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Trata-se de amor jamais esquecido

"Eu a conheci aqui mesmo, no Recife, onde veio passar o Carnaval. Éramos jovens, na flor da idade". Leia o texto de Arthur Carvalho

ARTHUR CARVALHO
ARTHUR CARVALHO
Publicado em 09/06/2021 às 6:12
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"Naquela época, não havia computador e pouco se usava telefone em ligações interestaduais. Restavam as cartas" - FOTO: PIXABAY
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Oh, não me falem em velhos amores! - implorava o grande romancista Joseph Conrad. Trata-se de amor jamais esquecido. Eu a conheci aqui mesmo, no Recife, onde veio passar o Carnaval. Éramos jovens, na flor da idade. Gaúcha, olhos verdes e pele levemente bronzeada pelo sol ameno dos pampas, foi a moça mais bonita que ele viu, extasiou-se Odilon Maroja, quando a apresentei, fantasiada de índia pele-vermelha, antes de sairmos pro baile do Internacional. Ela gostou do Recife - e regressou, nostálgica, a Porto Alegre, depois de um mês entre nós.

Naquela época, não havia computador e pouco se usava telefone em ligações interestaduais. Restavam as cartas. E assim nos correspondíamos semanalmente. Mas a distância e o tempo não perdoam, e, um dia, tudo acabou, deixando o gosto amargo e doloroso do fracasso. Fui estudar Direito em Salvador, cada um seguiu seu caminho. Tempos depois, recebi, pelos Correios, volumoso envelope, devolvendo as cartas que lhe escrevi e comunicando seu casamento. Muitas luas se passaram, e, para minha surpresa, já no nosso escritório da Rua da Aurora, recebi seu e-mail. Dizia-se bem casada, com dois filhos, um rapaz e uma moça, tinha saudade do Recife e "das horas que passamos juntos". Queria voltar "ao Norte", assim que folgasse dos afazeres de empresária de eventos. E os constantes e-mails substituíram nossas cartas, sem nunca baixar o nível - "nem precisaria", avaliou o poeta Fernando Monteiro, discreto confidente. Uma noite, ela disse que enfrentava "certo desconforto", mas se tratava com especialista e esperava vencer a batalha, com a graça de Deus. E fiz promessa ao Senhor do Bonfim. Um ano depois "estava curada" - e gostaria de rever Pernambuco, jantar "lagosta ao coco" no Samburá, saboreando o tempero de "Seu Cícero", curtindo o azul do mar de Olinda, "quando estarei sempre em sua companhia".

Vários verões e invernos transcorreram sem ela cumprir o prometido. O minuano, vento frio e cortante das montanhas e planícies, soprou forte, açoitando seus cabelos louros, a sinistra palavra recidiva circulando célere entre familiares e amigos. Momento oportuno para eu declarar o que nunca havia declarado: "Eu lhe adoro!" - e a pronta resposta: "Uaaaau! Também te adoro!" Talvez pressentindo o fim próximo, confessou: "Você é uma pessoa muito importante na minha vida." A última vez que lhe telefonei, sua filha atendeu: "É o Arthur? A mãe está no hospital." Surpreso, desliguei devagar e pedi que me deixassem sossegado e sozinho no meu canto, em paz. Em paz?

Arthur Carvalho, da Ordem dos Jornalistas do Brasil

 *Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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