OPINIÃO

Pela educação e contra a violência, investir no modelo pernambucano de escolas em tempo integral é um caminho

Pesquisa feita com o ensino médio integral de Pernambuco analisou 16 anos de um modelo iniciado em 2004, no Governo Jarbas/Mendonça, que aumentou o tempo de aula para 10 horas, com um currículo centrado no projeto de vida e no protagonismo do estudante.

MENDONÇA FILHO
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MENDONÇA FILHO
Publicado em 18/06/2022 às 11:37 | Atualizado em 18/06/2022 às 12:48
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Professores que lecionaram entre os anos de 1997 e 2006 na rede estadual terão direito - FOTO: BETO DLC / JC IMAGEM
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O que uma política pública de educação tem a ver com redução dos índices de homicídios? Pode ter tudo a ver. Se for avaliada com base em dados e evidências, pode revelar o seu poder de transversalidade e de impacto positivo na vida da criança e do jovem não só na melhoria da aprendizagem e da empregabilidade, mas na redução da violência. Estudo de pesquisadores do Insper e da Universidade de São Paulo (USP), com apoio do Instituto Natura, divulgado recentemente, aponta que investir em escolas em tempo integral reduz as taxas de homicídio de jovens homens em até 50%.

A pesquisa feita com o ensino médio integral de Pernambuco analisou 16 anos de um modelo iniciado em 2004, no Governo Jarbas/Mendonça, que aumentou o tempo de aula para 10 horas, com um currículo centrado no projeto de vida e no protagonismo do estudante. Uma política pública que me orgulho de ter coordenado a sua implantação em Pernambuco e de ter levado para todo o Brasil ao criar a Política Nacional de Escolas em Tempo Integral, quando fizemos a reforma do ensino médio.
O estudo realizado por Leonardo Rosa, Raphael Bruce, Natália Sarellas, mostra que o país registra cerca de 30 mil óbitos de jovens tendo como causa o homicídio. O Brasil tem a terceira mais alta taxa de homicídio de jovens quando comparado com 85 outros países. Para se ter uma ideia, o homicídio corresponde a cerca de 4% do total de mortes da população geral, enquanto de jovens entre 15 e 19 anos salta para 64%. Uma tragédia.
Pernambuco aparece na 10 posição entre os estados, segundo Dados do Atlas da Violência, com uma média de 36 homicídios a cada 100 mil, enquanto a média nacional é de 21 por 100 mil, em 2019. Para se ter uma ideia do impacto da escola em tempo integral, o estudo Insper/USP aponta que a queda na taxa de homicídios se dá não só porque o tempo maior na escola afasta o jovem de situações arriscadas - como o envolvimento no tráfico de drogas e outros crimes. Como também, pela qualidade da educação, com professores em tempo integral, currículo diferenciado e escola centrada no aluno, no protagonismo do jovem.
Outros estudos mostram, ainda, melhora na aprendizagem, maiores salários para os formados, mais empregabilidade das meninas e redução da desigualdade. No MEC, investimos R$ 1,5 bilhão na política nacional de escolas em tempo integral para induzir todos os estados a implantar o modelo. Dados do Instituto Sonho Grande mostram um resultado espetacular: o percentual de escolas em tempo integral no ensino médio subiu de 8,2% em 2016, para 21,9% em 2021. Enquanto o percentual de matrícula em tempo integral saiu de 5,2% para 14,9%. Num país como o nosso, onde os indicadores de educação e de violência são desoladores, os dados e as evidências apontam que investir no modelo pernambucano de escolas em tempo integral é o caminho.


Mendonça Filho, ex-ministro da Educação e consultor da Fundação Lemann.

 

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