ARTIGO

A existência me cobra visões interiores

"Sou alguém em permanente busca de si mesmo. Por mais que perceba os anseios, jamais me conheço. Seria absolutamente monótono saber-me em completude". Leia o texto de Fátima Quintas

Fátima Quintas
Fátima Quintas
Publicado em 28/04/2021 às 6:09
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A existência me cobra visões interiores. O olhar se perde na própria natureza. Sou alguém em permanente busca de si mesmo. Por mais que perceba os anseios, jamais me conheço. Seria absolutamente monótono saber-me em completude. Existo no que há de abstrato e intraduzível. Não me exponho porque não sei quem sou. Guardo-me nas fronteiras que se multiplicam, distantes, próximas, inatingíveis. Não me conforta o pouco que absorvo, preciso ir adiante, muito além do concebido. O mistério paira em toda caminhada, ainda bem que acato as possíveis transmutações. Tudo mais é mera coincidência. Nada sei e jamais saberei. Conforta-me a ignorância que me habita. Serei sempre feliz diante do incógnito.

Tenho apenas um nome e todas as indecisões que afloram o mundo. Quem sabe, um dia entenderei a ansiedade de cada um? Jamais. Que a própria renovação do tempo se alongue na impossibilidade do assimilar. Vou e não vou, a melhor forma de conviver com o obscuro. Moro em algum lugar, visto a roupa que desejo, saio por aí como uma indigente qualquer. Tantas emoções me aconchegam e, no entanto, permaneço sempre nas incertezas do raciocínio. Recolho-me em intensa profundidade.

Jamais desisto das interrogações; crescem à medida que me aprofundo. E me questiono. Nada mais prudente que a vontade de se transformar ao longo da estrada. Menina fui, feliz e incapaz de divisar o instante. Será que por acaso hoje o diviso? Ledo engano. Cresce em mim o mesmo Eu de antigamente. Tão semelhante aos inícios. Uma anunciada repetição. Nada mudou, apenas o esboço exterior: os cabelos embranqueceram, a face adquiriu a marca dos dias, o corpo alcançou a perda da juventude.

Reservo-me o direito de afirmar que nada sei. Maravilho-me com o que há de inatingível na existência. O que apreendo, já me basta; o que não apreendo, alerta-me para o futuro. Oh! Tempos tão sequenciais! Jamais desisto de me enganar, creio até que nada aflora tão sublime no ato de viver. Acordo, nasço novamente e, ainda assim, permaneço a mesma: ingênua e persistente. O largo suspirar me acalma, quase um refletor do que desejaria alcançar. A alma cochicha alguns sussurros, ouço-os e acumulo forças para prosseguir.

Urge sentir-me em pleno debate comigo mesmo. Não desisto do diálogo em constante inquietação diante do advir. Leio, releio, decoro as palavras — um hábito diário. Os momentos favorecem as descobertas, o relógio indica a travessia... Que horas são? Não me perguntem. Sobrevivo ao embalo das brumas que me fazem refletir. Fecho os olhos, respiro fundo e acato o Mistério do Ser.

Fátima Quintas, da Academia Pernambucana de Letras

 

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