UTI

"Em nenhum lugar se trabalha tão em equipe quanto numa UTI"

Texto conta uma experiência pessoal de uma médica que se encontrou, profissionalmente, trabalhando como médica intensivista

Catarina Hanne
Catarina Hanne
Publicado em 02/05/2020 às 17:39
Notícia
AFP
Imagem ilustrativa de trabalho em equipe em UTI - FOTO: AFP
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*Catarina Hanne é médica da UTI Júlio de Melo/Hospital Universitário Oswaldo Cruz

Ao final do meu curso de Medicina, fiquei numa dúvida cruel entre Clínica Médica (para fazer Endocrinologia) ou Anestesiologia... Para obstetrícia, o ano que passei com meus queridos preceptores no CISAM, vi que não dava para a coisa... Demorava quase uma hora na episiorrafia (a sutura que fazemos no canal vaginal após os partos)! Percebi que se pegasse uma hemorragia operatória, o paciente fatalmente morreria de sangramento até que acessasse o vaso sanguíneo!

Estava bem tendenciosa pela clínica médica, costumava ser do grupo que acreditava que todo médico tinha que passar pela Medicina Interna, mãe de todas as especialidades, grande professora da construção do raciocínio clínico e do bom senso (talvez a qualidade mais preciosa de um médico)!!! Mas, a UTIPAR no rodízio de Clínica Médica no Hospital Getúlio Vargas (grande prenúncio do que viriam a ser as Salas Vermelhas e Amarelas nas décadas seguintes) e aqueles ambulatórios com aquelas dormências que começavam na fronte e terminavam na ponta do dedo da mão, me afastaram da clínica médica! Mas, na ocasião, eu e uma amiga, resolvemos fazer nosso último rodízio na Terapia Intensiva do Hospital Agamenon Magalhães, UTI pública sempre renomada em Recife! Uma das primeiras do Estado e sempre berço de grandes profissionais! E foi ali, que o bichinho da Terapia Intensiva me mordeu!

Como naquela ocasião, não existia a visão de se especializar em Terapia Intensiva, pelo menos na nossa região, tive que derivar aquele primeiro sentimento para alguma outra especialidade... Pois naquela época, sempre um plantonista de UTI ou mesmo os coordenadores e médicos diaristas (o maestro das equipes, como ouvi recentemente) era sempre alguém que tinha outra especialidade ou outro campo de atuação! Neste cenário, de suportes artificiais, drogas poderosas que subiam e baixavam pressão arterial, sedavam e acordavam... Aquele binômio homem e máquina... Me empurraram de vez para a Anestesia! De quebra ainda estava me encaminhando para uma especialidade “bastante rentável”.

Fato é que a anestesia não me trouxe a realização, a felicidade... Ainda pensei que fosse o ritmo frenético de Recife, de um hospital para outro... Tentei ver se no interior seria uma rica mais feliz! Sempre dependente das agendas dos cirurgiões... Uma leve sensação de uma vida que não me pertencia... Voltei para o Recife certa de deixar a medicina... Mas já tinha filho, contas para pagar... Até que me decidisse, apareceram duas oportunidades em plantões de UTI... Era uma época em que nos hospitais privados, familiares e pacientes conscientes perguntavam assim: “a senhora faz o quê?” Até colegas médicos!!!!

Lembro de uma colega pediatra, vi em seus olhos a frustração quando insistentemente perguntava: “sim, mas você faz o quê?” E a gente dizia que “só” fazia UTI. Tanto que comecei a dizer ”fiz anestesia, mas 'só' trabalho em UTIs"!!!! Foi também de um colega médico que teve seu filho na UTI, intubado e que dava verdadeiros plantões conosco, que um dia, me vendo meio sem paciência com aquele corpo a corpo dele, atrapalhando um pouco o desenrolar do plantão, disse: “Catarina, gostei muito de você! Me permita um conselho de um colega maduro e de cabelos brancos- não queria ficar nesse ambiente para o resto de sua vida não”! Imaginem o incentivo que tínhamos!!!!

