curto e grosso

Diário da pandemia - A Revolta da máquina

De repente, viramos profissionais de prendas domésticas

JC
JC
Publicado em 07/06/2020 às 18:36
Notícia
JT
máquinas, vasilhas - FOTO: JT
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Tem umas vasilhas que avisam que a água ferveu com um apito. O que é muito útil aos que esquecem que botaram água pra ferver. Eu, por exemplo. Esqueço sempre, mas minha vasilha, sem apito, me avisa. Pelo cheiro. Quer dizer, cheiro é bondade minha. Pela catinga. Quando a água ferve até secar, a vasilha continua a ser aquecida, num certo da fervura sem nada pra ferver, a vasilha dana-se a feder, um cheiro de robô pegando fogo.
Aí me lembro da água que botei pra ferver. Corro à cozinha e boto novamente a água pra ferver. Nesta segunda empreitada, geralmente não me esqueço. Temo que até o final da peste a vasilha evapore-se feito a água que ponho nela. Se alguém de instituto de pesquisa me ligar e pedir meus dados pessoais, no local profissão estou tentado a escrever “Prendas domésticas”, ou “Do lar”. Isto porque labuto mais nos afazeres de casa do que em escrever.
Lavar roupa, por exemplo. Só agora passei a entender a música de Luiz Melodia, aquela do “Lavar roupa todo dia/que agonia”. Se bem que só entendi este trecho mesmo. Mas quase tergiverso. Não chega a ser exatamente uma agonia, porque o trabalho pesado fica com a máquina de lavar. Aliás, a minha é de lavar e de dançar. Outro dia meti os panos nela, liguei e vim pro computador cuidar dos afazeres.
Nesse dia a bicha tava meio barulhenta. Dava umas paradinhas, feito Pelé quando batia pênaltis. De repente, irrompia na maior barulheira, que me tirava a atenção do que tentava escrever. Dessa feita foi barulho demais. Quando me viro pra levantar e ir até à máquina, ela já vinha a mim. Já estava na porta da cozinha, e no maior remelexo. Só não corri porque não dava tempo de ir buscar a máscara pra não ser contaminado pela peste.
Caminhei devagar até a máquina, coloquei, meio cismado, as mãos nelas, e a recoloquei no lugar de onde nunca deveria ter saído. Até anotei aqui, pra escrever uma historinha com o tema A Revolta das Máquinas. Inclusive memorizei a marca da máquina. Pra uma eventualidade. Vai que ela me agride, ligo pra polícia, pra denunciar violência doméstica, e não sei dizer o nome da agressora. Talvez tenha se irritado comigo porque da primeira vez que lavei roupa nela, troquei os buracos dos ingredientes. Pus amaciante no buraco do sabão em pó e vice-versa. Fosse um bicho humano, poderia me acusar de erro médico. São tempos de descobertas e experiências.

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