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Não dá certo quando o político eleito assume o papel de sabe tudo

"Todo mundo sabe que certas práticas aumentam o risco de novas infecções e se estimulá-las não for crime de responsabilidade, o que mais será?". Leia a opinião de

Sérgio Gondim
Sérgio Gondim
Publicado em 02/04/2021 às 6:09
PEDRO FRANÇA/AGÊNCIA SENADO
Fachada do Palácio do Planalto, local de trabalho do presidente do Brasil - FOTO: PEDRO FRANÇA/AGÊNCIA SENADO
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Quando um político é eleito, não quer dizer que seja um expert em turismo, ciência e tecnologia, economia e muito menos em saúde pública. É esperado que tenha sabedoria e diretrizes para atuar em favor do país e seu povo, que seja capaz de escolher assessores competentes para orientá-lo nas decisões.

É sempre assim quando procuram os especialistas para elaborar os programas de governo específicos para cada área e até para escrever seus discursos. Não dá certo quando o "quem manda sou eu", o "estou sempre certo", o "fui o escolhido", assume o papel de sabe tudo.

Pode ter todos os votos do mundo, mas não lhe conferem o poder de entender de meteorologia, nem de políticas de saúde.

Não lhe conferem poder para distinguir uma doença grave de uma pequena gripe, nem de determinar tratamentos, sem ouvir os especialistas. Não lhe conferem o direito de se comportar de forma que favoreça a disseminação de uma doença.

Durante a pandemia, se o fizer, pode ser responsável por pelo menos duas mortes para cada cem pessoas que, estimuladas pelo discurso e pelo mal exemplo, adoecem depois de aglomerar sem máscara.

Todo mundo sabe que certas práticas aumentam o risco de novas infecções e se estimulá-las não for crime de responsabilidade, o que mais será? No país em que pedalar já foi julgado como tal, o que dirá promover o que sabidamente provoca mortes.

Diante da realidade da pandemia, muitos estudos têm sido publicados sobre o profundo impacto da doença na economia.

Perto de 90% do mundo, de alguma forma, aplicou isolamento social visando reduzir o número de casos e possibilitar o melhor atendimento na rede hospitalar. Fizeram isso em respeito às vidas e, paradoxalmente, também à economia, cientes de que o impacto da doença disseminada e continuada sobre a economia é maior do que o do isolamento social temporário, além de diminuir o risco de tornar inevitável o extremo do lockdown.

Em assunto tão complexo, controverso e grave, mais do que um assessor obediente, mais do que pitacos inconsequentes, mais do que a partidarização do vírus, imaginava um gabinete de crise de alto nível, unido e afinado com a ciência, visando auxiliar os dirigentes a minimizar os danos, restabelecer a confiança e a esperança do país.

Sérgio Gondim, médico

 

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