Até hoje vários colegas me dão esse conselho, mas a psicoterapia, a vida, os grandes mestres que tive a oportunidade de conhecer e conviver e que abriram as portas para essa ex-anestesista doida, que trocou a especialidade rentável... Que me impulsionaram para ver a especialidade com seriedade... E principalmente: a própria Terapia Intensiva... Sim! Essa mulher forte, madura, que já passou dos trinta de Balzac e cheia de marcas da vida e com muitas glórias ao longo da história médica, dentro da assistência, me mostra em vários momentos que fiz a opção certa! Principalmente quando me possibilitou um reencontro com a medicina, que nos coloca ante a necessidade extrema e premente do cuidar, que mostra o ser humano em sua mais intensa fragilidade... Quem ver com tranquilidade a possibilidade de dá uma passadinha na UTI? Mas também é nessa UTI que muitos ressignificam suas vidas, agradecem a nova chance... São vitórias inesquecíveis!

Nenhum lugar se trabalha tão em equipe quanto numa UTI! Como diz minha grande chefe, não existe vitória de UM... Existe a vitória de um grupo! Guardiões... Verdadeiros guardiões! E tem a turma da retaguarda... Sempre precisamos daquele cirurgião amigo que topa operar o caso grave, aquele endoscopista que sai de madrugada... Que passa 5 horas numa Endoscopia... Caramba! Lembro de cada caso, de cada vida, só de escrever aqui! Precisamos de gente completamente envolvida e preparada tecnicamente! Precisamos de pessoas que compreendam o sentido integral da palavra cuidar! De pegar com cuidado, de entender que um caso difícil é um caso difícil, mas não será perdido até que concretizemos a falência terapêutica! E precisamos ser maduros, para mesmo ante nossa impotência para a cura, não confundamos nosso papel! Sim! Quem cuida cuida até o fim e a nossa amiga adolescente e impetuosa, a Medicina Paliativa, vem nos ensinar que cuidamos inclusive após a morte! Sim!!! Também precisamos dar conforto nessa morte!

Precisamos dar conforto a esta família! Ela é parte do ser que cuidamos! Como nos dissociar dos nossos? O bom de quando fazemos a opção por algo novo é que vamos amadurecendo com ele! A Medicina Intensiva mudou muito nas últimas duas décadas em termos de formação! A existência da Residência Médica no nosso estado alavancou em muito a Terapia Intensiva, não só em Recife, como no interior! Hoje ainda ouvimos de vez em quando um “sim, mas você faz o quê?” A diferença é que acho que não digo mais “só faço terapia intensiva mesmo”, ou não me chateio quando perguntam: “mas precisa ser médico?”

Mas é muito importante que a sociedade entenda que existe o médico intensivista, especialidade do cuidar que envolve um conhecimento fisiológico, fisiopatológico e terapêutico vasto, que caminha ao lado de várias especialidades, mas que se sobrepõe no momento em que esse organismo é ameaçado e se depara com estados críticos... Ninguém é mais importante que ninguém... Mas um excelente especialista precisará de nossa assessoria se o paciente dele, por qualquer motivo, se tornar grave, pois naquela situação o manejo daquela mesma doença que acompanhou o paciente por anos a fio, será diferente, se comportará diferente... Sem falar daquelas doenças que são típicas da UTI e que terão nesses profissionais um manejo mais adequado!

Mas neste momento que se fala tanto em UTI e em suportes artificiais de vida, se faz imperativo lembrar de enfermeiros intensivistas, de fisioterapeutas intensivistas, dos técnicos de enfermagem intensivas, Nutricionistas, Fonoaudiólogos... Vários atores! E se tem um lugar que só máquina não adianta é com o ser humano! Até hoje não sei se é melhor não sermos uma ciência exata! Mas quando se fala do ser humano... Esse ser apaixonante em sua unidade, também repetimos essa inexatidão nas interfaces com os tratamentos, com as máquinas, com a situação... Graças a essa inexatidão tem os que gostem de medicina de urgência, de terapia intensiva... Tem esses loucos que trocaram áreas “mais rentáveis” e mais tranquilas, pelos plantões madrugada a fora... Por feriados e finais de semana... NÃO SOMOS HERÓIS, que fique bem claro!

Somos no máximo a mãe que amamenta o filho faminto! Não tem hora! Você que tem o peito! Tem que ser você, ali, na beira do leito! É também na inexatidão do ser humano, que os milagres aparecem, quando prognósticos sombrios dão lugar à vida! Precisamos nos perdoar quanto a nossos limites! Precisaremos, enquanto sociedade, exercitar nossa resiliência! No entanto, nada disso é fácil! Mas quem disse que viver é fácil?

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