OPINIÃO

Marcos Roberto Moura Dubeux: Durante uma pandemia comparada a uma situação de guerra, torna-se evidente a importância da logística

Por trás do abastecimento dos hospitais, supermercados, indústrias, comércio estão as operações logísticas que precisam ser saneadas para evitar contaminação

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Publicado em 10/06/2020 às 9:10
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A infraestrutura logística foi desafiada nessa crise da Covid-19. O setor funciona 24/7, sem comprometer o tempo de entrega das mercadorias - FOTO: PIXABAY
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Por Marcos Roberto Moura Dubeux*

O Dia da logística é comemorado em 6 de junho, em homenagem àquela que é considerada a maior operação logística da história: o desembarque das Forças Aliadas na Normandia (França) durante a 1ª Guerra Mundial, o famoso “Dia D”. Desde a antiguidade, os líderes militares responsáveis por garantir recursos e suprimentos para a guerra eram conhecidos como Logistikas. Mas, a verdadeira consciência do setor como ciência teve sua origem no corpo dos fuzileiros navais americano colocando pela primeira vez o tema ao lado da tática e da estratégia da “Arte da Guerra”.

Vivemos uma pandemia que, muitos comparam a uma situação de guerra. Nesses momentos de pressão, torna-se evidente a importância da logística e de sua infraestrutura. Foi assim também na greve dos caminhoneiros em 2018, aqui no Brasil, com a população sofrendo no seu dia a dia, com falta de gás da cozinha e os abastecimentos.

Agora durante a maior crise de saúde pública de todos os tempos, a população teve a segurança no abastecimento, ficando clara a evolução da logística em meio ao caos e a robustez da infraestrutura das plataformas multimodais. Ainda com a pandemia em curso, faço essa reflexão sobre esse tema que deve ser sempre lembrado.

Logística Saneada e responsiva

A infraestrutura logística foi desafiada nessa crise da Covid-19. O setor funciona 24/7, sem comprometer o tempo de entrega das mercadorias. Por trás do abastecimento dos hospitais, supermercados, indústrias, comércio estão as operações logísticas que precisam ser saneadas para evitar contaminação. No Cone, além de seguir todas as orientações da OMS e de atender necessidades específicas básicas de cada operação, vimos o poder do cluster, via colaboração tácita entre as empresas do condomínio com compartilhamento de serviços e necessidades garantindo flexibilização e adaptação numa questão de horas.

As empresas terão que buscar ser cada vez mais responsivas, respondendo com rapidez as mudanças, a necessidade da população e aos gostos dos consumidores.

A logística em Pernambuco

Nesse estado de “guerra”, ficou evidenciada a força da posição geográfica de Pernambuco e sua tradicional vocação para a logística. O Porto de Suape encerrou o primeiro trimestre deste ano com a maior movimentação da sua história. Muito por conta da queda de consumo de combustíveis, em função das restrições da pandemia, tendo que distribuir para outros estados o volume não consumido. Mesmo assim, mostra sua força como concentrador de cargas “hub”.

O Aeroporto dos Guararapes também teve recorde de movimentação de cargas indicando a localização preferencial e central do Estado. Vale destacar que o transporte aéreo ficará ainda mais caro em função do derretimento do total da malha de voos de passageiros (hoje está 8,5% do total antes da pandemia) para servir de “barriga” para o transporte de cargas. Em razão desse aumento de custos, boa parte dessa carga aérea irá migrar para outros modais.

Nesse contexto, tirar o Arco Metropolitano do papel para aliviar o transporte rodoviário é ainda mais urgente (abaixo mapa da região metropolitana do Recife e traçado do Arco rodoviário). Também não podemos deixar de registrar o absurdo histórico e social da situação da malha ferroviária, menor que no início do século passado. A Transnordestina deveria ser uma prioridade de qualquer governo.

 

A Pandemia como acelerador das tendências

A pandemia não deve lançar tendências novas, mas com certeza acelerou o que levaria anos para consolidar e amadurecer. As reuniões via videoconferência diminuirão o tráfego aéreo e as compras on-line aumentarão a necessidade por infraestrutura logística ao passo que novos shopping centers focarão numa área de lazer profundamente diferenciada.

Dado a natureza da logística ser diversificada e transversal na economia, enquanto alguns centros de distribuição sofrem por conta de lojas fechadas, outros expandem suas atividades como os setores de higiene, limpeza, alimentos, congelados e operações de abastecimento no geral. O saldo para o setor é positivo.

A digitalização das compras tem um potencial muito grande, mesmo o volume ainda sendo pequeno no País. O valor total do e-commerce no Brasil é menor hoje do que o faturamento do Grupo Pão de Açúcar. O comércio eletrônico ainda representa menos de 5% do total do varejo, enquanto nos Estados Unidos é acima de 10% e na China, mais de 20%.

Com toda a aceleração dessas tendências se verá muita descentralização da logística e uma necessidade cada vez maior por armazéns, pátios e ativos logísticos. Essa expansão só deverá arrefecer quando a tecnologia de impressão 3D de todo tipo de mercadoria vire uma realidade e tudo mude outra vez.
Investimentos e Desenvolvimento

O Brasil e o mundo irão acordar desse período precisando gerar milhares de empregos. Nosso histórico mostra que a cada mil metros quadrados de espaço logístico construídos, seis empregos são gerados nos mais variados perfis profissionais.

As fontes de financiamentos em infraestrutura e para esses empreendimentos devem ser incentivadas abastecendo de capital essa demanda. Os efeitos econômicos da pandemia fizeram a taxa básica de juros no Brasil atingir um percentual mínimo histórico de 3% ao ano. Inacreditável para quem viveu na pele há apenas 4 anos juros de 14,25% ao ano. As aplicações de investimentos, com juros nesse patamar, fazem dos fundos imobiliários uma opção cada vez mais procurada por pessoas físicas. Nesses Fundos, a classe de ativo logístico foi a que mais resistiu em valor no auge do pânico no mercado de capitais com a pandemia. Os fundos de logística quando comparados o valor das cotas com de outros fundos Imobiliários (Shoppings, Escritórios, Lojas “Box” de varejo, Universidades e hotéis) foram os que menos perderam valor e mais rapidamente recuperaram.

Os investimentos no setor de logística, que representa 22% do PIB do Brasil, devem crescer substancialmente nos próximos anos, gerando empregos e oportunidades para um mundo extremamente necessitado em recuperar sua economia após os impactos dessa “guerra” que está sendo a pandemia do Coronavírus.

Diferente dos aliados na II Guerra Mundial, o mundo hoje tem um inimigo comum e invisível. Todos estão passando pelo mesmo tipo de problema. É preciso aproveitar o sentimento de empatia, engajar em cooperações globais, incentivar o mercado local e realizar uma grande “operação logística” para a retomada da economia.

*Marcos Roberto Moura Dubeux é empreendedor e diretor-presidente da CONE S/A

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