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Moinho Recife

"Cristais de luz cintilam no rosto das águas como se uma chuva de diamantes houvesse caído por toda a noite". Leia o texto de Tadeu Alencar

Tadeu Alencar
Tadeu Alencar
Publicado em 01/05/2021 às 6:02
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YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
Vista do Parque de Esculturas Francisco Brennand a partir do Marco Zero do Recife - FOTO: YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
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Cristais de luz cintilam no rosto das águas como se uma chuva de diamantes houvesse caído por toda a noite. Embora o sol esteja forte, ombros largos, músculos definidos, um certo frescor enche os olhos de um orvalho diferente, aquele que umedece a alma enquanto doura a pele dos homens e da cidade.

Um navio quedo no Porto do Recife tremula uma bandeira solitária, anunciando que a pátria se contém em cada centímetro em que se sonha com a liberdade e com o futuro. Um pombo também passeia solitário pelos telhados gastos. Caminha de um lado a outro de sua jaula aberta, como uma onça saudosa dos seus iguais, felinos pintados das tantas cores da terra. Vai sozinho o pombo, como sozinha tremula a bandeira, mas, ambos, além do homem que olha da janela, sabem que o frescor do sol abrasante não é por acaso. Os três conhecem um segredo: os céus estão repletos de voos escondidos, imperceptíveis ao olho nu e cego da íris do cotidiano. Bandeiras de outros navios tremulam ao longe, em outras terras, em outros portos e sinalizam uma aliança subterrânea, quem sabe submarina, em que a solidão dos mastros e das flâmulas se faz remota.

Gastos telhados de outras cidades, aos pés de longínquos oceanos, mares do sul, ostentam também pombos solitários que acenam com o olho e com as asas, anunciando que a solidão universal é também garantia de que a solidão individual, como valor, é de pequena, quase nenhuma significação. O homem na janela, pensativo, olhar atento ao que vêem os olhos de dentro, sabe que a solidão de bandeiras e de pombos é sinal do seu ensimesmamento. E se então o abandono de umas e de outros é tão-somente aparente, é porque a sua solidão humana é falsa. Em outras terras, em outros portos, em outras janelas como a sua, outros homens acordam em suas cidades e se deixam banhar da luz que tudo cobre, com os seus cristais de precioso líquido. E assim, o mundo encolhe, os oceanos se fundem, os pombos voam em esquadrilha e todas as bandeiras se tingem de vermelho, como se cada uma não fosse senão um retalho da bandeira mãe. Então o homem põe um sorriso nos lábios, pois se outros também vêem o que ele vê é porque não está tão solitário como parecera. E o sorriso dá lugar a uma flor nos lábios, pois se em outros portos há pessoas nas janelas, quem sabe alguém, à vista dos antigos arrecifes, não afasta as cortinas de sua própria solidão e vê também o brilho das águas, e se deixa encher da certeza da presença do outro, tremulando na janela, como tremularia na janela um retalho vermelho, da bandeira única de que é feito o sonho de cada homem.

Tadeu Alencar, deputado federal (PSB/PE) e procurador da Fazenda Nacional

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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