Opinião

Reforma-me ou te devoro: o mito da tragédia de Édipo aportou no Brasil

"A agenda reformista no Brasil não tem futuro com o Estado de tamanho descomunal e profundas raízes patrimonialistas". Leia o artigo completo de Gustavo Krause

GUSTAVO KRAUSE
GUSTAVO KRAUSE
Publicado em 21/02/2021 às 6:02
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Édipo e a Esfinge - FOTO: Reprodução
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O mito da tragédia de Édipo aportou no Brasil. Não tem relação com a peste que assolou Tebas nem com a Pandemia do Coronavírus. Inspira-se, no entanto, no enigma lançado pela Esfinge que desafiou os gregos: "Decifra-me ou te devoro".

Não foi preciso um Édipo para decifrar o desafio, nem esforço para identificar a autoria da empulhação histórica: o Estado Brasileiro, Leviatã hobbesiano deformado, "o mais frio dos monstros" na definição de Nietzsche.

A agenda reformista no Brasil não tem futuro com o Estado de tamanho descomunal e profundas raízes patrimonialistas. O consenso reformista é um embuste. Sua natureza é abrigar privilégios corporativos e seu funcionamento distorce a economia de mercado e a livre inciativa em favor dos ricos e em prejuízo dos pobres.

As mudanças não andam por conta de falsos dilemas: estado máximo versus estado mínimo; privatização versus estatização; burocracia ineficiente versus burocracia eficiente. A essência do debate é negligenciada e os verdadeiros dilemas são protegidos por interesses inconfessáveis e estupidez ideológica. O que se contrapõe ao estado patrimonialista e autoritário é o estado democrático e republicano; o que se deve buscar é o estado necessário no lugar do estado provedor, disfuncional que compromete o ambiente de negócio e o espírito empreendedor; o que se espera da esfera pública é uma burocracia cidadã que atenda à sociedade.

De um lado, o estado brasileiro suga o suor dos que trabalham; de outro, desperdiça, não oferece serviços básicos e mantém uma relação espúria com o setor privado que transformou o que seria a virtude da concorrência no delituoso capitalismo de compadrio, instalado nos EUA, a meca do capitalismo.

As recorrentes crises do capitalismo decorrem mais de suas possíveis virtudes do que seus proclamados defeitos. Lembra a sábia observação de Winston Churchill: "A empresa privada é um predador a ser abatido ou uma vaca leiteira a ser ordenhada?". No século XXI, não faltarão crises com efeitos imprevisíveis: a disrupção tecnológica associada à profunda desigualdade social; a explosiva questão ambiental e o necessário aperfeiçoamento dos sistemas de governança, desafios simbolizados pelo acrônimo em inglês ESG. O futuro "dança nos pés do acaso"; não é o autoengano das utopias.

Populismo, inclinações iliberais do Presidente, nada mudará. Quando vi o Secretário Salim Mattar, um idealista liberal puro-sangue, perceber a inviabilidade do programa de privatização, sepultado pelas alianças decorrentes da eleição congressual, concordo com Oswald de Andrade: "Meu país sofre de uma incompetência cósmica".

Gustavo Krause, ex-governador de Pernambuco


*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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