Opinião

Conto: Iara, seu Augusto e a passeata dos Cem Mil

A estudante Beatriz Dias Carvalho, de 15 anos, mostra num conto ficcional, a história de um professor que lutou contra as desigualdades.

JC
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Publicado em 06/06/2021 às 8:05
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REPRODUÇÃO DE VÍDEO/TV JUSTIÇA
Passeata dos Cem Mil, em 1968 - FOTO: REPRODUÇÃO DE VÍDEO/TV JUSTIÇA
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Beatriz Dias Carvalho

Eu nunca me esqueci de quando meu avô finalmente me contou a história do meu nome. Eu sempre tive curiosidade, mas meus pais diziam que só Seu Augusto podia contar, e toda vez que eu perguntava a ele, recebia como resposta um: “você ainda é muito nova pra saber”. Foi somente quando eu fiz dezesseis anos e pedi a história de presente que ele me contou. Me levou até a sala, sentou na velha poltrona e disse: “Iara, minha querida, você sabe que o seu velho se enrola todo pra contar e faz mais arrodeio que tudo pra terminar história. Mas, se você tiver paciência, eu conto”. Eu disse que tinha, claro, mas ele fez um arrodeio enorme mesmo. Vou simplificar a história para vocês. Na época em que Seu Augusto era Professor Augusto, de Sociologia e Literatura, e lecionava em três escolas, estourou a Ditadura Militar.

A partir de 1964, ensinar se tornou perigoso, e vários professores começaram a ser presos, torturados e mortos, em razão da “subversão” que incentivavam; essa subversão era, basicamente, pensamento crítico. Com a Constituição de 1967, a União e os estados não eram mais obrigados a investir uma quantia mínima na educação, e houve a abertura do ensino para a iniciativa privada. Ele disse que, quando um governo autoritário quer se manter no poder, ele sucateia a educação, e foi isso que aconteceu. A infraestrutura, o salário e as condições de trabalho dos profissionais de educação se deterioraram até chegar em níveis precários.

Além disso, a qualidade do ensino em escolas públicas e privadas se distanciou até gerar uma desigualdade social e educacional gritantes. Apesar de tudo, as coisas só começaram a se tornar realmente inviáveis em 1968, com o decreto do Ato Institucional Número 5, que deu plenos poderes ao Presidente da República e retirou direitos individuais da população civil. Meu avô já tinha sido demitido de uma escola, depois que o ensino de sociologia foi banido da grade curricular das instituições educacionais. Depois, passou semanas preso por “incitar o aliciamento e a subversão”, e por isso foi expulso das outras duas.

Protestar e manifestar-se contra o regime também era proibido e passível de punição severa, então tudo começou a desandar. Todas as pequenas revoltas que surgiam acabavam com prisões, desaparecimentos misteriosos ou assassinatos. Ele não quis se aprofundar no assunto. No meio dessa confusão, em junho de 1968, uma antiga aluna bateu na porta de sua casa.

O nome dela era Iara. Já formada no ensino médio, ela era na época uma universitária de 19 anos, graduanda em Letras, que tinha um carinho muito grande pelo meu avô. Ele disse que tinha sido uma de suas alunas mais brilhantes, e foi lá avisar que, no Rio de Janeiro, um policial matou um estudante, e isso estava gerando comoção nacional. Haveria protestos, e ela pediu que ele a acompanhasse. 

Passaram dias na viagem de carro de Recife até o Rio, e, no dia 26 daquele mês, participaram da Passeata dos Cem Mil. Ambos acabaram sendo presos pela PM, e, depois que um policial veio levar Iara para interrogatório, o professor nunca mais a viu. Meses depois, seu corpo foi achado. Foi ela quem deu força para que ele persistisse nos anos seguintes, somando muitas prisões. Seu Augusto disse que não sabe como não foi morto naquela época.

Lembro que fiquei pensativa por semanas depois dessa história. Perguntei ao meu avô, de forma quase retórica, rezando por uma resposta afirmativa, se as coisas tinham mudado desde lá, especificamente no âmbito educacional. Ele disse que o buraco que a ditadura tinha feito levaria ainda muito tempo para ser reparado, especialmente em relação à desigualdade na esfera pública e privada. Que o Brasil tinha mudado, mas insistia em um progresso que queria ir para frente sem olhar para trás. Então, citou “A desmemória/2”, de Eduardo Galeano. “O medo seca a boca, molha as mãos e mutila. O medo de saber nos condena à ignorância, o medo de fazer nos reduz à impotência.

A ditadura militar, medo de escutar, medo de dizer, nos converteu em surdos e mudos. Agora a  democracia, que tem medo de recordar, nos adoece de amnésia; mas não necessita ser Sigmund Freud para saber que não existe tapete que possa ocultar a sujeira da memória”.

Seu Augusto faleceu, uma das milhões de vítimas do Covid-19. Uma das possíveis causas foi sua  participação em um protesto pela educação. Afirmou que, se o povo tinha que ir à rua protestar mesmo durante uma pandemia, significava que o governo era mais nocivo que o vírus. E, se foi pela educação que viveu, seria por ela que morreria. Cabeça dura do jeito que era, deve ter morrido satisfeito consigo mesmo.

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