Em cima da queda, coice!

MOZART NEVES RAMOS
MOZART NEVES RAMOS
Publicado em 24/08/2020 às 6:00
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É muito triste o atual cenário mundial em decorrência da pandemia. Milhares de pessoas perderam a vida pelo covid-19. Milhões de pessoas perderam seus empregos, e outros tantos tiveram que reduzir seus salários para mantê-los.

Da noite para o dia, em meados de março deste ano, 1,5 bilhão de estudantes de muitas partes do mundo ficaram sem ir às escolas e às universidades. Isso pode representar, como alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres, uma "catástrofe geracional".

Mesmo diante de um cenário tão difícil e que pegou a todos de surpresa pela sua magnitude, o que tenho visto aqui no Brasil - e isso vou levar dessa pandemia - são professores se (re)inventando para dar suas aulas e não deixar os estudantes sem atividades escolares. Rendo aqui a minha homenagem e o meu respeito a esses professores, e o faço em nome de um deles: o prof. Arthur Cabral, da Escola Estadual Deputado Oscar Carneiro, localizada na cidade de Camaragibe, em Pernambuco, que de bicicleta, percorrendo vários quilômetros, passou a entregar de porta em porta as tarefas escolares de seus alunos. Como ele mesmo disse: "A educação tem que chegar a todo mundo. Quando terminei a graduação, sempre achei que estava aqui para ajudar meus alunos. Se vinte, dez ou mesmo um não tiverem acesso ao ensino, não estarei ajudando".

Todavia, esse quadro poderia ter sido minorado caso os professores estivessem preparados para dar aulas online, e os estudantes, especialmente os de famílias mais pobres, tivessem tido acesso à conectividade digital.

Isso poderia ter acontecido caso o país tivesse aplicado parte dos recursos do Fundo da Universalização dos Sistemas de Telecomunicações (Fust) - que gira em torno de R$ 32 bilhões de reais e que os governos vêm historicamente usando para fazer superávit primário - para prover conectividade aos estudantes e formação aos professores para darem aulas remotas.

Em meio a tudo isso, chegam as notícias de corte no orçamento da educação para 2021. O corte previsto deverá ser em despesas discricionárias (aquelas que não são obrigatórias e podem, por lei, ser remanejadas) e está estimado em R$ 4,2 bilhões de reais. Desses, as universidades e os institutos federais devem responder por R$ 1,43 bilhão! Isso pode inviabilizar o importante sistema federal de ensino superior, que responde não só por 1,2 milhão de estudantes, mas também por parte significativa da ciência brasileira.

E mais: na calada da noite, o Senado federal aprovou Projeto de Lei que transfere recursos do Fundo Social do pré-sal para a expansão de gasodutos do país e para despesas correntes de estados e municípios. Caso a presidência da república não vete parte do texto, os setores de educação e saúde poderão perder R$ 242 bilhões nos próximos 20 anos.

Por isso o jargão popular: em cima de queda, coice!

Mozart Neves Ramos, professor emérito da UFPE

 

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