Opinião

Desigualdades educacionais

De acordo com a OCDE, é possível que países como o Brasil, que não tiveram uma coordenação nacional adequada ao enfrentamento da pandemia, sofram bem mais que outros em termos de retrocesso escolar e de regressão comportamental. Leia a opinião de Mozart Neves Ramos

MOZART NEVES RAMOS
MOZART NEVES RAMOS
Publicado em 12/07/2021 às 6:46
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Uma pesquisa da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV) em relação ao impacto da pandemia na primeira infância constatou que uma de cada quatro crianças apresentou regressão de comportamento - FOTO: Divulgação
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Os dados que começam a ser publicados, resultado de pesquisas de diferentes organizações, estão em absoluta sintonia com as nossas preocupações, já aqui relatadas nesta coluna do JC. Os mais recentes foram os do relatório produzido pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), intitulado "Panorama da educação brasileira", em uma perspectiva nacional e internacional; para acessá-lo, basta entrar no site e baixar na íntegra todos os resultados dessa pesquisa, que inclui Educação Básica e Ensino Superior. Os dados são de antes da pandemia, mas a OCDE traz insights importantes do que o Brasil precisa fazer pós-pandemia.

De acordo com a OCDE, é possível que países como o Brasil, que não tiveram uma coordenação nacional adequada ao enfrentamento da pandemia, sofram bem mais que outros em termos de retrocesso escolar e de regressão comportamental, especialmente as crianças menores, de até 6 anos. Uma pesquisa da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV) em relação ao impacto da pandemia na primeira infância, que ouviu 1.036 famílias, constatou que uma de cada quatro crianças apresentou regressão de comportamento em decorrência da pandemia, especialmente quanto à capacidade de se comunicar. Tais regressões são sinais de que a criança está sob estresse.

Já os dados da OCDE, que refletem uma situação anterior à pandemia, são bastante preocupantes e mostram um Brasil muito desigual, tanto em seu próprio território como em comparação com outros países. Por exemplo, quanto à proficiência escolar em leitura, a diferença entre estudantes brasileiros ricos e pobres no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) é de 98 pontos, enquanto a média em países da OCDE é de 89 pontos.

No que concerne à conclusão do Ensino Médio, na faixa etária de 25 a 64 anos, 47% dos brasileiros não concluíram essa última etapa da Educação Básica, enquanto nos países da OCDE esse percentual é de 22%. No que se refere à conclusão do Ensino Superior, o Brasil tem apenas 18% dessa população com diploma de nível superior, enquanto nos países da OCDE esse percentual é de 39%!

As taxas de reprovação por gênero, localização geográfica (urbana ou rural) e histórico socioeconômico revelam a desigualdade verificada no Brasil e relacionada aos demais países da OCDE. No Brasil, os estudantes de mais baixa renda, em comparação com os de renda mais alta, têm um índice de reprovação de mais que o dobro; em comparação com os de mesmo status financeiro, os mais pobres brasileiros são três vezes mais reprovados do que os da OCDE.

Por fim, o relatório da OCDE traz como uma grande conquista brasileira no campo da educação - e eventualmente um instrumento importante no combate à desigualdade - o novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Ao menos uma boa notícia, resultado da mobilização nacional em prol da educação.

Mozart Neves Ramos, Titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP - Ribeirão Preto e professor emérito da UFPE.

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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