Mohamed Mehdi, de 17 anos, com roupas pesadas, apesar do calor de 40 graus.

Para ajudar seus pais na fazenda, deixou de estudar ao concluir a escola básica, onde seis salas de aula não dão conta das crianças da comunidade.

Qatri Kahlane al Obeidi, funcionário municipal da cidade mais próxima, Al Baghdadi, reconheceu a falta de serviços públicos no povoado.

Fez algumas promessas vagas para impulsionar projetos para conectar Al Sahl à rede elétrica e a uma fábrica de purificação de água, enquanto pediu a grupos de ajuda e organizações internacionais para ajudarem a construir um centro de saúde.

Abu Majid lembrou que em agosto um morador doente morreu a caminho do hospital mais próximo.

"Não é fácil levá-los (para receber atendimento médico), principalmente à noite", declarou Abu Majid. "Se alguém adoece, morre".

Mulheres grávidas da localidade devem ser levadas para a cidade vários dias antes de darem à luz.

No entanto, até a pandemia parece não ter chegado a Al Sahl.

"O coronavírus não chegou ao nosso povoado, ninguém está vacinado", afirmou Abu Majid.

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