Referendo

Mexicanos votam sobre continuidade do mandato do presidente López Obrador

Analistas consideram difícil que o referendo alcance o limite de participação para ser vinculante: 37 milhões de eleitores (40%)

Mirella Araújo
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Mirella Araújo
Publicado em 10/04/2022 às 15:10
Foto: PEDRO PARDO / AFP
"Que ninguém se esqueça de que o povo é quem manda, o povo dá e o povo tira", disse López Obrador - FOTO: Foto: PEDRO PARDO / AFP
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Da AFP

O futuro do presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, será decidido neste domingo (10). Os mexicanos participam do primeiro referendo da história do país, para definirem se López continua na presidência ou concluirá o seu mandato em 2024. Segundo as informações da AFP, esse movimento conta com a previsão de um apoio ao mandatário esquerdista. 

"Que ninguém se esqueça de que o povo é quem manda, o povo dá e o povo tira", disse López Obrador à imprensa antes de votar perto do palácio presidencial. AMLO, como é conhecido pelas iniciais de seu nome, anulou seu voto, escrevendo "Viva Zapata!" para se mostrar imparcial nesta consulta, que conseguiu que fosse incluída na Constituição em 2019, como um antídoto contra "maus governos".

"Vai nos ajudar a que ninguém em nenhum nível da escala se sinta absoluto", acrescentou neste domingo o presidente, eleito para um mandato de seis anos. As urnas abriram às 08h locais (10h de Brasília) e vão fechar às 18h locais (20h de Brasília) na maior parte do país de 126 milhões de habitantes e onde vigoram três fusos horários.

Dezenas de pessoas faziam fila nas seções antes da abertura, constatou a AFP, embora analistas considerem difícil que o referendo alcance o limite de participação para ser vinculante: 37 milhões de eleitores (40% dos habilitados a votar).

Este fato por si só ratificaria no cargo o primeiro presidente de esquerda do país, de 68 anos, e com aprovação de 58%, segundo um consolidado de pesquisas do instituto Oraculus. No México o voto não é obrigatório. "AMLO, você não está só!", diziam alguns dos poucos cartazes exibidos na Cidade do México, onde assim como em outras partes do país não há clima de campanha.

"Termine e vá embora!" e "Urnas vazias!", respondiam nas redes sociais políticos da oposição e usuários que pediam a abstenção, alegando que a consulta é apenas um ato de "propaganda".

Benigno Gasca, matemático e músico de 57 anos, considera que o referendo é uma "oportunidade para mudar o que não vai bem". "Tem havido presidentes que após serem eleitos pelo povo acabaram servindo a outros interesses", disse à AFP.

Mas Laura González, professora aposentada de 62 anos, avalia que "é um exercício inútil, dinheiro jogado no lixo". "Se quem organizou a consulta foi gente dele, que eles vão", declarou à AFP.

A consultoria em assuntos eleitorais Integralia estima uma participação média de 14,8% dos eleitores. "Prevê-se uma maioria contundente a favor de que López Obrador continue no cargo", destacou em um relatório.

AMLO acusa o Instituto Nacional Eleitoral (INE) de sabotar o referendo, em cumplicidade com "os conservadores" (como chama a oposição", razão pela qual anunciou uma reforma para que seus membros e os do tribunal eleitoral sejam eleitos por votação popular e não pela Câmara dos Deputados.

"É categoricamente falso que o INE não tenha cumprido com seu dever de difundir" o referendo, assegurou neste domingo o presidente do organismo, Lorenzo Córdova, que denunciou o "potencial uso de recursos público" por parte da situação para promover a consulta.

O INE instalou 57.500 postos de votação contra os 161.000 de uma eleição federal. Sem maior risco de abandonar o poder, o presidente poderia aproveitar a consulta para ventilar alguns projetos e "fazer andar a máquina" do partido governista Morena rumo às presidenciais de 2024, avalia a analista política Martha Anaya.

"Será um parâmetro para avaliar a capacidade de mobilização" governista, aposta o Integralia. No país não há reeleição presidencial, nem ampliação do mandato, e de qualquer forma AMLO tem dito que vai se afastar da política em 2024.

Nos quase três anos que restam de seu mandato, seu projeto de "transformação" tem vários desafios, como a aplicação de uma reforma no setor elétrico, avalizada pela Suprema Corte esta semana, contrariando o desejo de Estados Unidos, Canadá e Espanha, e o dos partidos da oposição PRI, PAN e PRD.

O novo marco, que AMLO espera reforçar com uma reforma constitucional, dá maior peso ao Estado na geração de energia. Algumas apostas avançam com dificuldade, pois a coalizão do governo - principal força do Congresso - não reúne os votos suficientes para alterar a Constituição e é obrigada a negociar.

López Obrador fundamenta sua aprovação em programas sociais aos quais destina este ano 23 bilhões de dólares (6,4% do orçamento) e políticas como a melhoria do salário mínimo (265 dólares mensais).

Segundo a Coneval, organismo público que avalia as políticas sociais, 44% dos mexicanos vivem na pobreza, um dos males que AMLO se comprometeu a combater, juntamente com a corrupção.

Entre os outros desafios do presidente também estão a persistente violência resultante do crime, que deixou cerca de 340.000 mortos desde 2006, e uma economia impactada pela pandemia, que despencou 8,4% em 2020, recuperou-se 5% em 2021 e que este ano cresceria apenas 3,4%.

A inflação anualizada está em seu maior nível em duas décadas (7,3% em fevereiro).

 


 

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