Opinião

Bolo da economia cresceu, mas a repartição dos pedaços está cada vez mais desigual e injusta

"Se o desemprego e a miséria tivessem uma face, poderiam ser demograficamente representados por mulheres, pretas, jovens e nordestinas". Leia a opinião de Priscila Lapa e Sandro Prado

PRISCILA LAPA Sandro Prado
PRISCILA LAPA
Sandro Prado
Publicado em 21/06/2021 às 6:50
FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
O empobrecimento da população mais vulnerável não se traduz apenas em índices, mas se escancara com o aumento das pessoas que ocupam espaços na rua como moradia - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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A crise econômica e sanitária coloca em tela um problema crônico da sociedade brasileira, negligenciado no contexto atual, especialmente pelo ente mais abastado, que é o Governo Federal: a desigualdade social. O Brasil, que figura entre os 10 países como maior concentração de renda do mundo, bateu um novo recorde negativo no primeiro trimestre de 2021, quando o Índice de Gini saltou para 0,674, frente ao 0,642, no mesmo período de 2020. O resultado indica um incremento considerável na concentração de renda, visto que, quanto mais o índice se aproxima de 1, maior é a desigualdade.

Com 14,8 milhões de desempregados e 6 milhões de desalentados, o número de trabalhadores subutilizados no Brasil chegou a 33,2 milhões. Ao mesmo tempo, a renda média despencou de R$ 1.122,00, no primeiro trimestre de 2020, para R$ 995,00 entre janeiro e março de 2021. A inflação acumulada nos últimos 12 meses, que alcançou a marca de 8,06% (IPCA) em junho, e que está bem acima da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional, torna a situação das famílias menos abastadas ainda mais crítica, devido à significativa e constante perda de poder de compra.

Se o desemprego e a miséria tivessem uma face poderiam ser demograficamente representados por mulheres, pretas, jovens e nordestinas. Pernambuco que, juntamente com a Bahia, figura em primeiro lugar no ranking brasileiro de população desempregada (21,3%), ocupa o terceiro lugar entre os estados com maior concentração de renda no Brasil.

Nesse contexto, iniciam as discussões sobre a prorrogação do auxílio emergencial e alterações no Bolsa Família. O presidente Bolsonaro, que já falou do tema diversas vezes, anunciando medidas que nunca se
concretizam, trouxe de novo à público nesta semana as mudanças que pretende fazer, como elevar o valor do Bolsa para R$ 300, trazendo para a equipe econômica o desafio de apontar de onde virão os recursos. Uma das possibilidades é a extinção do abono salarial PIS/PASEP, a fim de abastecer o orçamento do programa que beneficia as famílias da base da pirâmide, o que pode ser interpretado como um remanejamento dos pobres para os paupérrimos.

O empobrecimento da população mais vulnerável não se traduz apenas em índices, mas se escancara com o aumento das pessoas que ocupam espaços na rua como moradia, por completa ausência de condições de prover o básico para sua sobrevivência. Diante disso, dá para ter otimismo com a economia ou seria delírio? Bem, embora o consumo das famílias tenha apresentado um recuo de -0,1% no primeiro trimestre de 2021, o PIB teve um pequeno incremento (1,2%). O bolo cresceu, mas a repartição dos pedaços está cada vez mais desigual e injusta. Se você não recebeu o seu pedaço do bolo, certamente, alguém o comeu.

Priscila Lapa é cientista política; Sandro Prado, economista

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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