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Um mau legado do governo Bolsonaro e do Congresso foi o adiamento do Censo

"O corte orçamentário e as condições sanitárias foram apenas desculpas. O País está sem Censo. Prevaleceu o contrassenso". Leia a opinião de Jorge Jatobá

Jorge Jatobá
Jorge Jatobá
Publicado em 04/05/2021 às 6:01
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Licia Rubinstein/Agência IBGE Notícias
O Censo não é apenas uma contagem universal da população e dos seus atributos - FOTO: Licia Rubinstein/Agência IBGE Notícias
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Um mau legado do Governo Bolsonaro e do Congresso Nacional, em 2021, foi o adiamento sine die do Censo Demográfico. O último foi realizado em 2010 e o próximo é uma incógnita. O Censo não é apenas uma contagem universal da população e dos seus atributos como idade e gênero, entre outros. O Censo realiza também a maior pesquisa por amostragem domiciliar do país onde várias características da população são estudadas em profundidade. Os dados da população como um todo e os derivados da amostra oferecem um retrato da situação socioeconômica e demográfica do país. A fotografia existente está borrada e defasada. Não oferece uma visão nítida e atual de como os brasileiros residem, estudam, trabalham, migram, morrem, etc.

Pesquisadores, formuladores de políticas, jornalistas, políticos, professores, entre outros, e instituições nacionais e internacionais de estudos e pesquisas ficam privados de informações atualizadas sobre a situação contemporânea da economia e da sociedade brasileira. É como se caminhássemos em um país de sombras.

Com base no Censo obtém-se multi-cenários da vida brasileira que fundamentam a formulação e avaliação de políticas públicas por parte da União, Estados e Munícipios, a alocação de recursos entre os entes da federação e decisões sobre os rumos dos negócios das empresas. Os dados censitários oferecem uma visão estrutural da população sobre as quais se assentam diversas outras pesquisas por amostragem feitas pelo IBGE e por institutos de pesquisa, públicos e privados nacionais e internacionais.

A ausência do Censo 2021 atingirá particularmente os municípios cujas principais características socioeconômicas só podem ser estudadas, a cada dez anos como o Índice de desenvolvimento Humano (IDH-M). Em 2020, justificou-se o adiamento do Censo por razões sanitárias já que estávamos no início de uma pandemia onde o vírus a cada dia escrevia sua história. Mesmo assim, os Estados Unidos realizaram seu Censo naquele ano. O IBGE preparou-se do ponto de vista técnico e sanitário para realizá-lo em 2021. A inviabilização resultou de decisão política que se manifestou em corte orçamentário pela convergência de interesses do Congresso e do Governo Bolsonaro. O primeiro privilegiou recursos para emendas parlamentares. Ao segundo não interessaria apresentar ao país em 2022, ano eleitoral, quando os resultados do levantamento censitário de 2021 seria de conhecimento público, um retrato devastador da atual situação socioeconômica do país. Se o Censo for realizado 2022, os resultados só serão divulgados em 2023, anos pós-eleitoral. O corte orçamentário e as condições sanitárias foram apenas desculpas. O País está sem Censo. Prevaleceu o contrassenso.

Jorge Jatobá, doutor em Economia

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

 

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