Opinião

O atraso educacional

"Tudo caminha para o crescimento de uma desigualdade educacional sem precedentes entre estudantes que estão tendo acesso à educação e aqueles que ainda estão alijados por falta de conectividade digital". Leia a opinião de Mozart Neves Ramos

MOZART NEVES RAMOS
MOZART NEVES RAMOS
Publicado em 03/05/2021 às 7:58
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WELINGTON LIMA/JC IMAGEM
As escolas públicas do Brasil passaram a maior parte do tempo fechadas em 2020 - FOTO: WELINGTON LIMA/JC IMAGEM
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Tudo caminha para o crescimento de uma desigualdade educacional sem precedentes entre estudantes que estão tendo acesso à educação e aqueles que ainda estão alijados por falta de conectividade digital. As escolas públicas do Brasil passaram a maior parte do tempo fechadas em 2020, e assim continuam, por conta da pandemia. As escolas particulares, por sua vez, conseguiram chegar aos seus alunos por meio de ensino remoto, e posteriormente por meio do ensino híbrido. Um estudo conduzido pelo prof. André Portela, da FGV/SP, mostrou que, em relação às crianças brasileiras que ficaram sem estudar
em 2020 por falta dessa conectividade, é como se elas tivessem regredido aos níveis de aprendizagem de 2018.

É bem verdade que não se sabe ao certo qual o impacto que esse ensino remoto está produzindo na  aprendizagem, até porque ele foi introduzido sem a devida preparação de professores e sem a produção de material escolar adequado a essa modalidade. Foi preciso mudar o pneu com o carro em movimento. Certamente as escolas que já utilizavam essas novas tecnologias em seus projetos pedagógicos estão sendo mais amplamente beneficiadas quanto ao aspecto da aprendizagem escolar de seus alunos.

Em recente relatório, o Banco Mundial alerta para a urgência de controlar a crise educacional gerada pela pandemia em países dessa região. Segundo Emanuela Di Gropello, uma das principais autoras desse relatório, é crucial fechar rapidamente o fosso digital que persiste e aproveitar a atual crise para promover as mudanças que eram necessárias mesmo antes da pandemia.

Já em 2016, a Comissão para a Educação de Qualidade para Todos, do Diálogo Interamericano, em seu relatório “Construindo uma educação de qualidade: um pacto para o futuro da América Latina”, recomendava a necessidade de fortalecer o acesso às novas tecnologias na educação – como instrumento capaz de permitir abordagens híbridas de aprendizagens em sala de aula, em sintonia com as novas demandas do século XXI. O Brasil foi na direção contrária com o veto presidencial ao Projeto de Lei no 3.477/2020, que buscava garantir acesso à internet, com fins educacionais, a estudantes e professores da Educação Básica pública.

O problema é muito grave, e precisamos dar-lhe atenção em caráter de urgência. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), por sua vez, estima que cerca de 20% da população latino-americana não tem acesso adequado à internet móvel. E, se não estiverem conectadas, a possibilidade de famílias com fi lhos acompanharem as aulas é bastante baixa. “A conectividade deve
ser um direito humano”, argumenta Claudia Uribe, diretora de Educação da Unesco para a América Latina. Mas, enquanto isso não acontece, a região está exposta a “enfrentar uma catástrofe geracional” na educação, alerta Uribe.

Mozart Neves Ramos é titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP - Ribeirão Preto e professor emérito da UFPE

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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