ARTIGO

A voz que vem das ruas, Bolsonaro, Lula, e as eleições de 2022

O quanto essas manifestações de hoje refletem o que podemos vivenciar em 2022?

Priscila Lapa
Priscila Lapa
Publicado em 07/06/2021 às 6:03
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ANDRÉ BORGES E NELSON ALMEIDA/AFP
Atos a favor e contra Bolsonaro no Rio e em São Paulo, respectivamente - FOTO: ANDRÉ BORGES E NELSON ALMEIDA/AFP
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Nas últimas semanas, o Brasil protagonizou eventos de mobilização de pessoas favoráveis e contrárias ao presidente Jair Bolsonaro. Até então, nada fora dos parâmetros da democracia brasileira, nos últimos anos amparada por fãs clubes eleitorais que protagonizam a tão falada polarização política. Mas temos uma conjuntura própria: vivemos um momento crítico da pandemia, temos uma CPI no Senado que pauta diariamente o noticiário político e temos o fator Lula, possivelmente de volta à corrida eleitoral. O quanto essas manifestações de hoje refletem o que podemos vivenciar em 2022?

O presidente Bolsonaro vai às ruas mostrar mais do mesmo: que não liga para aglomerações, que a pandemia não é fator de preocupação central do seu governo. Vai para mostrar força e que seus seguidores são fiéis. Até então, seus opositores estavam distantes das ruas, justamente para não caírem em contradição com a sua cobrança ao presidente pelo respeito ao distanciamento social. Mas, talvez instigados pela CPI da Covid, que até agora cumpriu o papel de acalorar os debates, diversos grupos de manifestantes organizaram protestos em várias cidades do país, com a participação, claro, de vários partidos de esquerda. Até que houve uma tentativa de manter o distanciamento social, as máscaras eram numerosas, mas geraram aglomerações.

A semana que se seguiu aos protestos da oposição foi marcada por tentativas do presidente e dos seus apoiadores, com ou sem mandato, de minimizar a força dos protestos. O fato é que agora o embate que estava muito mais restrito aos meios virtuais ganhou novamente ares presenciais. Já temos fotos circulando com comparações entre os dois grupos ocupando as cidades. Não restam dúvidas de que 2022 já chegou.

Uma das reações às manifestações dos opositores veio do presidente da Câmara Arthur Lira, para quem os protestos não passaram de uma caminhada, afirmando que não vai pautar o impeachment. Terá a população força para seguir "caminhando" até 2022? O crescimento da desaprovação do governo será causa ou consequência disso? Ao mesmo tempo, já há uma agenda de Bolsonaro para fazer seu passeio de moto por outras cidades, evento que rende imagens para toda a semana de análises políticas no país. E se rende, por que parar, de acordo com a cartilha do "fale mal, mas fale de mim"?

Já vimos esse filme antes. Disputa acirrada, polarização, bem contra o mal. Mas temos em curso um processo de dores e perdas como nunca antes tivemos. Temos cansaço, desesperança e poucas expectativas sobre o país que desejamos. Vamos dar tempo ao tempo, sem tentar adivinhar o que virá, cientes de que as ruas, agora como antes, têm voz.

Priscila Lapa, cientista política

  *Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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