Opinião

Fernando Lima: O futuro nunca dependeu tanto do presente, a não ser que você fabrique álcool em gel

Artigo comenta sobre o pós pandemia e a possível humanização das marcas

JC
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Publicado em 10/06/2020 às 11:16
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LEO MOTTA / JC IMAGEM
. - FOTO: LEO MOTTA / JC IMAGEM
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*Por Fernando Lima.

Desde que seja em gel, a marca do álcool escolhida na gôndola nos dias de hoje para uso humano, pouco importa. A curva de crescimento das vendas de limpadores de superfície, sabão em barra, sabonetes, vitaminas, comidas instantâneas e do papel higiênico - que já virou estudo de caso - quebra uma rotina no varejo e pouco ou nada tem a ver com decisão de compra via ativos tangíveis e intangíveis tão valorizados até o momento pelos consumidores e consumidoras.

Para salvar vidas, para atender as nossas urgências, voltamos a escolher os produtos em função unicamente dos insumos, princípios ativos e benefícios. Mas é verdadeira a afirmação que estamos commoditizando a escolha, como em outros períodos de pandemia ou de guerra? Duvido, mas gostaria de trazer mais gente para essa conversa.

Apesar de contribuir com a precarização do trabalho, na hora de decidir por um app de delivery para levar ou trazer uma encomenda, você vai escolher aquele que saiu na frente treinando os seus entregadores a partir de condutas corretas que ajudam a evitar o contágio do novo coronavírus ou outro player do mercado? Na próxima viagem, você pretende escolher uma companhia aérea que anunciou imediatamente sua disposição com a remarcação ou devolução do dinheiro da passagem não utilizada ou aquela que neste momento está com seus ramais telefônicos ocupados? E o que pensar de uma hamburgueria cujo proprietário vai às redes sociais para dizer que 5.000, 7.000 mortes não deveria ser motivo para emperrar a nossa economia?

Se as atitudes ou revisão de propósitos de algumas marcas já começam a apontar para preferências e decisões de compra desde agora, é muito provável que a gente observe uma quebra ainda maior de paradigma daqui pra frente.
..

Muitas dessas marcas talvez passem a ser reconhecidas ou referenciadas por outros arquétipos. "O Herói" pode se transformar no "Prestativo" e a marca detentora deste novo padrão - aí, com toda certeza - passa a ampliar não apenas o seu repertório mas o reconhecimento dos seus (novos) valores.

É a nova reputação.

Talvez, depois desta pandemia, teremos escrito um novo capítulo sobre o tema da humanização de marcas. Tema tão festejado e incluído no discurso mas ainda muito mal traduzido pelas companhias e suas marcas através de ações, atitudes. Se a antena do discernimento das pessoas já estava ligada, dessa vez ela ganhou uma bateria nova. O que temos visto hoje é o verdadeiro engajamento através das atitudes e não mais da intenção, do discurso. A marca de comércio eletrônico que teve a grande ideia de separar o aperto de mão da "logo" já foi cobrada por uma ação que vá além desta sacada. Eu sei, todos nós sabemos, que neste momento as empresas estão articulando estratégias de sobrevivência. Mas até para sobreviver e garantir sustentabilidade no futuro, depois que tudo isso passar, é importante ser lembrado, respeitado e preferido agora. Então, o futuro nunca dependeu tanto do presente. A não ser que você fabrique álcool em gel em períodos de guerra como este.

Fernando Lima*

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