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Melhor estontear-me com o labirinto da vida

'''Nada de retrair-me, sigo na plenitude dos caminhos, ora para frente, ora para trás, jamais indiferente ao derredor''. Leia o texto de Fátima Quintas

Fátima Quintas
Fátima Quintas
Publicado em 09/06/2021 às 6:06
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"Entrego-me ao ato de reler o que não escrevi, ainda que se conserve dentro do que sou" - FOTO: PIXABAY
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Tenho a sensação de que o tempo parou. Olho de um lado para o outro e me sinto sem entusiasmo. Tudo parece uma repetição do silêncio que avança em uma indefinida continuidade. O pensamento não se dinamiza, busco escutar o meu Eu, no entanto, não ouso transfigurar as ideias. O quarto de estudo é o mesmo, a poltrona também, mas as horas mudaram como se não conseguisse escutá-las. Mora dentro de mim uma ausência de criatividade que me atormenta com a sua sinfonia sem som. Abro a janela e aprecio a paisagem externa. Os pássaros voam com a esperança de aportar em algum lugar — tão livres na ousadia de lançarem-se ao mundo. Nada os detém. Acato a mensagem de louvor. Renovo-me em uma atitude de intensa vibração. Converso comigo mesma. Uma mudez abismal.

Não me mexo. Serei capaz de multiplicar os encantos, todos, sem exceção? Quem sou eu para alcançar o invisível? Pouco importa, o que desejo é rever-me interiormente. A alma sacoleja e eu a sinto em plena excitação. Entrego-me ao ato de reler o que não escrevi, ainda que se conserve dentro do que sou. Que direi diante do movimento externo a mim? Estou tão sozinha que não sou capaz de projetar-me para além do que aspiro? O importante é traçar a caminhada com um máximo de fantasia. Eis-me inteira no ato da confissão. Direi o quê, exatamente? Melhor estontear-me com o labirinto da vida. As ideias se debatem em uma ventania fabulosa. Hei de cantar asneiras, afinal, há uma voz que não se cansa de vigiar-me. Por incrível que possa parecer, de repente, já não me sinto sozinha. Moro no subterfúgio da interioridade, tão plena quanto ousada na sinfonia de palavras vãs.

E o silêncio aumenta o turbilhão que me invade. Nada de retrair-me, sigo na plenitude dos caminhos, ora para frente, ora para trás, jamais indiferente ao derredor. Entrego-me às coisas de todas as maneiras, quase enlouquecida com as próprias lembranças — um alongar-se indefinido. Nada indago, apetecem-me respostas. A intensidade do momento me leva à loucura. Que bom me dissecar sem limites! A ventania aumenta à medida que me debruço sobre o Eu. Não faz mal, a doação ao voo intimista avança na mira de um porto seguro. Que os atalhos me levem a algum lugar. Não escolho qual. Seguir é a meta do indefinido... Desconheço os portos. Estou sempre recriando espaços, necessito de inspiração para jamais deixar-me abater diante do muro proibitivo. Vai alto o dia. As nuvens nublam o céu, o sol persiste. Afasto os cansaços, aspiro a pulsação, desconheço o que não me apetece. Trago a alma envolta na mais profunda ilusão. Avanço para alcançar a plenitude. As sombras dormem na alameda, à procura da divina fragrância. O coração permanece sedento. Os rumos se multiplicam. Tudo é novo diante dos estímulos. E as sensações se exacerbam nas veredas do amanhã.

Fátima Quintas, da Academia Pernambucana de Letras

 *Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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