ARTIGO

Sem desnecessárias modéstias, tenho certeza de que fui um bom professor

"Nunca me cansarei jamais de falar da profissão a que me dediquei ao longo de mais de quarenta anos". Leia a opinião de Flávio Brayner

Flávio Brayner
Flávio Brayner
Publicado em 02/03/2021 às 6:03
FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
"Tenho, sobretudo, a consciência de não ter desonrado minha profissão" - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Nunca me cansarei jamais de falar da profissão a que me dediquei ao longo de mais de quarenta anos, e sem desnecessárias modéstias, tenho certeza de que fui um bom professor.

Tenho, sobretudo, a consciência de não ter desonrado minha profissão. Desonramos o magistério quando não vemos mais nenhuma relação entre o que SABEMOS/TRANSMITIMOS e o futuro que nossos alunos desejam (o problema é "o que eles desejam?". E, aqui, é nossa tarefa fazer luz sobre a origem destes desejos e as suas consequências, caso se realizem); desonramos quando não sabemos mais exercer a CRÍTICA, quer dizer, esta arte de não sermos totalmente governados, nem por estas pessoas, nem com estes métodos, nem com estes objetivos; desonramos quando o PASSADO - aquilo que todos "temos" e de onde todos "viemos"- é visto como não tendo mais nenhum efeito sobre nós; desonramos quando também não atribuímos mais o devido valor à instituição que nos abriga - a ESCOLA- este estranho lugar de uma promessa secular, na qual nós não podemos não acreditar: a promessa de que é saindo de meu pequeno universo individual, familiar, religioso ou cultural que eu posso participar de complexas abstrações chamadas "sociedade", "história", "humanidade"!

Sei também que minhas aulas perturbaram o juízo de meus alunos. Um deles, - Nielson Bezerra- disse-me certa vez que elas eram como aquelas brincadeiras que os adultos faziam pegando as crianças pelos braços e rodando, rodando... para depois soltá-las tontas e desorientadas! Tenho certeza de que meus alunos não lamentam o fato de eu os ter "rodado, rodado": eu os fiz ver, através da filosofia da educação, como nós éramos "feitos", como nos definíamos, como nos pensávamos, como acreditávamos, porque agíamos assim.

Havia algo nas minhas aulas, eu reconheço, semelhante às sessões de terapia individual, mas o que estava em jogo não era o indivíduo (meu aluno como "indivíduo"), mas como SUJEITO (quer dizer, como resultado de uma CULTURA), com toda a ambiguidade que aquele termo inspira: Sujeito como autonomia de quem pratica uma ação e Sujeito como sujeição à vontade de outro.

Sei que boa parte de meus ex-alunos, hoje também professores, continuam me acompanhando através deste JC, e sei também que agora são eles que fazem seus alunos "rodarem, rodarem para depois soltá-los tontos e desorientados...", ou seja, fazendo-os conscientes de um mundo como algo problemático, incerto e imponderável e onde eles vão ter que construir uma Existência: uma bela forma de honrar nossa profissão!

Flávio Brayner, professor titular da UFPE

 *Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC.

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