ARTIGO

Os caminhos de uma pianista

"Chamou-me, no entanto, a atenção para a verdadeira "virada" que Elyanna Caldas deu na vida, praticamente abandonando a carreira de recitalista e concertista internacional para dedicar-se ao ensino". Leia o artigo de Flávio Brayner

Flávio Brayner
Flávio Brayner
Publicado em 04/05/2021 às 6:07
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A pianista, acadêmica e professora Elyanna Caldas - FOTO: DIVULGAÇÃO
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Meu filho Lucas Brayner pediu-me para enviar-lhe um livro (ele mora em Porto Alegre fazendo doutorado em música) com as sonatas para piano de Beethoven. Procurando em seus caixotes, encontrei uma interessante autobiografia musical da pianista, acadêmica e professora Elyanna Caldas ("Caminhos de uma pianista"). Não resisti e li este pequeno e muito interessante livro de "memórias de formação". Elyanna Caldas é soberbamente conhecida como professora e, sobretudo, como pianista e, certamente, dispensará olimpicamente os comentários deste... ignorante musical. Não faz mal!

Elyanna formou-se em Varsóvia, Paris e Viena, onde participou ativamente da vida musical destas cidades e foi recebida pela nata da intelectualidade musical europeia tendo concorrido (e ganhado!) vários prêmios internacionais, alguns deles disputando com nomes como Nélson Freire ou Artur Moreira Lima. Chamou-me, no entanto, a atenção para a verdadeira "virada" que ela deu na vida, praticamente abandonando a carreira de recitalista e concertista internacional para dedicar-se ao ensino: assumiu uma cátedra na Universidade Federal (Departamento de Música, então coordenado pelo Padre Jayme Diniz) e, em seguida, a difícil tarefa de reestruturar o Conservatório Pernambucano de Música à época do segundo governo de Miguel Arraes, e tendo como Secretária de Educação, a professora Silke Weber, que a apoiou integralmente e a quem Elyanna cobre de elogios. O que me pareceu realmente interessante naquela "virada" não era o redirecionamento de seu talento, mas a iniciativa (tão comum na Europa do Leste, como tive a oportunidade de ver em Praga) de levar a música dita "clássica" para o meio da rua, para o ouvinte comum, para o simples "passante" baudelaireano: as Quartas Musicais que ela criou, os concertos nas igrejas recifenses, as tardes dos domingos musicais da Academia Pernambucana de Letras, sempre com uma explicação da obra, da vida do autor, do contexto em que viveu e da sua importância na história da música.

Nos início dos anos 60, recém retornado da URSS, o Maestro Geraldo Menucci, através do MCP, também criou projetos em que as Praças de Cultura (que Abelardo da Hora criou com apoio de Arraes) apresentavam uma riquíssima agenda de música clássica, teatro, mamulengo, pastoril, bumba-meu-boi... Uma geração (Ariano, Mário Câncio, Menucci, Germano Coelho, Anita Paes Barreto...) que acreditava que lugar de cultura é nas praças públicas e que uma vida republicana sem cultura não valia nem sequer a pena ser vivida!

Flávio Brayner, professor da UFPE

  *Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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