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Apagão de mão de obra

Leia a opinião de Mendonça Filho

MENDONÇA FILHO
MENDONÇA FILHO
Publicado em 17/07/2021 às 10:58
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A Confederação Nacional da Indústria calcula que nos próximos dois anos o setor terá um déficit 300 mil profissionais FOTO:
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Da indústria, passando pelo comércio, pelo setor de serviços até o de tecnologia da informação, a toada é uma só: o país vive um apagão de mão de obra. Num país de 14,8 milhões de desempregados, o maior contingente da história, segundo o IBGE, esse dado mostra uma grande contradição. A desconexão entre educação e trabalho no Brasil, embora não seja novidade, chegou num ponto de estrangulamento. Segundo a professora Laura Machado, do Insper, em declaração ao jornal O Globo, não há referência no Brasil de outro momento de problema de oferta de mão de obra tão grande.

Considerando o histórico da nossa educação, que priorizou por décadas um ensino médio desconectado da formação técnica e profissional, o risco de um apagão sistêmico de mão de obra é a "crônica de uma morte anunciada". Refém de uma narrativa de esquerda, que demonizou o ensino técnico e a formação voltada para o mercado, o país caminhou na direção contrária à tendência internacional. Resultado: mesmo com desemprego recorde, sobram vagas em alguns setores pela falta de qualificação da mão de obra.

A Confederação Nacional da Indústria calcula que nos próximos dois anos o setor terá um déficit 300 mil profissionais. O Senai estima que em 2023 a demanda será de 401 mil trabalhadores, mas só 106 mil brasileiros serão formados no período. Na área de Tecnologia da Informação a situação é mais grave. A demanda é para agora: 250 mil vagas abertas no país sem mão de obra qualificada para preenchê-las. Números que expõem perdas sociais e econômicas geradas por equívocos na política educacional para o ensino médio.

Enquanto no Brasil só 11% dos estudantes cursam ensino técnico, na União Europeia são 42%. O que isso significa? O país negou, durante décadas, para várias gerações de brasileiros a verdadeira inclusão social. O ensino técnico eleva a escolaridade, impacta na geração de emprego, na produtividade, no aumento da renda e garante direito à educação e ao trabalho. A reforma do ensino médio, feita pela nossa gestão no MEC, em 2017, deu um passo fundamental para inserir o Brasil entre os países que investem na formação técnica profissional, ao incluí-lo no itinerário formativo permitindo ao jovem projetar seu futuro já no médio.

Como tudo em educação, essa mudança vai levar um tempo para a sociedade sentir seus efeitos. As demandas do setor produtivo, no entanto não esperam. Diversos setores e empresas mais afetadas pelo apagão vêm despertando para a necessidade de investir diretamente em cursos técnicos e no aperfeiçoamento contínuo. A formação técnica é o caminho para promover desenvolvimento econômico, inclusão social e reduzir desigualdades.

Mendonça Filho, ex-ministro da Educação e consultor da Fundação Lemann.

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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