Curto & Grossohumor/crônica

A praia de Boa Viagem é do povão como o céu é do avião

De máscaras nesse domingo na orla só eu e os guardas municipais

José Teles
José Teles
Publicado em 26/07/2020 às 17:02
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Boa Viagem, liberada - FOTO: reprodução
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A criatura se arriscar a andar a pé pelas ruas do bairro de Boa Viagem, num domingo à tarde, é pra quem não tem amor à vida. Eu tenho, até porque só tenho esta. Porém, disse-o outras vezes, meu maior medo da morte é haver outra vida e, o que é pior, eterna. Uma tá de bom tamanho, mas tergiverso. A pandemia deixou as ruas desertas, ou quase. A gente anda por elas enfrentando os junkies, aos montes nas calçadas. Não pedem, exigem. Tudo doido de pedra. Mas já são parte da paisagem.

Nesse dia deparei-me com um fato misterioso. Deveras, por sinal. Oito lixeiras num espaço de 50 metros quadrados. Deve ter mais lixeiras ali do que no bairro inteiro. Todas intactas. Isto foi na pracinha da igreja velha de Boa Viagem; de invejáveis 313 anos. A feirinha da pracinha passou uns quatro meses sem rolar. Ou seja, o lugar esteve deserto de gente e movimento esses dias todos. Por que motivo os maloqueiros não destruíram as lixeiras? O que os levou a não destroçar a réplica do Galo da Madrugada que tem lá? Alguma mutação causada pelo, mais ou menos novo, coronavírus os fez mudar o curso natural das coisas?

Com este ponto de interrogação na cabeça, rumei pro calçadão a fim de suar, ficar com sede, e tornar a cerva, que me esperava em casa, ainda mais saborosa. Tinha ido à farmácia, perto da pracinha, comprar um protetor solar fator 350. Ando na praia desde que a liberaram para nós, bípedes implumes. Sempre de máscara, como pede o bom senso.

Eis que chego da praia, me olho no espelho do banheiro, e vejo um urso panda. Eu. O rosto até as bochechas claros, ao redor dos olhos, dois círculos escuros, a parte exposta ao sol. Não tava a fim de me tornar espécie em extinção. Voltando à praia domingo.

Me esqueci logo do enigma das lixeiras intactas da pracinha, porque passei a prestar atenção nos banhistas. Máscaras tem que vir com manual. As pessoas usavam a máscara feito pagodeiro usa óculos escuros, na cabeça; como brinco, na orelha; ou babador, no queixo. Vi um único banhista usando máscara corretamente. Um garotinho fantasiado de homem-aranha. De máscara nesse dia, eu, e os fiscais da prefeitura, que não sei o que faziam ali.

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